Série Inspiração: O último tabu, por Carlos González

Junho foi um mês tão intenso no universo da humanização do parto e do nascimento que não sobrou nenhuma energia para atualizar o blog. Como não quero deixar passar muito tempo sem postar, e enquanto a inspiração para escrever algo original não vem, resolvi “pegar emprestado” as palavras de autores e ativistas que admiro e montar uma série “Inspiração”.

Serão trechos de livros traduzidos por mim ou textos escritos por terceiros (com os devidos créditos) para inspirar e instigar a reflexão. O primeiro da Série Inspiração é um trecho que traduzi das primeiras páginas da edição inglesa do livro Bésame Mucho, do pediatra espanhol Carlos González, publicada pela excelente editora Pinter & Martin. Em seguida, alguns comentários.

O queridíssimo e perspicaz pediatra Carlos González.

O último tabu

A nossa sociedade aparenta ser muito tolerante porque tanta coisa que era proibida há 100 anos hoje é considerada completamente normal. E, no entanto, se analisarmos mais a fundo, veremos que existem coisas que há 100 anos eram normais e que hoje são proibidas. Tão completamente proibidas que até nos parecem normais; tão normais quanto as proibições e os tabus de nossos bisavós lhes pareciam ser.

[…] Nossa sociedade, que é bastante tolerante em alguns aspectos, é menos tolerante quando se trata de crianças e mães. Esses tabus modernos podem ser classificados em três grupos.

  • Relativos ao choro: é proibido dar atenção às crianças, colocá-las nos colo ou lhes dar o que desejam quando estão chorando.
  • Relativos ao sono: é proibido deixar as crianças adormecerem em seus braços ou enquanto mamam, ninar ou embalar os bebês para que caiam no sono, dormir com eles na mesma cama.
  • Relativos à amamentação: é proibido amamentá-los no lugar ou na hora que for, ou amamentar uma criança que “passou da idade”.

Quase todos esses tabus têm um elemento em comum: eles proíbem contato físico entre mãe e filho. Por outro lado, todas as atividades que tendem a reduzir o contato físico e aumentar a distância entre mãe e filho são amplamente recomendadas:

  • Deixar a criança sozinha no quarto.
  • Transportá-la num carrinho de bebê ou bebê conforto.
  • Colocá-la na creche o mais cedo possível, ou deixá-la aos cuidados dos avós ou, melhor ainda, de uma babá (as avós “estragam” as crianças!).
  • Mandá-la para uma colônia de férias tão logo seja possível e pelo máximo de tempo possível.
  • Reservar “um tempo a sós” com o cônjuge, sair sem as crianças, curtir a vida “de casal”.

Embora algumas pessoas tentem justificar tais recomendações, insistindo que são para “ajudar as mães a descansarem”, o fato é que não proíbem atividades cansativas. Ninguém diz: “não passe muito tempo arrumando a casa ou seu marido ficará mal acostumado com uma casa limpa” ou “você acabará tendo que lavar suas roupas quando ele sair de casa”. Na verdade, é geralmente a parte mais prazerosa da maternidade que é proibida: deixar seu filho adormecer em seus braços, niná-lo, curtir a sua companhia.

Talvez seja por isso que criar filhos é tão desagradável para algumas mulheres. Requer menos trabalho do que antes (temos água corrente, máquina de lavar, fraldas descartáveis…), porém há menos recompensas. Numa situação normal, em que a mãe está livre para cuidar do filho como ela bem entender, o bebê chora pouco e, quando o faz, é doloroso para a mãe, e ela sente compaixão (“Coitadinho, o que houve?”). No entanto, quando a proíbem de pegá-lo no colo, dormir com ele, oferecer o peito ou consolá-lo, o bebê chora ainda mais, e a mãe fica impotente diante desse choro, e sua reação se torna zangada ou agressiva (“O que foi dessa vez!”).

Todos esses tabus e preconceitos fazem as crianças chorarem, mas também não fazem seus pais mais felizes. Então a quem eles agradam? Talvez aos pediatras, psicólogos, pedagogos e vizinhos que os recomendam? Eles não têm direito de lhe dizer o que fazer ou como viver sua vida ou como tratar seu filho.

Famílias demais sacrificaram a própria felicidade bem como a felicidade de seus filhos no altar de alguns preconceitos infundados.

O objetivo deste livro é derrubar mitos, quebrar tabus, e oferecer a toda mãe a liberdade para desfrutar da maternidade da maneira que deseja.

*

Talvez a escolha do termo “proibido” seja forte. Podemos substituir por “mal visto”. Ninguém proíbe a proximidade, o carinho, entre mãe e filho. Mas que esse carinho causa estranhamento em muita gente e até desconforto em uma boa porção, isso é inegável! Se você acha que estou exagerando, considere só essa lista com as atitudes diametralmente opostas àquelas que o dr. González ofereceu:

  • Ficar sempre no mesmo cômodo que a criança (inclusive levando-a para dormir em seu quarto).
  • Dispensar o carrinho e usar um sling ou carregador.
  • Ficar em casa nos primeiros anos, abrindo mão da carreira ou trabalhando de casa em meio período.
  • Negar-se a viajar sem os filhos, optando por levá-los a viagens internacionais ou preferindo passar as férias em casa.
  • Sair a três (ou mais) e não mais”a dois”, deixando para curtir os momentos a sós em casa quando a cria estiver dormindo.

Alguém duvida que esses comportamentos suscitariam olhares enviesados de estranhos, críticas de conhecidos e desconhecidos, palpites nada bem vindos e até mesmo discussões homéricas com parceiros e parentes?

Pois bem. Reflitam, questionem, e sintam-se livres para cuidar de seus filhos como manda a sua intuição e não as opiniões dos palpiteiros de plantão.

Até a próxima inspiração.

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8 Comentários

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8 Respostas para “Série Inspiração: O último tabu, por Carlos González

  1. Nat

    o Gonzalez é ótimo. qdo comecei a ler o Besame Mucho, até fiz um post sobre isso (http://maederna.wordpress.com/2012/02/10/carlos-gonzalez-seu-lindo/), tamanho impacto me causou. prometi uma resenha, que ainda não saiu do papel por falta de tempo. mas a relação de afeto com os filhos virou tabu num mundo que prioriza tudo, menos o afeto, a proximidade, a entrega. boa escolha pra começar a série.

  2. Adorei! Parabéns pela escolha, ele é um dos meus autores favoritos.
    Um dia desses fui parada por uma senhora na padaria porque estava com meu filho de 3 meses mamando no sling. Ela perguntou se ele não estava sufocado, daí eu disse que não. Não satisfeita ela perguntou se ele era um “indiozinho” para ficar ali naquele pano (moro no Amazonas), meu sangue ferveu tamanho era o preconceito. Daí eu virei e disse que se ela tivesse vindo da Dinamarca ok, de outra forma todos do meu Estado éramos indígenas, sorte nossa porque os índios sabem muito mais criar filhos do que nós. Arff.
    Abraços,
    Renata.
    http://www.betapositivo.com

  3. Clarrisa, nada poderia ter falado mais alto no meu coração do que esse post. Estou passando justamente por isso, por que coloquei a cria na escola e ela simplesmente não quer mais ir, depois de uma primeira semana bem tranquila. Insistimos e ela entrou em uma séria infinita de doenças. Não tenho mais dúvidas. Vou tira-la da creche e aguardar que esteja pronta para isso, como esperei que ela estivesse pronta para nascer, como esperei que ela estivesse pronta para ser desmamada, aos 3 anos e 3 meses…. obrigada!

  4. Obrigada pór trazer até nos um texto tão rico, com ensinamentos preciosos que há muito se perdeu no tempo.
    Creio que parte da nossa geração já está praticando o apego.
    Qndo vejo familias antigas em que os filhos nasceram na decada de 40, 50 e até 60, vejo a enorme diferença que eles tem com relação a convivencia entre eles e os pais já muito idosos, é muito diferente de muitos de dessa geração, inclusive falo por mim, eu não tinha muita ligação com meu pai, e nem tenho ligação com a minha mãe.No entanto eu tenho um tio que criou os filhos com muita proximidade e eu inclusive tive muita convivencia com eles, e essa é a minha referencia de familia.
    Pra mim faz todo o sentido isso isso hj, é é por isso que crio meus filhos com muito apego!

  5. Maria Fernanda

    Nossa. Da listinha de coisas aprovadas pelo Carlos González eu só não implantei o uso do sling. Minha filhota não gostou dele porque é muito quente onde moro e o carrinho sempre foi mais interesante para ela.

    Voltei a trabalhar integral quando Isabela fez 1 ano e 3 meses. Queria estender um pouco mais, mas infelizmente não foi possível. Pratico cama compartilhada e marido e eu aproveitamos que ela dorme cedo para curtir um ao outro em outro quarto. E já fomos para Europa quando ela tinha 11 meses!!!!!

    Nessas horas fico feliz em ver que a forma como lido com a maternidade tem respaldo tão forte, quanto do Dr. González. Eu sempre me questiono, pensando se estou no caminho certo, mas não consigo fazer diferente. Muito confortante esse texto.
    Beijos

  6. Patrícia

    A-do-rei!
    Me achava uma mãe meio diferente por tratar meus filhos com esses “mimos”…rs
    Sempre respondi a eles com carinho e proteção, sem me incomodar se ficariam muito dependentes e etc.
    Sempre dormiram no meu quarto, tiveram colo qdo quiseram, mamavam qdo tinham vontade, sempre abri mão d trabalhar nos primeiros anos pra cuidar deles, viagens e passeios se não for em família não têm graça nenhuma, o primeiro só foi p escola no Jardim, tipo com uns 4 anos… e com os demais pretendo fazer o mesmo…
    Ai q bom me certificar d q não estava “estragando” meus filhos, mas apenas instintivamente obedecendo meu coração e indo d encontro a essas tradições esquisitas, q servem mais pra agradar aos outros do q a mãe e filho diretamente!

  7. Muito legal… nao ha maior gratificacao do que saber que estou no caminho certo! Beijos

  8. Natalia

    Olá!
    estou procurando esse livro, mas só tem em espanhol mesmo? Não há uma versão em português?

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