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Afinal, Perinatal, o que querem as mulheres?

Duas semanas atrás, uma amiga muito querida (grávida de sete meses) e seu marido (que carinhosamente apelidei de “superdaddy”)  fizeram uma visita guiada pela mais moderna e brilhante maternidade privada do Rio. Ao contrário do que você imaginaria em se tratando de tão requisitada instituição, saíram de lá com uma péssima impressão.

“Senti como se qualquer coisa fosse mais importante (a decoração do quarto, as visitas, as fotos, blá blá blá) do que o motivo para se estar ali: parir. Não conseguimos conhecer a sala de parto, mas fomos apresentados a uma hospedagem como se estivéssemos procurando um hotel!”, desabafou minha amiga. Superdaddy teve a nítida sensação de que, para conseguirem o parto e o nascimento que desejam – natural, humanizado, respeitoso -, precisarão lutar por isso com unhas e dentes. (Ele está certíssimo, infelizmente)

A tal “sala de parto humanizada” da Perinatal da Barra. Hmm.

A julgar pela visita deles, as mulheres que buscam os serviços da Perinatal (e de outras maternidades privadas) querem mesmo manicure, escova, maquiagem, luzes, câmera e ação! Apesar das campanhas do Ministério da Saúde, das indicações da OMS e da preferência expressa por várias mulheres (famosas e plebeias), as maternidades parecem achar que o que importa para nós são as futilidades e os adornos, e não a experiência de dar a luz aos nossos bebês.

Mas será que é isso mesmo? Será que nós mulheres, no momento mais transformador de nossas vidas, queremos só perfumaria, frufrus e falsas promessas de “humanização”?

Eu acredito que não. Acredito que queremos o melhor para nossos filhos. Infelizmente, nem todas nós sabemos o que isso significa. E é aí que as maternidades particulares nos deixam na mão. Porque, na condição de instituições de saúde (e não casas de show, hotéis ou fábricas de bebês), as maternidades deveriam nos direcionar para as melhores práticas em saúde e não para supérfluos que nada têm a ver com a saúde do par mãe-bebê.

No entanto, baseado em relatos de conhecidos (“Me senti em um hotel, em um fast food de bebês!” disse outra amiga) e da maioria dos famosos (como o caso recente da celebridade que “tentou”, mas acabou caindo na cesárea nesse mesmo hospital), o interesse das maternidades não é nas melhores práticas. O modelo de negócios é mais parecido com a fábrica de pães mesmo. Disfarçada de hotel 5 estrelas, claro.

É uma simples questão de grana (lógico! poderia ser de outra coisa? saúde, ética, medicina baseada em evidências – não, esses “detalhes” não entram na conta das maternidades privadas brasileiras). Será que estou sendo cínica ou irônica demais?

Vou provar que não. Primeiro, os números:  os hospitais e maternidades privados têm taxas de cesáreas que beiram ou até superam os 90%. Grande parte dessas cirurgias são agendadas (ou seja, feitas fora do trabalho de parto) – para conveniência da equipe médica e também da instituição, que pode encaixar todas as pacientes na sua “linha de produção padrão” (e, de quebra, possivelmente lucrar com os dias que o bebê tirado prematuramente ficará na UTI neonatal). As experiências de pessoas aguardando a chegada do bebê no berçário me lembram muito a espera de uma pizza num restaurante (“já saíram dois bebês, será que o próximo é o fulaninho?”). Em contrapartida, a paciente de parto normal é duplamente “ruim” para os negócios; ela não só ocupa a sala de parto por mais tempo, como também fica internada por menos tempo. Claro que isso seria facilmente resolvido com salas de PPP (pré-parto, parto e puerpério), mas isso é outra história!

Agora vamos às evidências menos tangíveis. O site da Perinatal tem uma ficha de pré-internação para agilizar o processo para as futuras famílias. Mas – saca só –  a ficha só tem duas opções: “cirurgia de emergência” e “cirurgia eletiva”(cadê o parto normal? oops! #fail).

As maternidades paulistas são ainda mais descaradas. A Pró Matre (89,5% de cesáreas em 2009) diz no site que é “pioneira no conceito de atendimento humanizado” e depois, no parágrafo seguinte, ao descrever sua sala cirúrgica estilo aquário (fazendo do nascimento um espetáculo para ser mostrado e não vivido), deixa escapar que “o visor plasmático permanece opaco durante a cirurgia” (ué, e o parto? pra onde foi? ih,  sumiu!). A campeã em cesarianas na capital paulista, a maternidade Santa Joana (93% em 2009), se promove como “uma das melhores maternidades de todo o país” e diz para as futuras clientes que “toda a atenção está voltada para a sua satisfação, a sua segurança e o seu bem estar”. Hm… se a preocupação fosse a satisfação (70% das mulheres desejam o PN), a segurança (ele é 4 vezes mais seguro que a cesárea) ou o bem estar (apresenta menor índice de depressão pós-parto, maior vínculo mãe-bebê pós-parto e maior sucesso na amamentação), não teriam só 7% de partos normais, né não?

E isso é só o parto – não vou nem entrar no atendimento ao recém-nascido! A minha querida amiga teve que “corrigir” o funcionário da Perinatal por mais de três vezes quando ele lhe apresentou o berçário dizendo que era lá que seu bebê ficaria. Ela falou em alojamento conjunto – prática recomendada por praticamente todos os órgãos de saúde (Ministério da Saúde, OMS, AAP) – e ele a fitou como se fosse uma alienígena. Sobre a mesma maternidade, ouvi de uma enfermeira obstétrica: “tivemos dois casos recentes […] em que o pediatra deu alta (sem observação, direto pro quarto) e foi embora. E o berçário sequestrou mesmo assim.” Cadê o respeito? Cadê as melhores práticas? Cadê a humanização?

Parece que as maternidades privadas estão pouco se lixando para isso. Contanto que o dinheiro continue entrando, que os médicos “bonzinhos”  sigam fazendo suas cirurgias, e os leitos permaneçam cheios (até mesmo os da UTI neonatal), para eles está ótimo! [e ai de você que pensa que a São José aqui no Rio é melhor – esta consegue ser ainda menos comprometida com os desejos das parturientes, já que não aceita a entrada de doulas e nem tem sala humanizada]

Portanto, acho que a pergunta do início não faz muito sentido. Ela precisa ser invertida: Afinal, mulheres, o que nós queremos  das maternidades em que teremos nossos filhos?

Sala de parto de uma maternidade na Alemanha

Escova e maquiagem? Quarto decorado? Berçário-aquário (com plateia, luzes e câmeras)?

Ou será que temos a coragem de querer e de exigir MAIS do que isso – para o bem de nossos filhos e de nós mesmas?

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Nesse Dia das Mães, vamos dizer NÃO às mommy wars!

Desde quinta-feira todos estão falando da impactante capa da TIME que traz uma jovem e bela mãe com seu filho de 3-4 anos em pé num banquinho, mamando, e a provocação, em letras gigantes, “Are you mom enough?” (você é mãe o suficiente?). Nas mensagens de Facebook, no Terra, na BBC Brasil, no USA Today e em vários blogs nacionais e internacionais, não falta gente defendendo ou repudiando a matéria e/ou a realidade que ela tentou ilustrar.

Trata-se do Attachment Parenting, cuja tradução seria “criação com apego”, um estilo de maternar que preconiza um vínculo mais próximo entre pais e filhos, muito colo e carinho, e pode vir acompanhado de escolhas como a cama compartilhada, a amamentação prolongada, o uso de slings e uma opção por ficar em casa com os filhos, prolongando a licença maternidade, mudando de área ou abandonando de vez a carreira. A revista – apesar de algumas alfinetadas básicas nessa filosofia supostamente “sacrificante” para as mulheres (hm… depilação também é sacrificante, mas ninguém acha que devemos parar de fazer, né?) – conseguiu fazer um retrato equilibrado sobre as origens dessa filosofia, seu ideólogo,  seus praticantes e a atual situação (de guerra) em que se encontram as mães americanas.  No entanto, não tem como negar que, ao escolher estampar na capa a imagem de um inegável tabu para os americanos (a amamentação prolongada) e, em letras vermelhas, a inflamatória acusação disfarçada de pergunta de que algumas mães, aos olhos das praticantes do Attachment Parenting, seriam “menos mães”, a revista conscientemente jogou lenha na fogueira das Mommy Wars (guerra entre mães). Cutucaram a ferida de todas as mães – será que estou fazendo o certo? será que estou sendo uma boa mãe? – e devem estar amando toda a atenção recebida.

Criticar as escolhas das mães vende revista. Sugerir que um estilo de criar filhos é melhor ou pior, moderno ou antiquado, razoável ou louco, dá ibope. Colocar uma mulher contra outra satisfaz aquele velho estereótipo de que as mulheres  não são parceiras, que só competem entre si, que são moralmente fracas e egoístas.

Bom, eu, Clarissa, me recuso a ocupar este lugar. Não vou julgar as mães. Hoje não. Não vou julgar a mulher que tomou injeção para secar seu leite, não vou julgar as mães que não saem de casa sem a babá ou a folguista, não vou julgar os pais que oferecem coca-cola, chocolate e batata frita pro bebê e não vou julgar quem se ofendou com a foto da TIME.

Mas eu vou sim julgar e criticar uma sociedade em que mais vale a mulher que terceiriza a maternidade para ter tempo de ficar “gostosa” ou ganhar dinheiro do que aquela que escolhe viver integralmente a sua identidade como mãe. Vou me revoltar sim contra uma sociedade que permite e aplaude quando uma mulher coloca seu status sexual em primeiro lugar (sacrificando-se por horas na academia ou no salão de beleza para ficar sarada e bem cuidada) ou prioriza sua identidade profissional (passando horas no trabalho, no blackberry, viajando para reuniões e colecionando aumentos), mas que critica e xinga a mulher que “larga tudo” para ser mãe. É pra isso que estou aqui, escrevendo, provocando, ouvindo.

No entanto, hoje, peço que vocês juntem-se a mim nesta causa: recusem-se a julgar as outras mães! Vamos ouvir, apoiar, entender, respeitar. Eu sei que é difícil, mas é necessário. Portanto, se você, como eu, costuma julgar as escolhas das outras, tente, pelo menos neste dia, fazer diferente.

Aproveite para refletir, faça uma autoanálise: quem é que você costuma julgar? Mães magras, mães gordas? Mães moças, mães velhas? Mães que terceirizam, mães que ficam em casa? Mães que dão mamadeira, mães que amamentam até os 4 anos? Mães gostosas, mães largadas? Mães tecnológicas, mães terra? Mães solteiras? Mães lésbicas? Mães consumistas, mães comunistas?

Pare para pensar e, mesmo que seja só hoje, pense diferente sobre elas. Afinal, ao menos duas coisas elas têm em comum com você: são mulheres e são mães.

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Maternidade: a última fronteira da globalização?

Algumas observações sobre a criação de filhos em diferentes culturas

Não foi por acaso que escolhi estudar antropologia cultural na faculdade. Antes de completar 18 anos, estudei em 3 continentes e, quatro anos mais tarde, havia morado em 5 países diferentes (onde morar = habitar por um período maior que 90 dias). Pode-se dizer que passei a vida toda observando, comparando e pensando sobre as diferenças – e as semelhanças – entre práticas culturais de vários países. Em três desses países também tive bastante contato com crianças: no Brasil, obviamente, em várias fases da vida; nos EUA, na minha adolescência, como babysitter nas horas vagas; e, aos 22 anos, na Dinamarca, onde passei 6 meses ganhando a vida como au pair, cuidando de um bebê de 1 ano.

É claro que na Dinamarca, nos Estados Unidos e no Brasil há diferentes tipos de pai e mãe, tomando decisões diversas e se identificando com várias “tribos”. Mas pode-se dizer que determinados comportamentos ou atitudes são quase universais sob o ponto de vista cultural e, nessas coisas, a população diverge pouco. Queria falar sobre algumas particularidades culturais que talvez causem “estranhamento” em alguém que não pertence ao país, mas que são importantíssimos para definir a “identidade cultural” dos cidadãos desses países. Quem sabe você não queira adotar algum hábito “estrangeiro” ou simplesmente venha a enxergar a sua própria cultura com novos olhos?

E.U.A: a pressão pelo destaque e pela excelência

Bebês americanos: (hiper)estimulados desde cedo

Foi difícil escolher um único elemento da cultura americana para descrever. No início, pensei em falar sobre a prática universal de ler um livro infantil antes de dormir. É um hábito totalmente enraizado, praticado por pessoas de todas as classes sociais e “tribos” da maternidade desde a tenra infância, e algo que eu mesma pretendo adotar. No entanto, parei para pensar e vi que, na verdade, esse hábito faz parte de um quadro maior: a necessidade de desenvolver habilidades e talentos e se destacar na sociedade desde cedo. As crianças americanas de maneira geral sofrem uma pressão absurda. Seus pais não esperam que sejam meramente saudáveis ou “boazinhas”; elas precisam ser mais inteligentes, mais talentosas, mais especiais que as demais… De maneira geral, eles torcem para que os filhos sejam precoces em tudo e, para isso, estão dispostos a investir tempo e dinheiro. Desde os DVDs (picaretas) que prometem fazer seu bebê mais inteligente aos CDs de Mozart para bebês ainda em desenvolvimento no útero materno e à suplementação de Omega 3 e DHA na gravidez, há uma verdadeira obsessão por desenvolver o cérebro do filho e garantir-lhe uma vaga em Harvard ou Yale. Crianças pequenas, de três anos, fazem milhares de atividades para garantir um currículo completo e uma gama de talentos que precisam ser “aprimorados” o quanto antes: aulas de piano, de futebol (para meninas), de beisebol (para meninos), DVDs de uma segunda língua (agora a moda é mandarim), brinquedos “educativos”, “flash cards” para melhorar a memória dos pequenos e “play dates” (encontros marcados para brincar). Toda essa agenda é obsessivamente pensada para que a criança desenvolva habilidades importantes para que, futuramente, ela venha a ser um grande líder na área que escolher. Quando não é a excelência acadêmica o esperado, é o destaque em qualquer outra área (esporte, música, teatro). O fato é que muitas crianças americanas são encaradas como um projeto pessoal dos pais e, portanto, sofrem uma pressão enorme por serem bem-sucedidas ou “únicas” de alguma maneira. Não é à toa que lá tem tanta criança prodígio e tantos pais optando por educar os filhos em casa, seguindo um currículo feito totalmente sob-medida – para o bem e para o mal.

Dinamarca: a reverência pela natureza

Faça chuva ou sol, a soneca do bebê dinamarquês é ao ar livre

Quando cheguei na casa do Sebastian, o bebê apaixonante de quem eu iria cuidar pelos próximos meses, nos arredores de Copenhague, era inverno. O termômetro registrava em torno de -5 graus. Mesmo assim, as instruções eram claras: todos os dias, às 11 da manhã, eu deveria embrulhar o pequeno num saco de dormir (feito de pena de ganso), colocá-lo no seu carrinho (aqueles à moda antiga) e levá-lo para um passeio até que ele adormecesse. Ele deveria ficar dormindo lá fora, com a babá eletrônica estrategicamente posicionada, até a hora de acordar. Imagino que vocês estejam reagindo da mesma forma que eu, dez anos atrás: Como assim colocar um bebê de 10 meses para dormir por 2 horas num frio absurdo? Ah, detalhe, se estivesse chovendo, era para cobrir o carrinho com a capa de chuva. Acontece que, na Dinamarca, a natureza é respeitada acima de tudo. E as crianças são expostas a ela desde o dia em que nascem. No inverno, elas dormem no frio, para receber o “ar fresco”. Na primavera, bebem água adoçada com a flor do sabugueiro do quintal. No verão, comem frutas vermelhas direto do pé e no outono saem para catar maçãs. Em todas as estações são estimuladas a ficarem próximo da natureza – na neve, na terra, na areia, no parque. Até mesmo as crianças de Copenhague, a capital. Vale a pena acrescentar mais duas curiosidades sobre os bebês na Dinamarca: eles mamam no peito costumeiramente até os 2 anos ou mais e a preferência nacional é por brinquedos de madeira ou pano. Quase não vi brinquedos de plástico por lá. De novo, a importância de respeitar e ficar próximo da natureza e de matérias primas naturais. Por fim, uma curiosidade: o Sebastian não tinha nenhuma peça de roupa na cor vermelha – lá vermelho é cor de menina.

Brasil: a importância de ser belo

Imagine a seguinte cena: seu filho está se comportando mal numa festa ou na casa da sua sogra. Qual a palavra que você usa para reprimi-lo? Feio. “Isso é muito feio, filho, para com isso!” Quando queremos incentivar, a palavra é bonito. Feio é a pior coisa do mundo. Quem não desejou com toda sua força que no filho nascesse bonito, que tivesse os olhos azuis do avô ou o cabelo “bom” (odeio esse termo!) do pai? Quanto não se gasta no Brasil com adornos totalmente inúteis cujo único propósito é embelezar e enfeitar a cria? Sapatinhos de croché, fitas, roupas engomadas, mantas que combinam com a roupa… Uma coisa é certa: já viajei bastante e somente no Brasil eu vi para vender faixas e fitas de cabelo para nenéns recém-nascidas. Também desconheço uma cultura em que seja tão comum (hegemônico, até) a prática de furar as orelhas de uma bebê com meses ou semanas de idade, uma atitude cuja única função é estética. Pois é. Infelizmente, nessa minha análise de práticas culturalmente peculiares (e que seriam consideradas estranhas ou desumanas para quem é de fora), a característica brasileira não poderia ser mais fútil. Aqui espera-se que os bebês (especialmente as meninas) sejam belos – verdadeiros bonequinhos, preciosos e emperequetados. O maior elogio para a mãe brasileira é ter seu filho equiparado a um bebê Johnson’s, a ponto de existir para vender shampoos que prometem clarear o cabelo do pequeno para que fique loiro. Com camomila, claro. Natural, óbvio. Mas comprar um produto cujo único propósito é tornar seu bebê mais belo é sinal de que, talvez, damos importância demais às aparências.

Enfim, nesse exercício, busquei descrever um elemento da cultura de criação de filhos que nos outros países causaria um estranhamento. A neurose por destaque e excelência dos EUA pode interpretada como cruel ou doentia nos outros países. Expor um bebê de 4 meses aos elementos da natureza seria considerado louco ou irresponsável no Brasil ou nos EUA. E, por fim, a nossa obsessão nacional pela estética, até dos bebês, não é vista como “natural” pelos estrangeiros.

Não estou dizendo que a criação de filhos no Brasil se resume a isso e, juro, queria ter trazido para cá uma avaliação mais positiva sobre as práticas brasileiras. Mas não consegui, sinceramente. Porque a diferença sobressalente que enxergo – pelos produtos, as propagandas e as conversas entre amigos – é a preocupação com a estética. Alguém pode me ajudar a ver algo mais positivo que seja característico da nossa cultura?

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A boa mãe, ou, que p*rra é essa?

“O verdadeiro desafio da maternidade é você, não seu filho”Oliver James

Quando pergunto a uma amiga que tipo de mãe ela quer ser, invariavelmente escuto como resposta “uma boa mãe”. Oras, assim é fácil, né? Toda mulher que sonha e se prepara para ter um filho quer ser uma boa mãe! Mas o que será isso – seria uma espécie em extinção, uma figura celestial ou um mito inalcançável? Eu, pessoalmente, não acredito muito nesse ideal único de “boa mãe”. Sou adepta de Winnicott, o psicanalista inglês que disse que a boa mãe é a mãe boa o suficiente. Acredito na mãe possível, que faz escolhas conscientes, se informa para fazer o que é mais natural para ela e para o seu filho, sem ter medo de colocar nessa equação as suas próprias necessidades. É uma mulher que se prepara com informação e autoconfiança, e que toma decisões baseadas na própria felicidade e bem estar, ao mesmo tempo em que garante as necessidades dos filhos. Uma mãe sem culpa, que não padece em paraíso. Não sei se isso existe, mas acho uma meta saudável.

Um tempo atrás, recebi para avaliar na editora o livro de um psicólogo inglês chamado Oliver James, especialista em expor alguns “podres” da sociedade britânica e fazer seus compatriotras refletirem sobre assuntos difíceis e polêmicos. Um desses livros se tornou um pequeno clássico por aquelas bandas: They F**k you Up (“Eles f*odem com a sua vida”), título inspirado num poema genial de Philip Larkin, que analisa os efeitos nocivos de escolhas inadequadas na primeira infância (de 0 a 6 anos). Por que estou falando disso? Porque a continuação, How not to F**k them Up (Como não f*der com a vida deles), o livro que avaliei, apresenta alguns conceitos interessantes.

James divide as mães em três grupos básicos, baseado na personalidade de cada uma: a organizadora (“organizer”), a grude (“hugger”) e a flexi-mãe (“flexi-mum”). As duas primeiras caiem nos extremos, representando 25% da população (cada), enquanto metade das mães se identificam como flexi-mães (um meio termo).

A típica organizadora não muda sua rotina para o bebê

A mãe organizadora poderia ser chamada de “executiva”, exemplificada pela imagem de uma mulher de terno, salto alto, notebook e nem um fio de cabelo fora de lugar. Ela tende a ser organizada (duh..), regrada, disciplinada, ambiciosa e super racional. A gravidez da mulher organizadora, de maneira geral, não é vivida como um prazer e sim um “mal necessário”. Estar grávida é sentir-se invadida, com o corpo entregue a um outro ser. Essa mulher não gosta de ser lembrada do seu lado “bicho” e, de maneira geral, tenta colocar um senso de ordem e regras no corpo gravídico. Ela curte as consultas médicas e os exames (até mesmo os mais invasivos),  porque conferem uma sensação de que está tudo “sob controle”. Como valoriza o tecnológico e teme as forças “caóticas” da natureza, tende a agendar seu parto, seja induzindo um parto vaginal (lá fora, nunca aqui no Brasil) ou marcando a cesárea (mais comum por aqui). Sente-se muito desconfortável na primeira fase de vida do bebê, que ela entende como um bichinho dependente e assustadoramente frágil. Ela é fã de rotinas, horários, babás (eletrônicas ou não), mamadeiras e chupetas. Sua missão é civilizar o filho, fazê-lo entrar numa rotina e ganhar sua independência. Sente-se frustrada com o rompimento da sua rotina, sua identidade como profissional e mulher independente, podendo (ou não) descontar isso no filho.

Felicidade, para a mãe grude, é estar com seu filho

Já a mãe grude é o oposto de tudo isso. Imagine uma mulher de saia e sandálias, cabelos soltos e sem maquiagem, pronta para sentar na grama com sua cria e brincar na lama se for preciso. Sua maior ambição é ser mãe e sua meta é estar presente em todos os momentos da vida do filho. Ela adora ser mulher e se sente abençoada por poder gerar um filho em seu ventre. Sonha com um parto natural, conversa com o bebê desde que se descobriu grávida e, depois que ele nasce, não quer ficar um minuto longe dele. Adora amamentar, não deixa o bebê chorar por mais de 5 segundos e  até dorme junto a ele se possível. A mãe grude, também chamada de mãe mamífera em alguns círculos, esquece do resto do mundo  pelos primeiros meses da vida do seu bebê, dedicando-se a ele de corpo e alma. Podendo escolher,  ela nem volta da licença maternidade, optando por ficar em casa e cuidar do filho em tempo integral. Palavras que predominam no vocabulário das mães grudes incluem: natural, orgânico, atenção, colo, amamentação prolongada, não-violência, vínculo, sintonia. Sua missão é criar o filho com carinho e paciência, colocando suas necessidades à frente das demais (carreira, casa, marido, visual). Seu maior medo é sentir que o filho não precisa mais dela e ela pode, inclusive, acabar inconscientemente limitando a sua independência a medida que ele cresce.

Nenhuma dessas mães é perfeita – a organizadora chamaria a outra de “xiita, hippie, doida” e a grude a chamaria de “egoísta, fria, desnaturada”. Mas ambas podem ser boas mães. E engana-se quem pensa que a flexi-mãe consegue fazer “o certo”. Porque isso não existe. Qualquer um dos estilos é válido. Segundo James, só não vale a mulher fingir ser algo que não é, nem se convencer de que o seu estilo é o mais correto. O importante, na maternidade como na vida, é estar feliz com suas escolhas (e assumir as consquências das mesmas).

Eu tenho fortes tendências da mãe grude, mas com umas pitadas de organizadora. E você: se identifica mais com a organizadora ou com a grude?

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Por que mais um blog sobre maternidade?

Desde menina, sonho em ser mãe. Antigamente, queria ter quatro filhos. Bom, esse número eu abandonei, mas o sonho continua. Agora, aos 32 anos, ele está próximo de se realizar. Assim espero. Estou, oficialmente, tentando. Há um ano estou tentando me preparar – emocional e psicologicamente – para essa “viagem” e, por ser uma leitora meio obsessiva, estou com um ano de informação e pensamentos acumulados. Sempre gostei de escrever e de expor minhas análises e opiniões (nada ortodoxas) a amigos e conhecidos, e quando nasceu a ideia de ter um blog achei o que havia encontrado o meu caminho. Afinal, a blogosfera é o lugar perfeito para desconhecidos monologarem sobre tudo o quanto é assunto! E, de quebra, eu transformaria minha busca incessante por informação em algo que poderia ajudar os outros. Mas a verdade é que esse desejo de discursar sobre temas muito queridos ficou muito tempo na incubadora. Ao longo de meses acompanhando, conhecendo e pesquisando blogs e sites relacionados a maternidade, duas perguntas teimavam em aparecer para freiar a minha empolgação:
1. Por que criar mais um blog sobre maternidade se tudo que eu penso já foi dito antes e, geralmente, de forma muito eloquente, profunda e bem humorada?
2. Quem vai querer acompanhar um blog sobre gravidez, parto e maternidade de alguém que não é nem mãe, nem doula, nem obstetra, nem consultora em amamentação, nem pediatra e nem “baby expert”?

Antes de entrar nos assuntos que quero abordar aqui no blog – dos mais fúteis (enxoval, brinquedos, roupas) aos mais filosóficos (o que é uma boa mãe, como fazer escolhas conscientes na gravidez e parto, por que amamentar é tão difícil) – preciso responder a essas perguntinhas chatas. Espero que as respostas sirvam, de certa forma, como uma apresentação.

1. Pois bem. Não prometo que esse blog será especial, nem mesmo que haverá um “diferencial” ou um ponto de vista focado no público x, y ou z. Só posso afirmar que três aspectos fundamentais da minha identidade o nortearão: minha cabeça de antropóloga e feminista, minha vivência como editora (e devoradora) de livros e, por fim, minha paixão pelo tema. Eu entendo esse universo da gestação e da maternidade como algo que está inserido na nossa cultura e que, portanto, é influenciado por vários fatores (ideologia, questões econômicas, mitos e preconceitos). Acho fundamental expor e debater esses fatores e elementos para que cada mulher possa fazer escolhas conscientes e inteligentes baseadas em suas crenças e individualidade, e não no discurso do status quo – ou, pior, no que sua mãe/sogra/obstetra/pediatra mandam. Essa minha inclinação questionadora, plural e, sim, um tanto idealista será a marca desse blog.

2. Se alguém vai se interessar por minhas reflexões ou provocações, honestamente, não tenho como saber. Espero que sim. Espero mostrar que mesmo não sendo médica nem mãe, tenho acesso a informações cientificamente válidas (artigos acadêmicos, livros escritos por profissionais de saúde, psicólogos, cientistas sociais) e culturalmente relevantes (experiências e histórias de mulheres e mães de todos os estilos e procedências) que podem ser interessantes para quem busca refletir sobre o assunto. Espero também que, justamente por causa dessa minha condição nada especialista, você, leitora, possa ver em mim uma amiga: um espelho, um trampolim, um ponto de partida para explorar a sua própria identidade materna – seja você tentante, gestante, mãe ou meramente uma interessada no assunto. Enfim, só desejo que esse blog possa contribuir para a sua viagem rumo à mãe que você quer ser.

Seja bem vinda.

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