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5 dicas para diminuir o choro (ou a “cólica”) do bebê

Agora que você já compreendeu  o que é (e o que não é) a cólica e sabe quão rara ela é em culturas não-ocidentais, seguem abaixo cinco dicas que podem contribuir para a diminuição do choro do seu bebê. Não prometo milagres, mas garanto que você se sentirá mais capaz e mais tranquila depois de saber que existem ferramentas não-farmacológicas para reduzir o sofrimento ou desconforto que se manifesta pela “cólica”.

Aprenda com o Obama: um bebê que chora precisa de colo!

1. Entenda que chorar é normal – e o instinto de acalmar o seu bebê também!

Bebês choram. É sua principal ferramenta de comunicação. Eles choram para comunicar fome, desconforto, solidão, susto… Choram por motivos que talvez nunca compreenderemos de fato. No entanto, da mesma forma que eles choram quase que por reflexo, nós também temos o impulso de fazê-los parar de chorar. O choro de um bebê nos incomoda profundamente. E esse incômodo nos mobiliza para agir!

Eu adoro essa foto do Obama acalentando uma bebezinha desconhecida numa multidão de fãs que estavam visitando a Casa Branca. Pode até ter sido uma jogada de marketing pessoal, mas adorei que Obama agiu instintivamente naquele momento: pegou a criança no colo, trouxe-a carinhosamente para perto do peito e pronto, o choro parou! Longe das câmeras de televisão, pode não ser tão simples. Mas, mesmo assim, confie. Confie na necessidade do bebê em chorar e na sua habilidade de acalmá-lo.Procure não se desesperar com o berreiro nem pare para refletir muito sobre o que, por que, como etc. Respire e aja instintivamente. Tenho certeza de que, se você permitir, verá que o seu instinto é pegar seu filho no colo, conversar com ele ou alimentá-lo, ou trocar sua fralda, ou tirar seu casaco ou balançá-lo em seus braços ou… enfim, basta de exemplos! Simplesmente desligue um pouco a mente preocupante e permita que o coração entre em ação.

2. Amamente sem horários fixos (“sob demanda”)

Como especulei no post anterior, uma possível causa da cólica é o desconforto abdominal gerado pela imaturidade do sistema digestivo. Seguindo essa linha de raciocínio, uma explicação pela tranquilidade dos bebês não-ocidentais seria a forma particular em que as mães os amamentam. E a principal diferença entre os bebês não-ocidentais e os nossos bebês, em se tratando da amamentação, é o relógio: longe dessa nossa cultura “moderna”, ditada pelo relógio e pela lógica da produção e eficiência, os bebês não são amamentados em intervalos fixos de 2 ou 3 horas, por 10 ou 15 minutos em cada peito, alternando um e outro etc. etc. Por não ter essa preocupação de estar fazendo “certo”, de estarem mamando “o bastante” ou de não se tornarem “escravos do bebê”, o peito é oferecido quando o bebê demonstra sinais de fome. Assim, eles mamam pouca quantidade por mamada, mas várias vezes ao dia. Assim, o estômago deles nunca fica tão cheio nem tão vazio, minimizando o desconforto. Pelo menos em tese ;-)

3.  Faça como os cangurus

Como vimos no post anterior, a rotina do recém-nascido não-ocidental difere principalmente da rotina dos ocidentais pela falta de acessórios que “facilitam” a vida dos pais ocidentais (bebê conforto, berço, balanço etc). Esses acessórios todos permitem que o bebê fique longe de nós, quando na verdade sua fisiologia é de uma criatura extremamente prematura, despreparada para ficar sozinha  – tal como o filhote de canguru. O bebê cujos pais não têm todos os acessórios fica muito mais no colo ou amarrado junto ao corpo da mãe (ou de uma tia, irmã mais velha etc), geralmente em posição vertical. Por que insisto tanto na posição vertical? Bom, é uma questão de bom senso: de novo olhando para a fisiologia, quando o bebê fica na vertical, a gravidade dificulta a subida do leite pelo esôfago, o que pode ser muito incômodo, especialmente porque o esfíncter do bebê não está bem fechado ainda (causando golfadas e, muito raramente, refluxo).

O toque humano também é um fator primordial para o bem estar geral do recém-nascido. O contato pele a pele ajuda os nenéns pequenos a regularem suas temperaturas e respiração, acalmando-os naturalmente. Se quiser saber mais sobre os benefícios do toque, leia o post sobre exterogestação.

Você pode aprender a técnica do embrulho ou comprar um swaddle blanket para facilitar a sua vida.

4. Experimente a técnica de Harvey Karp

Harvey Karp tem milhares de fãs porque ele popularizou uma técnica supostamente milagrosa para acalmar os bebês naquela fase da vida em que a cólica acontece: entre 6 semanas e 3-4 meses de vida. Segundo ele, sua técnica desencadeia o “reflexo de calma” que faz os bebês pararem de chorar. Li o seu livro O Bebê Mais Feliz do Pedaço depois de ver as 700 resenhas positivas na Amazon e achei a técnica consistente. Recomendo o livro (que infelizmente parece estar esgotado) ou, em último caso, o DVD.

Como não vou deixar minhas leitoras na mão, segue um resumo dos principais pontos da técnica de Karp, que ele chama de 5 S’s.

  • Swaddling (ou embrulhar): consiste em embrulhar o bebê num cueiro, deixando os braços bem juntinhos ao corpo. A lógica é que a restrição simula as condições uterinas e “desativa” o reflexo de Moro (que pode despertar ou até assustar o bebê).
  • Side-lying (deite-0 de lado): com ele embrulhado, vire-o de lado, segurando-o como se fosse uma bola de futebol americano, com a barriguinha ligeiramente para baixo.
  • Shushing (faça ‘shhh’): isso é instintivo, mas não custa lembrar: emitir o som do “shhh” tem um efeito calmante. O dr. Karp ressalta que o barulho deve ser alto (lembre-se, o útero não era um lugar super silencioso!).
  • Swinging (balançar): outra dica que também é instintiva é balançar ou embalar o bebê, como se estivesse numa cadeira de balanço. Esses movimentos contínuos e repetitivos têm um efeito hipnótico.
  • Sucking (sugar): quando o bebê usa os músculos para sugar numa chupeta, no peito ou na pontinha do seu dedo (devidamente lavado), isso também o coloca num estado mais calmo.
É importante acrescentar que o dr. Karp recomenda que os 5 S’s sejam feitos nesta ordem. Segundo ele, o pai é craque nessa técnica, não só porque ele não tem medo de ser um pouco vigoroso como também porque ele costuma estar menos cansado, conferindo a calma necessária para executar a técnica com perfeição. Eu digo mais: é uma ótima oportunidade para ele criar um vínculo forte com o neném, se sentir capaz de cuidar do filho e de dar à mulher um merecido descanso.
5. Faça ajustes na alimentação

Por fim, se as dicas 1 a 4 não surtirem efeito, comece a pensar em motivos fisiológicos pelo mal-estar. Seu bebê pode ter uma sensibilidade ou intolerância a algum alimento que você costuma ingerir. Faça um teste, evitando certos alimentos como leite e seus derivados, glúten, soja, ovos ou amendoim. Mesmo assim, quero deixar bem claro que eu não acredito que a maior causa de desconforto no recém-nascido venha dos alimentos que ele ingere via leite materno. Tendo a crer que nós é que procuramos uma causa tangível (uma partícula alergênica, um diagnóstico de gases, um rótulo qualquer), quando pode ser que a explicação seja muito mais complexa e imprecisa.

Mas agora quero saber de quem de fato já passou por isso: como foi a experiência de lidar com o choro excessivo ou a cólica?

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Evolução, exterogestação e como sobreviver aos primeiros três meses

Você certamente conhece a teoria da evolução, mas já ouviu falar na teoria da exterogestação? Na verdade, as duas estão ligadas. Vou procurar fazer uma explicação sucinta dos conceitos, porque o que quero mesmo é falar da parte prática: como se adaptar aos temidos e temerários primeiros três meses da vida do seu bebê.

De acordo com os antropólogos, quando passamos a ser bípedes, muita coisa mudou. Andar ereto e caminhar em dois pés fez com que nossa bacia ficasse mais estreita e, para isso, os bebês passaram a nascer mais cedo, quando a cabeça ainda poderia passar pela bacia sem grandes riscos. O resultado disso é que os seres humanos passaram a nascer antes de estarem totalmente prontos ou maduros. Comparado a outros mamíferos, de fato o bebê humanos é extremamente… uh… atrasado (o termo científico é altricial). O bezerro mal nasce e já consegue andar, o golfinho nasce nadando e até um chimpanzé recém-nascido é mais comunicativo que um bebê humano. O bebê humano é molinho, não sustenta nem a própria cabeça, não tem coordenação motora, passa grande parte do seu tempo dormindo e é praticamente cego. Tudo isso porque o cérebro do bebê ainda está em desenvolvimento. Ao contrário dos outros órgãos, que vão crescer em tamanho, mas não em complexidade, o cérebro ainda tem muito a crescer (praticamente 400%) e a desenvolver. Somente as partes mais primitivas do cérebro – responsáveis pelas atividades que não controlamos conscientemente, os reflexos e atividades autônomas como respirar e digerir – estão “prontas” de fato.

É aí que entra a teoria da exterogestação. Como a própria palavra sugere, a exterogestação propõe que parte da gestação do bebê humano é conduzida fora do útero. O antropólogo Ashley Montagu foi quem apresentou o conceito que, recentemente, foi popularizado pelo pediatra americano Harvey Karp, que cunhou o termo “quarto trimestre”. Enquanto a teoria de exterogestação indica 9 meses de gestação fora do útero, o dr Karp fala somente dos primeiros três meses. Mas o propósito é o mesmo: reconhecer nessas criaturas extremamente dependentes e indefesas uma condição delicada de “não estar pronto”.

E, ao reconhecermos essa condição, podemos adaptar o nosso cuidado do recém-nascido levando isso em conta. Quais são as implicações práticas?

Vou fazer uma lista (como boa virginiana, adoro listas!):

O contato pele a pele é primordial

* Contato: O toque é o primeiro sentido a se desenvolver, é o mais primitivo que temos, junto com o equilíbrio. Por isso, o bebê deve ser acariciado, carregado, beijado e massageado sempre que possível. Estar nos braços da mãe ou do pai é aconchegante para o bebê, que se sente seguro assim. Estudos internacionais mostram que bebês que ficam em contato pele a pele (importantíssimo!) com a mãe (ou pai) regulam melhor os batimentos cardíacos e a temperatura e são menos estressados. O sling é um excelente acessório que satisfaz tanto a necessidade de contato sem afetar as outras principais necessidades do recém-nascido (dormir e comer). Ah, e é adotado por grande parcela das culturas não urbanas em todos os continentes.

* Dormir: Pode parecer que não, mas bebezinhos dormem muito (passam em torno de dois terços do dia dormindo!). E não adianta tentar impor uma rotina a um recém-nascido; seu cérebro não está capacitado para esse tipo de lição e, por estar em rápido desenvolvimento, o melhor é deixar o cérebro dele ditar a hora do sono. Pessoalmente,  não vejo muito sentido em colocar um recém-nascido para dormir num quarto sozinho à noite. Para mim, é uma questão de praticidade: ele vai acordar tanto durante a noite, para mamar ou simplesmente porque isso é o natural para ele, que você só vai se desgastar. Por isso, faça como grande parte da população mundial e leve-o para seu quarto num moisés ou bercinho ou pratique a cama compartilhada, colocando-o para dormir com você. [Não, não é perigoso; saiba mais no seguinte post]

Um berço que fica na lateral da cama do casal faz sentido, não?

* Comer: No útero, recebendo nutrientes via o cordão umbilical, seu bebê não tinha horário para comer. Tentar impor uma rotina quando ele nasce pode até ser bom para você – e se funcionar, ótimo!- mas definitivamente não é natural para o bebê, que tem seu próprio ritmo. Como seu cérebro primitivo está a todo vapor, ele está “programado” para fazer de tudo para satisfazer sua fome – primeiro com sinais sutis (virando a cabeça, mexendo a boquinha) e depois de maneira mais óbvia (chorando, berrando, urrando). E uma coisa é certa: o bebê não vai morrer de fome se você deixá-lo à vontade para mamar quando quiser. Praticar a amamentação em livre demanda (sem a ditadura do relógio) pode ser uma solução para tornar as mamadas menos estressantes e mais bem-sucedidas para vocês dois. Sem contar que ajuda muito na produção do leite!

* Barulho: Engana-se quem acha que o útero é um lugar silencioso. Sons de todos os tipos passam pelas paredes do útero (nem queira imaginar!). Por isso, bebês gostam de barulhos repetitivos, como o som de um secador, aspirador, rádio sem sinal ou o som que todos nós fazemos institivamente para calar um bebê chorão (sh…). Também vale a pena acrescentar que o som favorito dos bebês (sim, foi estudado!) é o som da voz de sua mãe. Então solte a língua!

* Movimento: De novo, o comportamento institivo de balançar o bebê tem a ver com reproduzir sua vida intrauterina. Mais um motivo para investir num sling e sair para fazer uma caminhada, dançar (devagarinho, claro) ou simplesmente fazer as tarefas da casa.

Vale frisar, para concluir, que essas não são regras e sim sugestões. Podem funcionar para você e para o bebê. Ou não. Mas lembre-se: o bebê humano pode até se adaptar a uma rotina rígida de mamadas e sonecas, e pode até ficar tranquilo sozinho por horas a fio, mas ele não evoluiu para isso. Portanto, não espere isso dele e tenha compaixão por suas necessidades, mesmo que pareçam impossíveis de satisfazer às vezes.

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