Arquivo da tag: preparação

Precisamos falar sobre o puerpério

 

puerperio_blog post header_Jenny Lewis

Nossa sociedade vende uma imagem idílica do período após o parto. Basta ver o que aparece no Google quando se digita “puerpério”: fotos de mães sorrindo, bebês tranquilos, tudo muito calmo e iluminado… A visão do paraíso materno. Eu mesma contribuo para isso quando escolho imagens aqui para o blog, tenho que admitir.

Mas não se iluda: o puerpério costuma ser PUNK.

Embora seja mágico ter o seu filho nos braços,  a chegada de um bebê vira a vida da família de ponta cabeça. Além das grandes mudanças de cunho prático (mamadas, higiene, sono etc.), para a mulher em especial tem o agravante de que seu corpo passa por transformações inéditas; independente da via de nascimento, o corpo dói, o útero contrai, os hormônios fluem, os peitos enchem, os mamilos ardem (uns mais, outros menos) e as emoções transbordam. Os órgãos abdominais estão se ajustando, e a sensação de que algo não está muito normal internamente pode ser vivida com estranheza ou até pânico. Quando o nascimento é via cesariana, o corpo precisa se recuperar das lesões; ações corriqueiras como tossir, levantar-se e agachar se tornam delicadas, mesmo quando a dor está sendo medicada ou está suportável. E o termo “cansaço” ganha uma nova dimensão…

No campo emocional, a transformação é ainda mais complexa. A mulher, que antes era alvo de tanto carinho e afeto enquanto grávida, passa a ser praticamente ignorada, já que todos os olhos estão voltados para o bebê. E dá-lhe pitacos, conselhos, julgamentos e orientações (muitas prejudiciais) para cima dela! Mesmo quem tem a sorte de não ser rodeada por gente sem noção vive uma transição monumental. A ansiedade e a idealização que caracterizam o fim da gravidez se transformam em dúvidas, medos, amor (que, às vezes, demora a se manifestar), desconfortos, alegria, cansaço, choro… Tudo junto e misturado, e muito difícil de articular, especialmente quando somente o lado idílico da maternidade é promovido e assimilado pela nossa cultura, como vimos pelo Mestre Google.

Existe uma ausência de informações sobre a experiência do pós-parto (esse relato aqui é uma exceção). A informação disponível é focada no aspecto “médico” ou nas “obrigações de cuidados”. Parte do problema é que quem acompanha a nova família por esse período são os profissionais médicos, o obstetra e o pediatra, que foram treinados para observar e agir sobre a parte física e tangível: como cuidar dos pontos ou do desconforto perineal, o que não fazer no período de resguardo, como fazer a higiene de coto umbilical etc. Os aspectos emocionais são ignorados ou rotulados com termos tipo”baby blues” e”depressão pós-parto”, o que nem sempre ajuda quem está imersa em toda a gama de emoções do pós-parto, mas que não necessariamente sofre de uma condição psiquiátrica (por favor, vejam a NOTA abaixo sobre depressão pós-parto, um assunto sério que deve ser tratado em consultório). 

A vida moderna, por motivos socioculturais e econômicos, infelizmente contribui para dificultar esse período. Antes da família nuclear, quando vivíamos em grupos familiares maiores ou em tribos, a comunidade (de mulheres, geralmente) cuidava intensamente da nova mãe para que ela tivesse a força e o ânimo para cuidar do recém-nascido: massagens, refeições especiais, repouso e resguardo faziam parte desse rito de passagem. A mulher era, literalmente, banhada em afeto e suporte para, assim, nutrir o bebê. Hoje, mesmo com os homens muito mais envolvidos nas tarefas de cuidar, a mulher moderna tem somente uma ou duas (ou no máximo três) outras pessoas para ajudá-la: o companheiro e sua mãe e/ou sogra ou, às vezes, uma profissional contratada para ajudar (babá, enfermeira). E o problema não é só o número e sim a qualidade desse cuidado, que tende a ser pragmático, focado em tarefas relacionadas somente ao bebê. Não há muito espaço para as necessidades emocionais da mãe nessa nova configuração cultural; especialmente quando a própria mulher foge da vulnerabilidade, da incoerência, do intangível (recomendo fortemente esse texto do pediatra Daniel Becker).

Nossa cultura pós-industrial, investida em promover aspectos materiais, concretos e mensuráveis, não consegue dar conta desse aspecto emotivo, ora transcendental ora sombrio. Ao invés de promover a vivência integral desse momento, tanto o bom quanto o ruim, as normas culturais nos chamam para o mundo externo: sentimo-nos na obrigação de pentear o cabelo e receber visitas, servir algo para os amigos e parentes, deixar todos segurarem o bebê, estabelecer rotinas de cuidados e dar algum sentido a toda essa transformação. Tem gente que marca até festas na maternidade, com direito a champanhe e buffet, para comemorar o nascimento, ignorando por completo a delicadeza e a singularidade do pós-parto. E não vou nem entrar no mérito da crueldade que é a cobrança de voltar à forma física de uma mulher sem filhos, como se aquele corpo, ainda dolorido, ainda se doando para outro ser humano, não merecesse as maiores honrarias e o mais sincero carinho pelo milagre que gerou!

Para piorar o quadro, há um fator psicológico contundente, que também é particular a nossa era: o fato de que, em geral, as mães escolheram, desejaram e planejaram esse filho. Se por um lado isso é bom, por outro, gera uma enorme expectativa/idealização. A maternidade, antes um aspecto comum e praticamente inevitável na vida de uma mulher com vida sexual ativa, se tornou uma condição elevada, quase santificada. Afinal, se não houvesse uma certa idealização alguém, com o luxo de escolher, se aventuraria a conhecer essa terra estrangeira de onde ninguém volta sem ser transformado para sempre? No fundo, a questão que nos assombra: “por ter sido desejada e planejada, como aceitar que nem tudo são flores nessa condição que eu escolhi e da qual não posso retornar?”

Não escrevi esse post para assustar ninguém nem para dizer que o puerpério é uma viagem às trevas. Tampouco quero convencê-la a ficar numa caverna lambendo a cria, como nossos antepassados neandertais, ao invés de chamar  as visitas, encomendar os bem-nascidos e realizar a fantasia de ter uma “bonequinha” para chamar de sua enquanto marca sua volta à academia com o personal trainer e liga pra farmácia para garantir o antidepressivo que o médico receitou “em caso de tristeza” (isso foi assunto do último post, hehe). Quero só que você saiba que o puerpério existe, e que é duro, mesmo quando é bom. Embora tenha quem negue ou diminua o fator “punk” do puerpério, a maioria das mulheres relata que os primeiros dias ou semanas após o parto são difíceis, surpreendentes, marcados por altos (cheiro de neném, pele de neném, bebê bêbado de leitinho materno!) e baixos (dúvidas mil, inseguranças, choro, medos inéditos, tristeza). Isso é normal. Isso é louco. Isso é a vida de mãe.

E para brindar à sua nova ou iminente condição materna, eis aqui um slideshow com imagens de mães reais com seus bebês de apenas um dia de vida, registradas pela brilhante fotógrafa inglesa Jenny Lewis para a série One Day Young, e trechos do livro Mulheres visíveis, mães invisíveis, da psicoterapeuta Laura Gutman.

Este slideshow necessita de JavaScript.

NOTA: Não sou psicóloga e minha intenção não é negar nem minimizar a depressão pós-parto, condição que afeta cerca de 15% das puérperas. O objetivo deste post é discutir os sentimentos ambíguos e intensos que caracterizam um pós-parto suportável e dentro da normalidade, sem que isso precise ser rotulado ou combatido. No entanto, se você suspeita que a tristeza, o cansaço e a irritabilidade estejam pesados demais, afetando sua autoestima e suas relações, consulte um psicólogo. Se perceber que está cogitando medidas drásticas para amenizar seu sofrimento, peça ajuda profissional com urgência. Não tenha vergonha: a depressão pós-parto acontece “nas melhores famílias” (mesmo!) e pode ser superada com o acompanhamento adequado.

Anúncios

59 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Lua de leite: o que, por que e como

posparto pintura (c) desconhecido

“Uma linda lua de leite para vocês”. Via de regra, esse é o meu desejo a toda mãe recém-parida. Mas acho que poucos entendem o que estou desejando (né?). Então, aproveitando o embalo de um post que estou escrevendo sobre o puerpério, resolvi falar um pouco sobre essa ideia e “vender o peixe” da lua de leite.

A função da lua de leite é simples: fortalecer o vínculo e minimizar o estresse. Da mesma forma que a lua de mel servia (serve ainda?) um propósito de iniciar o casal na vida a dois, afastando os dois das tarefas do dia-a-dia para que entrassem em sintonia um com o outro, a lua de leite cria um espaço para o casal (e eventualmente os irmãos mais velhos) se vincular(em) e ganhar(em) intimidade com o novo ser que chegou para compor a família. Para não me estender muito (mais do que o necessário), vou tentar ser didática, para que ninguém fique achando que lua de leite é sinônimo de levar o pequerrucho para Aruba ou Paris!

O que é, exatamente, uma lua de leite?
Trata-se de um período para viver intensamente a vinculação com o bebê, minimizando as atividades mundanas (sair, cozinhar, limpar a casa, socializar) e o contato com o mundo e o tempo “real”. A lua de leite envolve muito contato pele a pele entre o bebê e a mãe (e o pai), pouca atividade física e mental, e, claro, bastante leite materno, pois marca o início dessa relação que é amamentar. Como numa lua de mel, também convém esquecer o relógio e as rotinas para viver integralmente no presente.

Quanto tempo leva a lua de leite?
Não tem regra. Vai da necessidade e do perfil de cada família. Entre duas e quatro semanas me parece um bom ponto de partida.

Qual o sentido da lua de leite?
Ao diminuir as atividades supérfluas – isto é, tudo aquilo que não envolve atender às necessidades fisiológicas e emocionais do binômio mãe-bebê – a família vivencia esse início da relação com o filho de forma plena. A lua de leite libera a mulher da necessidade de entreter os outros, fazer comida ou arrumar a casa; no lugar disso, há repouso (na medida do possível), silêncio (idem), mergulho interior, contato verdadeiro. Essa intensidade também facilita o início do aleitamento: o contato pele a pele promove a liberação de ocitocina (hormônio do vínculo e da ejeção do leite), o peito em livre demanda (sem olhar a hora) aumenta a produção de leite, bem como a confiança e a habilidade da mãe, e o contato social reduzido diminui a chance de se expor a comentários que podem minar o processo delicado de amamentar. Como a lua de leite envolve se desligar um pouco do mundo externo, as pressões sociais são aliviadas, permitindo vivenciar a montanha-russa de emoções do puerpério sem a necessidade de se justificar nem fingir que tá tudo bem.

por que lua de leite_amqqs

Isso significa que não devo receber visitas nem sair nesse período?
Não. Claro que não. Mas a ideia é sim reduzir as visitas e as saídas para diminuir as cobranças sociais. Para a visita, uma boa regra é: a pessoa em questão pode te ver descabelada, na cama, pelada da cintura para cima ou de roupão? Existe intimidade e boa vontade na relação, de forma que você pode ficar tranquila se, por acaso, der uma descompensada básica (leia-se: se você for grossa ou histérica, ou se simplesmente resolver expulsar todo mundo dali)? Se a resposta for “sim” então a visita não atrapalhará. Quanto a sair, se der vontade e não for uma obrigação, ou se for necessário por motivos de saúde, não vejo por que não.

Preciso me preparar ativamente para a lua de leite?
Sim. Salvo exceções, a sociedade hoje não está preparada para acolher as mães nesse período. Dois exemplos  claros são a prática de separar o bebê na maternidade, levando-o para o berçário, e a expectativa cultural de receber visitas imediatamente após o nascimento. Ou seja, se você e o seu companheiro não forem pró-ativos, seu puerpério seguirá o padrão da nossa sociedade: bebê separado de vocês na maternidade, colocado em berços, bebês confortos e embalados em cueiros e mantas (ao invés de em contato pele a pele) nos primeiros dias e semanas, rotinas de cuidados e mamadas com horários fixos, visitas cheias de para entreter, pitacos de parentes e amigos, tempo de conexão mãe-bebê diminuído devido à obrigação de realizar tarefas domésticas etc.

Como me preparo para a lua de leite?
Antes do nascimento:

  • deixe refeições congeladas ou organize-se para que você não tenha que pensar em preparar ou comprar comida;
  • mande um e-mail para  amigos e parentes explicando o desejo de ficar a sós com o bebê no período de x dias após o nascimento, explicando os motivos, se quiser (inspire-se no modelo abaixo);
  • combine com a equipe médica (incluindo o pediatra!) que você faz questão do contato pele a pele e da amamentação na primeira hora de vida (se precisar de respaldo, lhes envie este link);
  • crie ou fortaleça sua rede de apoio – isto é, aquelas pessoas próximas, que respeitam o seu desejo e entendem a delicadeza do pós-parto, com quem você poderá contar para ir ao mercado, passar na farmácia, limpar sua casa, e que também estejam dispostas a ouvir sem julgar, dar um ombro para você chorar e fazer carinho quando mais precisa.

lua de leite_cartinha_amqqs

Na maternidade:

  • fique em contato pele a pele com o bebê assim que ele nascer (antes de medir, pesar etc.);
  • permita que ele inicie a amamentação no tempo dele, antes de ser tirado do seu colo;
  • atrase o primeiro banho (acredite: o cheiro de um recém-nascido é algo que só pode ser comparado ao néctar dos deuses);
  • faça alojamento conjunto (i.e. evite o berçário);
  • deixe o seu companheiro/ acompanhante com a tarefa de ser o guardião da lua de leite – isto é, de proteger você e o bebê de serem separados, de evitar os protocolos do hospital que interferem na amamentação (complemento e bicos artificiais, por exemplo), de “barrar” visitas que não vão agregar.

Em casa:

  • fique peladona da cintura pra cima, com o bebê só de fralda ou pelado;
  • cheire a cria (lamber também vale!);
  • de novo, deixe o maridão ou outra pessoa da rede de apoio responsável por todo que envolve o mundo externo: telefonemas, tarefas domésticas, compras etc.
  • permita-se sentir, deixe as emoções fluirem;
  • tenha em mãos o telefone de uma doula pós-parto ou consultora de amamentação ou banco de leite, caso o bicho pegue;
  • confie… É punk, é enlouquecedor às vezes, mas é assim mesmo. Você sobreviverá.

7 leis da lua de leite_amqqs

Espero que este post contribua para que você pense com carinho na possibilidade de viver uma lua de leite, para um início de maternidade suave (na medida do possível!), integral e com bastante leitinho e cheiro de bebê.

24 Comentários

Arquivado em Uncategorized

O custo de um filho

No mês passado a Folha de São Paulo publicou uma matéria que abre com a seguinte pergunta: “quanto custa um filho?” Como pertenço a uma classe socioeconômica em que é culturalmente aceito e esperado levar em consideração o quesito grana antes de engravidar, li a matéria com bastante interesse. Fiquei chocada quando vi a cifra de 2 milhões (custo total até completar 23 anos de vida, para um filho de classe média). Lembro bem do dia em que um parente – que ganha bem mais do que eu e meu marido juntos-  advertiu, com toda sua prepotência: “pense bem se vocês têm grana para ter um filho”. Reagi com raiva na hora – quem era ele para dizer que eu não ganhava bem o suficiente para começar uma família? – mas fiquei quieta. O fato é que a grande maioria dos meus colegas concordaria; muitos esperaram o momento “certo”, após um determinado período de estabilidade conjugal e profissional, para ganhar o título de pai ou mãe. E nessa definição do momento “certo”, o dinheiro entrou como um dos primeiros critérios.

Não estou aqui para dizer que filhos não custam dinheiro. É evidente que custam! Até o meu cachorro quando entrou para a família há 2 anos e meio atrás aumentou de forma significativa os gastos mensais daqui de casa. Mas, e é um senhor “mas”, colocar na ponta do lápis os gastos que o casal supostamente terá depende muito das escolhas que essa família fará. Será que, para ter um bebê, você precisa:

  • Montar um quartinho de bebê como aqueles das revistas de decoração?
  • Contratar uma babá ou enfermeira para os primeiros 4 meses (enquanto está em licença maternidade)?
  • Ter 15 pares de sapatinhos, uma coleção de laços e frufrus, 6 conjuntinhos de linha com manta combinando e uma mala especial para lavar as roupas do bebê para a maternidade?
  • Comprar uma dúzia de aparelhos importados, como babá eletrônica com câmera de vídeo e acesso wireless, balanço com três níveis de vibração e 5 músicas pré-gravados, um móbile eletrônico com 6 opções de canção de ninar, além de meia dúzia de brinquedos barulhentos da Fischer-Price?

É óbvio que não! Certamente seu bebê não ligará para nada disso – e até se irritará com esses supérfluos – com exceção da babá, que, dependendo da família e do nível de participação do pai e outros familiares, pode ser muito bem vinda. Parece difícil acreditar, mas um bebê precisa mesmo é de amor e de atenção. O resto não passa de objetos que acreditamos serem essenciais – seja para facilitarem nossa vida (sendo que raramente o fazem, aposto eu) ou para compor o cenário que nossa fantasia criou como sinônimo de “maternidade/ paternidade”.

No entanto, uma coisa que um bebê definitivamente custa (e isso não muda muito à medida que cresce) é TEMPO. Na verdade, considerando o público-alvo da Folha de SP (a classe média), eu diria que é bem mais importante pensar na questão “quanto custa um filho” em termos de tempo do que de dinheiro. Porque o essencial mesmo para se ter um filho, em termos de custos financeiros, uma pessoa de classe média consegue bancar, com ou sem aperto. O berço pode ser comprado parcelado e os outros móveis do quartinho adaptados; uma avó pode servir de back-up, economizando na babá, ou pode-se contratar alguém para dar um apoio por 1 ou 2 dias da semana; o enxoval pode ser herdado de amigos e parentes (e muitas peças novas serão recebidas de presente); as fraldas costumam ser doadas por amigos e colegas de trabalho no chá de fralda; o plano de saúde da empresa (para assalariados) cobre as despesas com consultas e vacinas podem ser na rede pública.

Portanto, ao invés de falar em dinheiro, que tal falar sobre o tempo? (já que tempo é dinheiro mesmo, não é o que dizem?)

Filhos custam, além de dinheiro, TEMPO. É preciso gastar seu tempo para alimentá-los, acalentá-los, vesti-los, trocá-los, brincar e conversar com eles e, sobretudo, olhar e estar com eles. Fiquei chocada com a página da Pampers no Facebook onde se recomenda passar “pelo menos 15 minutos” com o filho depois de chegar em casa do trabalho. Como assim, 15 minutos?!

Vou encerrar com as palavras do sociólogo e escritor argentino Sergio Sinay, tiradas da excelente entrevista feita pela Isabel Clemente, da Mulher 7×7, do site da revista Época:

Não há qualidade sem quantidade. Em qualquer tarefa para alcançar qualidade é preciso tempo, compromisso, dedicação. O famoso “tempo de qualidade” de que falam muitos pais – e que inclusive tem o apoio de pediatras e psicólogos infantis – é uma desculpa para que os pais não se sintam culpados. Os pais são adultos e um adulto sabe que na vida não se pode tudo. Há que optar. Para dedicar tempo aos filhos, é preciso deixar outras coisas de lado. O “tempo de qualidade” são cinco minutos nos quais os pais culpados dão tudo aos filhos para evitar o conflito. Isso faz muito mal aos filhos. Se não há tempo, não há qualidade. E se não há tempo para os filhos, é preciso pensar antes de se tornar pais. Depois é tarde.

Portanto, na hora que alguém levantar o assunto do “custo” de um filho, lembre-se de colocar na balança não só o dinheiro, mas, principalmente, o tempo que você tem à disposição. Aposto que, mesmo que ele nunca venha a te agradecer, seu filho será muito mais grato pelo tempo que passaram juntos do que com o dinheiro gasto com ele.

14 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Quer dizer que você quer parto normal?

Quando o assunto é parto, você diz “quero parto normal” ou “vou tentar normal” (e não se fala mais nisso)? Você acredita que, para ter parto normal, basta querer e torcer para que tudo dê certo? Você escolheu um médico do plano que se diz favorável ao parto normal, mas que diz “não se preocupe com isso, do parto cuido eu”?

Se você respondeu “sim” a qualquer uma dessas perguntas, você precisa ler este post. Se você conhece alguém que se encaixa nesse perfil, por favor, repasse o link para ela.

Eis os FATOS: se você vai ter seu filho na rede privada, a probabilidade de acabar numa cesárea se aproxima de 90%. Pense bem: quantas amigas suas começaram naquele quadro acima (“quero normal, meu médico diz que faz”) e terminaram numa cesárea? Não quero te desapontar (pelo contrário, quero ajudar!), mas a verdade é que parto normal não é para qualquer uma. É para quem pode – para quem pode correr atrás de informações confiáveis, pode encontrar a coragem para mudar de médico se o dela for cesarista, pode pagar um obstetra fora do plano ou optar pela rede pública se necessário, pode olhar para dentro e enfrentar seus demônios, pode peitar o marido, a mãe e o escambau. A boa notícia é que você pode ser uma mulher dessas.

Se você quer MESMO parto normal, seguem abaixo 7 dicas para aumentar as chances de ter o parto que você deseja e merece:

1. Informe-se

Parto normal no Brasil é exceção. Especialmente se você tem plano de saúde. Isso significa que você precisa estar ciente das possíveis armadilhas que fazem as mulheres caírem na cesárea, mesmo sem querer. Que armadilhas? Entre elas: os mitos sobre o parto, as falsas indicações de cesáreas, a realidade sociocultural e econômica (em que o normal é o parto cirúrgico), o sistema tecnocrático e voltado para lucros e a formação e a atitude da equipe que vai te acompanhar. Você não precisa mudar nada disso – se quiser tentar, ótimo! – mas não pode fingir que vive num mundo cor de rosa em que o médico vai deixar a natureza seguir seu curso, a equipe do hospital está lá pra te ajudar e o que quer que aconteça estava “escrito nas estrelas”. Acorde e deixe seus olhinhos bem abertos. Ou volte a acreditar em duendes (quer dizer, médicos bonzinhos) e depois não se surpreenda se acordar com uma bela de uma cicatriz na barriga.

2. Escolha um obstetra realmente favorável

A melhor forma de saber se o seu GO “faz” parto normal mesmo (quem faz é a mulher, mas já que essa é a expressão, estou adotando-a aqui, entre aspas) é através da indicação de mulheres que pariram com ele. Se isso não for possível, dê uma de detetive e procure pistas de que ele possa te induzir à cesárea. Fique atenta aos seguintes sinais: ele nunca desmarcou uma consulta (parto normal não tem hora marcada); no consultório, tem várias pacientes chegando para tirar pontos e meia dúzia de grávidas com a barriga do tamanho da sua (ou seja, não vai dar para esperar o trabalho de parto de todas elas); ele não gosta de falar sobre o parto e diz coisas como “deixa isso comigo”; ele é fã das táticas do medo (“o importante é a saúde do bebê”) e vive procurando pêlo em ovo (“temos que ficar de olho nesse líquido…”). Mesmo que ele seja muito querido, muito fofo e te conheça há anos, não se iluda: se ele faz cesárea em 90% dos casos, a sua chance de parir com ele é 1/10.

3. Procure apoio virtual e local

Quem nada contra a maré requer muito apoio e incentivo. Nada melhor que se juntar a pessoas que te entendem, já passaram por isso, e se empenham para ajudá-la a conseguir atingir o seu objetivo. Para isso, sugiro que você participe de grupos virtuais como o “Cesárea? Não, obrigada!” no Facebook e que procure também um grupo de apoio local, onde possa olhar nos olhos de outras mães, ouvir suas experiências e trocar recomendações. Aqui no Rio tem o Ishtar, grupo incrível, coordenado por gente maravilhosa e frequentado por mulheres de todos os tipos (inclusive euzinha). Tem encontros quinzenais em Copacabana, Tijuca, Niterói, Jacarepaguá e na Baixada.  Também tem Ishtar em Belém, Sorocaba e Recife, e sei que São Paulo tem o Gama, BH tem o Bem Nascer e Curitiba tem o Espaço Aobä. E não devem ser os únicos. Procure por esses grupos, vá a um encontro (são gratuitos) e saiba que você não está sozinha.

4. Prepare sua cabeça (e o corpo também)

É preciso muito preparo psicológico para se manter firme num desejo que, lastimavelmente, é tão difícil de se realizar na atual conjuntura. É preciso coragem para dizer tchau para seu médico de anos na 37a semana e procurar um novo profissional; força (e paciência) para não ceder aos protestos da família e dos amigos que não entendem porque você não marca a cesárea como todo mundo; convicção para usar suas economias para bancar uma equipe realmente alinhada com seu plano de parir; fé para se permitir parir como manda a natureza. Minhas dicas: leia livros e relatos de parto positivos (fuja de programas de TV de maneira geral) e faça terapia. Além da força psicológica e emocional, também é legal preparar o corpo para as posições e as sensações do parto (yoga para gestantes e massagem perineal são duas opções que vêm à mente, mas isso é muito pessoa e varia de mulher para mulher). Mas não se iluda: a cabeça é muito mais importante que o corpo nesse processo de parir.

5. Seja sujeito

É muito cômodo (e perigoso) entrar no papel da “mãezinha” ou “gravidinha” (primas-irmãs da “princesinha”) e deixar que todas as decisões sejam tomadas por você: pelo médico, por sua mãe, pelo marido… Se você tem a intenção de parir, você precisa se recusar a ocupar esse lugar. Porque uma mulher que dá a luz é protagonista, e não um objeto ou um coadjuvante do processo. Ser sujeito significa, entre outras coisas, questionar, se examinar, refletir, sentir, escolher, rebolar (em ambos os sentidos), viajar para a partolândia e dar um belo de um FODA-SE pra todas aquelas pessoas que teimam em te julgar. Ser sujeito significa viver de acordo com a sua verdade e sentir na pele as suas escolhas, e não ser vítima das decisões de terceiros.

6. Contrate uma doula

Para quem não sabe o que é uma doula e quer se informar, sugiro ler esse post aqui. Para não me estender muito, vou ser econômica e dizer que a doula acompanha a gestante antes, durante e após o parto; sua função é servir de apoio e conforto. A doula não é profissional de saúde e nem faz parte da equipe médica: ela acompanha a mulher, oferecendo palavras de incentivo, um toque carinhoso e um porto seguro para a parturiente (e, muitas vezes, também para seu companheiro). Em suma, a doula é uma amiga que já viu muitas mulheres parindo. Por isso, é importante  conversar muito com ela antes do parto, sentir-se bem com ela e criar um laço de afeto e confiança. Você pode achar que doula é modismo ou frescura, mas a história e as evidências mostram o contrário: doulas existem há milênios e sua presença na sala de parto diminui o índice de cesárea, analgesia e depressão pós-parto e aumenta a satisfação materna e o índice de amamentação (entre outros benefícios). Se você é carioca, visite a página do Núcleo Carioca de Doulas no Facebook para se conectar com profissionais da área. Para citar a obstetriz Ana Cristina Duarte, “A doula faz tudo para que você faça o seu parto”.

7. Não saia correndo para o hospital

Pensei se deveria mesmo incluir esta última dica – obviamente, não quero ser culpada depois por uma leitora que teve seu filho no táxi! -, mas como não tem como negar que um dos fatores de cesárea é a impaciência dos médicos (a famosa desculpa “não teve dilatação”) optei por colocá-la. A não ser que esteja com uma equipe de parto humanizado, a melhor maneira de se proteger da cesárea intraparto é chegar ao hospital em trabalho de parto ativo, com mais de 7 cm de dilatação e, de preferência, dilatação total. Eu sei que é difícil se imaginar fazendo isso – “correndo esse risco” – mas é mais comum chegar cedo demais e sofrer um parto cheio de intervenções desagradáveis ou até mesmo uma cesárea do que acabar parindo a caminho da maternidade (apesar desses casos saírem mais na mídia!). Se você não tem plena confiança na equipe médica e sente que o médico pode acabar fazendo uma cesárea de última hora, essa é a dica que eu deixo para você (de preferência, siga também a dica número 6).

Por hoje é só. Boa sorte e boa hora para você! E depois passe aqui e conte sua experiência.

168 Comentários

Arquivado em Uncategorized

A mãezinha da capa vermelha: um conto de fadas

Era um vez uma futura mãezinha, linda e barriguda, levando em sua cestinha perguntas para a vovozinha. Sua avó era uma sábia anciã, que havia parido 10 filhos em casa, com parteira, e ajudara a trazer ao mundo seus 27 netos. A futura mãezinha estava grávida do primeiro bisneto da anciã e tinha certeza de que poderia contar com a sua avó para controlar seus medos e ansiedades.  Sabia que suas dúvidas seriam ouvidas com carinho e que poderia encher sua cestinha com dicas de como se preparar física e emocionalmente para o dia em que traria seu filho ao mundo. Mal sabia ela, a jovem mãezinha, que o lobo mau estava à espreita.

(c) Jessie Wilcox Smith

O lobo mau era o dono do pedaço. Dominava todos os bichos da floresta com sua astúcia e sua força. Gozava de muitos privilégios por ser o bicho mais poderoso da floresta. Mas a vovozinha era uma pedra em seu sapato; ela por si só até que era inofensiva, mas seu estilo de vida não era o que o lobo queria para sua floresta, que estava aos poucos ficando do jeito que gostava: ordenada, previsível, vigiada. No casebre da anciã, as flores cresciam sem a menor lógica, as ervas daninhas não eram extraídas com a devida diligência e o fogão ainda era a lenha. Tudo muito antigo e primitiva, segundo o lobo. A velha também não comparecia às reuniões promovidas por ele; às vezes, ignorava seus avisos, mostrando-se resistente ao novo visual, limpo, moderno e avançado, que ele queria dar à floresta. Estava na hora de ensinar a ela uma lição.

O lobo foi à casa dela e, sabendo da visita semanal da  sua neta grávida, aproveitou-se da ingenuidade da velha para lhe dar uma paulada na nuca, escondê-la no armário, e começar seu teatrinho. Sentiu um frio na barriga e uma descarga de adrenalina. A verdade é que o lobo gostava do poder, mas gostava também de se fantasiar – de ovelha ou de vovózinha, não importava. Vestiu as roupas da velha, colocou a touquinha na cabeça e tratou de relaxar seus músculos e suavizar o seu olhar para ficar com cara de bonzinho.

A mãezinha apareceu, ansiosa e sem fôlego, e foi logo ao assunto.

“Ai, vó, estou tão cansada! Essa barriga pesada, as pessoas toda hora me ligando, perguntando se já nasceu… Não aguento mais,” desabafou.

“Minha filha,” começou o lobo, em tom compassivo, “não se cobra tanto. Hoje em dia, ninguém precisa mais passar por isso. Por que você não marca logo a cesárea como fizeram suas amigas?”

“Mas, vó,” protestou a jovem, “até parece que a senhora não ouviu nada do que eu disse esses meses todos. Eu quero parto normal!”

“Sim, filhinha,” disse o lobo, alisando as orelhas. “Mas o neném já tá prontinho, o quartinho também, as roupinhas lavadas e passadas. O médico não disse que já podia nascer? Hoje em dia a cesárea é super segura, pra quê tentar o normal?”

“Vó, não estou te reconhecendo. A senhora não vê que isso é papo de médico, só por que é mais conveniente para eles? Eu sei dos benefícios do parto normal e prefiro esperar.”

O lobo esfregou os olhos. Tentou uma nova estratégia.

“Tudo bem, minha filha. Você pode tentar. Mas saiba que na nossa família, as mulheres têm a bacia muito estreita. E os bebês  hoje em dia são imensos. Na hora, não fique chateada se você não tiver passagem.”

Isso foi demais para a mãezinha da capa vermelha. Ela tinha lido os livros certos e frequentado grupos de apoio: sabia que isso não passava de uma tática para meter medo nas mulheres. Definitivamente, algo não cheirava bem.

“Não, não e não!” gritou ela, assustando o lobo. “Eu sei que todas as mulheres da família tiveram parto normal, caso contrário, não estaríamos aqui hoje. Sinto, do fundo do coração, que eu também serei capaz de parir. E vejo que você não é quem você diz.”

“Calma, mãezinha,” tentou o lobo. “Eu só quero o melhor para você. Posso te oferecer o melhor da tecnologia e da ciência. Um parto rápido, limpo, planejado e sem dor.”

Finalmente, o lobo mostrou as garras: era mesmo um lobo cesarista, como ela suspeitara.

“Dr. Lobo,” disse a futura mãe, em alto e bom tom. “Você me subestimou. Achou que eu era mais uma mãezinha mal informada e ingênua. Mas, dessa vez, doutor, quem se enganou foi você. Eu sou a mulher da capa vermelha, sou guerreira – luto para conseguir o que eu quero – e eu vou parir o meu filho.”

E com isso, abriu as portas do armário, segurou sua vózinha com firmeza e saiu da floresta do lobo.

11 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Evolução, exterogestação e como sobreviver aos primeiros três meses

Você certamente conhece a teoria da evolução, mas já ouviu falar na teoria da exterogestação? Na verdade, as duas estão ligadas. Vou procurar fazer uma explicação sucinta dos conceitos, porque o que quero mesmo é falar da parte prática: como se adaptar aos temidos e temerários primeiros três meses da vida do seu bebê.

De acordo com os antropólogos, quando passamos a ser bípedes, muita coisa mudou. Andar ereto e caminhar em dois pés fez com que nossa bacia ficasse mais estreita e, para isso, os bebês passaram a nascer mais cedo, quando a cabeça ainda poderia passar pela bacia sem grandes riscos. O resultado disso é que os seres humanos passaram a nascer antes de estarem totalmente prontos ou maduros. Comparado a outros mamíferos, de fato o bebê humanos é extremamente… uh… atrasado (o termo científico é altricial). O bezerro mal nasce e já consegue andar, o golfinho nasce nadando e até um chimpanzé recém-nascido é mais comunicativo que um bebê humano. O bebê humano é molinho, não sustenta nem a própria cabeça, não tem coordenação motora, passa grande parte do seu tempo dormindo e é praticamente cego. Tudo isso porque o cérebro do bebê ainda está em desenvolvimento. Ao contrário dos outros órgãos, que vão crescer em tamanho, mas não em complexidade, o cérebro ainda tem muito a crescer (praticamente 400%) e a desenvolver. Somente as partes mais primitivas do cérebro – responsáveis pelas atividades que não controlamos conscientemente, os reflexos e atividades autônomas como respirar e digerir – estão “prontas” de fato.

É aí que entra a teoria da exterogestação. Como a própria palavra sugere, a exterogestação propõe que parte da gestação do bebê humano é conduzida fora do útero. O antropólogo Ashley Montagu foi quem apresentou o conceito que, recentemente, foi popularizado pelo pediatra americano Harvey Karp, que cunhou o termo “quarto trimestre”. Enquanto a teoria de exterogestação indica 9 meses de gestação fora do útero, o dr Karp fala somente dos primeiros três meses. Mas o propósito é o mesmo: reconhecer nessas criaturas extremamente dependentes e indefesas uma condição delicada de “não estar pronto”.

E, ao reconhecermos essa condição, podemos adaptar o nosso cuidado do recém-nascido levando isso em conta. Quais são as implicações práticas?

Vou fazer uma lista (como boa virginiana, adoro listas!):

O contato pele a pele é primordial

* Contato: O toque é o primeiro sentido a se desenvolver, é o mais primitivo que temos, junto com o equilíbrio. Por isso, o bebê deve ser acariciado, carregado, beijado e massageado sempre que possível. Estar nos braços da mãe ou do pai é aconchegante para o bebê, que se sente seguro assim. Estudos internacionais mostram que bebês que ficam em contato pele a pele (importantíssimo!) com a mãe (ou pai) regulam melhor os batimentos cardíacos e a temperatura e são menos estressados. O sling é um excelente acessório que satisfaz tanto a necessidade de contato sem afetar as outras principais necessidades do recém-nascido (dormir e comer). Ah, e é adotado por grande parcela das culturas não urbanas em todos os continentes.

* Dormir: Pode parecer que não, mas bebezinhos dormem muito (passam em torno de dois terços do dia dormindo!). E não adianta tentar impor uma rotina a um recém-nascido; seu cérebro não está capacitado para esse tipo de lição e, por estar em rápido desenvolvimento, o melhor é deixar o cérebro dele ditar a hora do sono. Pessoalmente,  não vejo muito sentido em colocar um recém-nascido para dormir num quarto sozinho à noite. Para mim, é uma questão de praticidade: ele vai acordar tanto durante a noite, para mamar ou simplesmente porque isso é o natural para ele, que você só vai se desgastar. Por isso, faça como grande parte da população mundial e leve-o para seu quarto num moisés ou bercinho ou pratique a cama compartilhada, colocando-o para dormir com você. [Não, não é perigoso; saiba mais no seguinte post]

Um berço que fica na lateral da cama do casal faz sentido, não?

* Comer: No útero, recebendo nutrientes via o cordão umbilical, seu bebê não tinha horário para comer. Tentar impor uma rotina quando ele nasce pode até ser bom para você – e se funcionar, ótimo!- mas definitivamente não é natural para o bebê, que tem seu próprio ritmo. Como seu cérebro primitivo está a todo vapor, ele está “programado” para fazer de tudo para satisfazer sua fome – primeiro com sinais sutis (virando a cabeça, mexendo a boquinha) e depois de maneira mais óbvia (chorando, berrando, urrando). E uma coisa é certa: o bebê não vai morrer de fome se você deixá-lo à vontade para mamar quando quiser. Praticar a amamentação em livre demanda (sem a ditadura do relógio) pode ser uma solução para tornar as mamadas menos estressantes e mais bem-sucedidas para vocês dois. Sem contar que ajuda muito na produção do leite!

* Barulho: Engana-se quem acha que o útero é um lugar silencioso. Sons de todos os tipos passam pelas paredes do útero (nem queira imaginar!). Por isso, bebês gostam de barulhos repetitivos, como o som de um secador, aspirador, rádio sem sinal ou o som que todos nós fazemos institivamente para calar um bebê chorão (sh…). Também vale a pena acrescentar que o som favorito dos bebês (sim, foi estudado!) é o som da voz de sua mãe. Então solte a língua!

* Movimento: De novo, o comportamento institivo de balançar o bebê tem a ver com reproduzir sua vida intrauterina. Mais um motivo para investir num sling e sair para fazer uma caminhada, dançar (devagarinho, claro) ou simplesmente fazer as tarefas da casa.

Vale frisar, para concluir, que essas não são regras e sim sugestões. Podem funcionar para você e para o bebê. Ou não. Mas lembre-se: o bebê humano pode até se adaptar a uma rotina rígida de mamadas e sonecas, e pode até ficar tranquilo sozinho por horas a fio, mas ele não evoluiu para isso. Portanto, não espere isso dele e tenha compaixão por suas necessidades, mesmo que pareçam impossíveis de satisfazer às vezes.

10 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Gravidez: o corpo entregue

Mãe Terra, de Brigid Marlin

Confesso que tenho uma visão muito romântica de como é  “estar grávida”. Imagino-me num perpétuo e profundo estado de graça, ciente e sentiente de estar gerando uma nova vida. Se fosse escrever um poema (coisa que definitivamente não farei – por razões que você entenderá logo), escolheria palavras como: semente, segredo, tesouro, dádiva, luz, sublime… (não disse que não sou poetisa?!) As imagens que aparecem para mim são transcendentes, carregadas de vida, amor e fé nas forças da natureza. [Imagino que as leitoras que já passaram por isso estejam rindo muito neste momento!]

Definitivamente, essa imagem “deusa-mãe” não é a impressão que me passa a maioria das grávidas no meu círculo de amizades. Pelo contrário, nelas predominam  o estranhamento, a ansiedade (para não dizer pavor) e a resignação. Lembro-me de uma ocasião em que uma grávida me falou que se sentia possuída, como se o feto de poucas semanas de gestação estivesse roubando-lhe as forças e os nutrientes. Imediatamente, pensei naquele filme Alien, o 8º passageiro. Recentemente, uma amiga querida caiu aos prantos e confessou sua culpa por ter, sem querer, sido exposta a toxinas quando visitou o seu apartamento, que estava em obras; soluçando, se crucificou por um possível futuro câncer em seu filho. Uma outra amiga concordou em brindar a boa notícia de sua gravidez com um pouquinho de champanhe, já que sua médica havia liberado o consumo de uma taça de vinho de vez em quando.

São experiências muito diferentes entre si, mas todas revelam um elemento da gravidez que muito me assusta: a entrega do próprio corpo. No primeiro caso, o corpo está entregue a uma criatura compreendida e sentida não como simbiótica, mas parasita (para lembrar o curso de biologia, simbiótico é o relacionamento em que ambos se fortalecem; parasítico é aquele em que um se aproveita do outro). No segundo, a gravidez fica entregue aos medos profundos e as neuroses existentes em todas nós, mas que podem se tornar mais difíceis de contornar ou de sufocar nessa fase tão sensível e intensa da vida de uma mulher. Por fim, no terceiro, o corpo e, especialmente, a nova vida que brota dentro dele estão entregues ao saber médico. [Aqui vou fazer um parêntese: não estou falando que minhas amigas passaram a gravidez inteira tomada por esses sentimentos, somente que são pontos de partida para uma reflexão].

Tenho medo de olhar no espelho e me enxergar nesses exemplos quando chegar a minha vez. Não quero pensar no meu filho, tão desejado, tão esperado, como um parasita faminto que está roubando minhas forças e minha senhoria sobre o meu corpo, que, com seu crescimento descontrolado, me força a adquirir formas e contornos estranhos. Não quero ser tomada por pavores irracionais nem mergulhar nas profundezas da minha psique e descobrir monstros horrendos ou, pior, uma criatura insegura e neurótica. Tampouco quero entregar decisões básicas e inalienáveis da minha vida – tipo, o que comer e beber – para uma médica que pode estar se baseando em crenças pessoais, pesquisas datadas (não é o caso da médica da minha amiga, diga-se de passagem) ou impulsos extremamente controladores. A verdade, admito, é que eu não suporto a ideia de abrir mão da minha idealização, da minha autoimagem, da minha autonomia.

Mas não seria a gravidez o perfeito momento para tamanha entrega? Para soltar de nossos punhos cerrados nossas verdades e certezas, lançando-as ao imponderável e, aos poucos, mesmo que sofrendo, mesmo que relutante, abrir um espaço real e possível para um outro ser?

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized