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Gravidez: o corpo entregue

Mãe Terra, de Brigid Marlin

Confesso que tenho uma visão muito romântica de como é  “estar grávida”. Imagino-me num perpétuo e profundo estado de graça, ciente e sentiente de estar gerando uma nova vida. Se fosse escrever um poema (coisa que definitivamente não farei – por razões que você entenderá logo), escolheria palavras como: semente, segredo, tesouro, dádiva, luz, sublime… (não disse que não sou poetisa?!) As imagens que aparecem para mim são transcendentes, carregadas de vida, amor e fé nas forças da natureza. [Imagino que as leitoras que já passaram por isso estejam rindo muito neste momento!]

Definitivamente, essa imagem “deusa-mãe” não é a impressão que me passa a maioria das grávidas no meu círculo de amizades. Pelo contrário, nelas predominam  o estranhamento, a ansiedade (para não dizer pavor) e a resignação. Lembro-me de uma ocasião em que uma grávida me falou que se sentia possuída, como se o feto de poucas semanas de gestação estivesse roubando-lhe as forças e os nutrientes. Imediatamente, pensei naquele filme Alien, o 8º passageiro. Recentemente, uma amiga querida caiu aos prantos e confessou sua culpa por ter, sem querer, sido exposta a toxinas quando visitou o seu apartamento, que estava em obras; soluçando, se crucificou por um possível futuro câncer em seu filho. Uma outra amiga concordou em brindar a boa notícia de sua gravidez com um pouquinho de champanhe, já que sua médica havia liberado o consumo de uma taça de vinho de vez em quando.

São experiências muito diferentes entre si, mas todas revelam um elemento da gravidez que muito me assusta: a entrega do próprio corpo. No primeiro caso, o corpo está entregue a uma criatura compreendida e sentida não como simbiótica, mas parasita (para lembrar o curso de biologia, simbiótico é o relacionamento em que ambos se fortalecem; parasítico é aquele em que um se aproveita do outro). No segundo, a gravidez fica entregue aos medos profundos e as neuroses existentes em todas nós, mas que podem se tornar mais difíceis de contornar ou de sufocar nessa fase tão sensível e intensa da vida de uma mulher. Por fim, no terceiro, o corpo e, especialmente, a nova vida que brota dentro dele estão entregues ao saber médico. [Aqui vou fazer um parêntese: não estou falando que minhas amigas passaram a gravidez inteira tomada por esses sentimentos, somente que são pontos de partida para uma reflexão].

Tenho medo de olhar no espelho e me enxergar nesses exemplos quando chegar a minha vez. Não quero pensar no meu filho, tão desejado, tão esperado, como um parasita faminto que está roubando minhas forças e minha senhoria sobre o meu corpo, que, com seu crescimento descontrolado, me força a adquirir formas e contornos estranhos. Não quero ser tomada por pavores irracionais nem mergulhar nas profundezas da minha psique e descobrir monstros horrendos ou, pior, uma criatura insegura e neurótica. Tampouco quero entregar decisões básicas e inalienáveis da minha vida – tipo, o que comer e beber – para uma médica que pode estar se baseando em crenças pessoais, pesquisas datadas (não é o caso da médica da minha amiga, diga-se de passagem) ou impulsos extremamente controladores. A verdade, admito, é que eu não suporto a ideia de abrir mão da minha idealização, da minha autoimagem, da minha autonomia.

Mas não seria a gravidez o perfeito momento para tamanha entrega? Para soltar de nossos punhos cerrados nossas verdades e certezas, lançando-as ao imponderável e, aos poucos, mesmo que sofrendo, mesmo que relutante, abrir um espaço real e possível para um outro ser?

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