Arquivo do mês: agosto 2012

O pessoal e o político: por que sou ativista da amamentação

 

Breastfeeding - we can do itAinda não sou mãe e, portanto, nunca dei de mamar. Mas sou filha, e só mamei leite materno até os 45 dias de idade, o que na época (final dos anos 70) estava bem dentro da média para filhos de mulheres urbanas, da região sudeste, com superior completo e renda familiar acima da média (pelo menos de acordo com este estudo). O fato de a minha mãe ser médica não a impediu de ter desistido da amamentação tão precocemente. Graças aos esforços de ativistas da amamentação, a partir de meados dos anos 80, os índices de aleitamento no Brasil começaram a melhorar. Meus irmãos mais novos se beneficiaram desses esforços e também da maior experiência da minha mãe. Ambos mamaram bem mais do que eu, embora muito menos do que os “2 anos ou mais” sugeridos pelo Ministério da Saúde e a OMS.

Mas ainda temos um longo caminho a trilhar. De acordo com a II Pesquisa de Prevalência de Aleitamento Materno nas Capitais Brasileiras e Distrito Federal, em 2009 somente 39,4% dos bebês da região sudeste mamaram exclusivamente leite materno até os primeiros 6 meses de vida. A média só teve amamentação exclusiva por 55 dias. Ou seja, a maior parte dos bebês brasileiros mamaram exclusivamente menos de dois meses (lembrando que a orientação é de 6 meses)!

Esses números significam que mais crianças estão sofrendo de alergias, infecções, dermatites, asma, otite e obesidade. Menos bebês estão atingindo seu potencial cognitivo. Mais crianças terão problemas de desenvolvimento imunológico e neurológico, inclusive TDA e autismo. Mais crianças terão problemas fonoaudiológicos, como gagueira e desenvolvimento da fala.

Não amamentar está implicado em todos os problemas citados acima. E isso não deveria causar espanto, visto que o bebê humano se desenvolve melhor com leite humano; outros leites, por mais bem feitos que sejam, podem gerar desequilíbrios ou deficiências. O que, claro, não significa que o bebê que mama esteja imune a esses males, e sim que o bebê que não mama corre riscos maiores.

Mas para mim, esses efeitos não são mais graves do que acontece com a mulher. Esses índices baixíssimos também revelam que mais mulheres estão acreditando que seus corpos são falhos e imperfeitos ou porque seu leite é insuficiente ou porque não “sustenta” seu bebê esfomeado (não é verdade!). Mais mulheres estão (literalmente) comprando a ideia de que as indústrias farmacêuticas e alimentícias fabricam leites quase perfeitos, capazes de se aproximar do maravilhoso leite humano que nossos corpos produzem naturalmente (é mentira!). Mais mulheres estão abrindo mão de uma atividade rara – algo experimentado poucas vezes numa vida, e só por nós mulheres! – , que une a nutrição, o amor, a comunicação, a emoção e a espiritualidade. Mais mulheres passaram a ver seus seios exclusivamente como objetos para atrair um homem (vide o número crescente de cirurgias plásticas para aumentar as mamas), esquecendo que neles também reside o poder de nutrir um outro ser humano.

Isso tudo me causa profunda tristeza e, por isso, não posso deixar de me expressar e de levantar a bandeira da amamentação. Para mim, é pessoal. E é também político, porque amamentar não é uma meta fácil numa sociedade que lança centenas de armadilhas para dificultar a vida das nutrizes e dos lactentes.

Como ativista, eu luto para que as mulheres tenham acesso à informação e ao apoio necessários para que possam atingir as suas metas pessoais de amamentação. (Um parêntese: Eu torço para que essas metas reflitam as recomendações do MS e da OMS, mas JAMAIS defenderia medidas que tirassem da mulher a liberdade de escolher como e por quanto tempo ela quer nutrir o seu bebê)

Informação como…

  • a importância de amamentar na primeira hora de vida e do contato pele a pele
  • saber reconhecer os mitos mais frequentes que minam a autoconfiança da mulher e atrapalham a sua experiência de amamentar (por exemplo: a rotina rígida de 3 em 3 horas pode diminuir a produção de leite)
  • entender as necessidades reais do bebê em cada fase de vida (por exemplo: sabia que o estômago de um recém-nascido no primeiro dia de vida é do tamanho de uma cereja e, no terceiro dia, de uma bolinha de ping pong?)
  • o que fazer para prevenir e tratar os problemas mais comuns

Apoio como…

  • licença maternidade de 6 meses
  • espaços de trabalho em que mães e bebês possam permanecer juntos
  • acesso a profissionais competentes, embasados, carinhosos
  • grupos de mães (reais e virtuais) para trocar experiências e oferecer suporte emocional
  • uma sociedade que enxerga o aleitamento como normal e belo

Enquanto ainda faltar informação e, principalmente, apoio pessoal, profissional e político para as mulheres que desejam amamentar, vestirei a minha camisa de Lactivista. Meu sonho é não precisar mais fazê-lo.

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CREMERJ, deixa eu ver se entendi…

No post anterior, tentei colocar em palavras algumas crenças sobre a fisiologia do parto e a autonomia das mulheres para começar um diálogo honesto com o CREMERJ, que, através das resoluções 265 e 266, tentou restringir a liberdade da gestante de escolher ser acompanhada por uma doula, obstetriz ou parteira em ambiente hospitalar e punir os médicos que escolhem honrar as escolhas de suas pacientes ao acompanhar ou dar apoio ao parto domiciliar.
Bom, como não obtive nenhuma resposta do Cremerj (hehe) e não sei o que eles acham das minhas colocações, resolvi fazer um exercício de imaginação: baseada na postura do Conselho nesses últimos meses e nas entrevistas à imprensa, vou tentar deduzir quais são as crenças dos médicos que compõem a cúpula do Cremerj e, para cada ponto levantado, farei um contraponto e uma sugestão.

Crença #1: O parto é um evento médico

Enquanto eu e outras ativistas do parto humanizado acreditamos que o parto é fisiológico, o Cremerj o enxerga como um evento médico; isto é, para que o parto transcorra bem, a presença e a atuação de um médico são imprescindíveis. Por isso, não cogita a possibilidade de partos ocorrerem fora do ambiente hospitalar e com equipes compostas por não-médicos (parteiras, obstetrizes e doulas). Como comentou a médica Mariane no post anterior, na visão deles, “o parto nunca foi um evento fisiológico, é um evento hemorrágico”.

  • Contraponto: se o parto não fosse um evento fisiológico, os seres humanos não teriam chegado até 2012 com uma população de quase 7 bilhões, sendo que os partos só migraram para o ambiente hospitalar em massa do início para o meio do século 20. Se não fosse fisiológico, o nascimento não aconteceria em gestantes em coma ou em mulheres subnutridas. Mesmo em condições adversas, as mulheres parem.
  • Sugestão: que tal assistirem a um parto totalmente fisiológico antes de pressupor que as mulheres precisam das intervenções da obstetrícia para parirem?

Crença #2: O parto domiciliar é muito arriscado, mesmo em gestações de baixo risco

A grande maioria dos médicos passou 5 anos de faculdade estudando patologias e aprendendo a corrigi-las com intervenções cirúrgicas e/ou farmacológicas. Em casos de ginecologistas obstetras, passaram a residência observando partos hospitalares, muitos de alto risco, por se tratarem de hospitais referência em risco, e pouquíssimos partos naturais (sem intervenções). Por conta desse histórico, surge no imaginário do médico um bando de possíveis, porém improváveis, complicações – sendo que somente uma pequena parcela destas complicações requer ação imediata. Pensam logo em: prolapso de cordão (0,14 – 0,16% dos partos), hemorragia pós-parto (aprox. 6%), placenta acreta (0,2%), distócia de ombro (aprox. 1,5%)… Enfim, o pensamento vai logo para a patologia (o problema)!

  • Contraponto: Estatisticamente, como eu já disse várias vezes, o parto domiciliar em mulheres de baixo risco é comparável ao parto normal hospitalar em se tratando de resultados maternos e neonatais. É claro que complicações podem ocorrer num parto domiciliar. Mas a equipe – geralmente enfermeira obstétrica ou obstetriz – está preparada para lidar com elas. Os profissionais que atendem partos em casa trazem material como oxigênio e ocitocina sintética, e foram treinados para administrá-los caso necessário (ex. em casos de hemorragia). Também estão prontos para reconhecer casos em que a transferência torna-se necessária, como um prolapso de cordão ou uma verdadeira distócia ou desproporção cefal0pélvica. A recomendação universal é que em casos de cesarianas de emergência (ou seja, por uma real indicação) haja um intervalo de 30 minutos entre a decisão de operar e o primeiro corte. Por essa razão, muitas equipes que atendem parto domiciliar só o fazem se o hospital mais próximo estiver a 20 minutos de distância da casa da gestante.
  • Sugestão: Que tal analisarem o banco de dados Cochrane e se informarem sobre a incidência dessas emergências todas? E reflitam sobre isso: a chance de complicações em uma cirurgia é bem maior que a chance de haver uma real complicação num parto domiciliar sem intervenção ou uso de drogas. Segundo este estudo canadense, a incidência de morbidade severa para mulheres de baixo risco em uma cesárea eletiva é de 2.73%. Pensem nisso.

Crença #3: Nossos interesses vêm antes da saúde dos pacientes

Em uma nota à imprensa, o presidente do Cremerj disse: “o médico não pode compactuar com um evento que pode trazer danos ao paciente”. Entende-se: o parto domiciliar traz danos aos pacientes e o parto hospitalar não. (Será que acham que a doula também traz danos?) Por coincidência, um parto natural, sem uso de métodos para acelerar o trabalho de parto, é muito menos rentável que uma série de cirurgias agendadas previamente num hospital “parceiro”.

  • Contraponto: Acho curioso o Cremerj nunca ter tomado medidas para reduzir o número vergonhoso de cesáreas eletivas (sem indicação) que representam a grande maioria das internações nas maternidades particulares do Rio e que trazem mais danos à paciente (e ao bebê) do que o parto normal. Enquanto isso, dispuseram de tempo e recursos para tentar proibir o parto domiciliar, que representa somente 5 dos 7.000 partos por mês no município do Rio de Janeiro (ou 0,7% contra 56,9% de cesáreas). Com isso, entendo o seguinte: mesmo representando danos maiores aos pacientes (mãe e filho), a cesárea é muito conveniente para os médicos, já que só pode ser feita por eles (monopólio) e ainda pode ser marcada com antecedência, facilitando a agenda (conveniência). Somente quando o parto acontece fora de sua esfera de poder (em casa ou em casa de parto), acompanhado por profissionais embasadas e engajadas (doulas, obstetrizes, parteiras – e o famoso “etc.”) é que ele incomoda o Conselho.
  • Sugestão: Tome vergonha na cara, Cremerj! Quer dizer que a mulher só tem autonomia para optar por aquilo que é conveniente para você? Cesariana eletiva pode, parto domiciliar não? Cadê a coerência? Me mostre as evidências!

Crença #4: A experiência da mulher no parto não importa

Quando o Cremerj fala sobre o parto, fala somente em termos médicos: o local do parto, a equipe, os riscos. Ao colocar o parto sob sua jurisprudência, num ambiente em que o médico dita as regras (o hospital), o conselho pretende garantir uma experiência conveniente, confortável e controlada. Para os médicos, claro. A gestante é meramente uma coadjuvante, cuja experiência subjetiva (desejos, medos, emoções) pouco/nada importa.

  • Contraponto: O parto é uma experiência transformadora para a mulher. É o momento em que vira mãe, em que conhece seu filho, em que seu corpo a surpreende, em que passa por sensações físicas e psíquicas únicas. A mulher não é só um corpo (uma “máquina” que precisa do seu “conserto”), mas um ser humano subjetivo, que sonha, deseja, teme, ora, transcende. Esse corpo que sente, essa pessoa, além de querer o melhor para si e para seu filho, quer também ser tratada com dignidade e respeito.
  • Sugestão: Que tal reconhecer que a experiência da mulher importa tanto quanto os resultados? A mulher quer o mesmo que você – um desfecho feliz, com mãe e bebê saudáveis – mas que ela não quer isso, compreende? Para fazer uma analogia, pense numa refeição. Você está com fome e quer se alimentar. Mas muito além de suprir suas necessidades calóricas e ingerir as vitaminas certas, você também quer um prato saboroso, temperado de acordo com seu gosto. Se puder escolher, você quer comer no seu restaurante predileto e pagar um preço justo. E aí, você acha que isso é querer demais?

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