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Bebês e tecnologia: a tentação do entretenimento constante

Uma profusão de iPads e outros brinquedinhos eletrônicos invadiu as mesas dos restaurantes cariocas nos fins de semana. Em todo lugar que vou há no mínimo uma criança vidrada numa tela, totalmente submersa num universo virtual. E, para cada criança dessa, seja na vida real ou virtual, há adultos babando a “genialidade” dessa nova geração que parece nascer já segurando um iPad ou celular. Não tenho nada contra aparelhos eletrônicos – inclusive acabei de trocar meu celular velho por um iPhone e raramente saio sem o meu Kindle. Portanto, reitero: não sou antitecnologia, de jeito nenhum. Mas quando crianças entram nessa equação sou um pouco questionadora sim: será que o efeito de tantas telas, botões e estímulos em suas mentes e corpos em desenvolvimento é positivo?

toddler on ipad

Procurei no site da Sociedade Brasileira de Pediatria algum posicionamento sobre o assunto. Não encontrei. Aliás, o que encontrei me incomodou tanto que já está se transformando no próximo post. Mas, voltando a este, não sei o que os pediatras brasileiros têm a dizer, mas a Academia Americana de Pediatria é categórica: ela recomenda evitar que crianças de menos de 2 anos sejam expostas à televisão (seguindo a lógica, isso vale também para outros gadgets com tela). A razão pela recomendação é complexa e baseada em vários estudos que sugerem uma relação entre tempo assistindo televisão e, entre outros, obesidade infantil, déficit de atenção e atraso no desenvolvimento da linguagem.

Você deve estar achando essa recomendação meio radical ou, no mínimo, irreal. Pode ser mesmo. Mas o fato de esta entidade importante ter achado necessário proibir as telinhas na vida dos pequenos sugere que devemos, no mínimo, fazer um esforço para chegarmos às nossas próprias conclusões: afinal, qual poderia ser a consequência da tecnologia em suas vidas e que limites devemos impor a ela?

Não vou resumir as pesquisas citadas pela Academia Americana de Pediatria. Quero opinar sobre esse fenômeno e compartilhar algumas hipóteses que têm pipocado na minha mente. Minha opinião, para variar, é um pouco contrária à de grande parte da população. Não acho “uma gracinha” nem “genial” um bebê de um ano mexendo com maestria num iPad; isso não é prova de que “as crianças de hoje são mais espertas”. Passar o dedinho no iPad é moleza em comparação à coordenação necessária para virar uma página de livro ou segurar um lápis. Saber mexer no iPad é tão natural para eles quanto apertar um botão num brinquedo de plástico era na nossa época. Bebês aprendem o que veem, e se estão vendo os pais no iPad, com sua tela colorida que responde ao menor toque, claro que vão aprender a mexer nele também – e vão achar o máximo perceber como podem “influenciar” o ambiente só com seu dedinho. Nada mais normal. E milenar.

O que me preocupa é a possibilidade dos eletrônicos – por serem mais simples, controláveis e, muitas vezes, mais divertidos que as pessoas – se tornarem mais prazerosos e familiares do que o contato com seres humanos. Afinal, seres humanos não são previsíveis e nem sempre agem como gostaríamos. Os eletrônicos, em comparação, prometem uma gratificação instantânea e uma relação hierárquica clara: nós somos o mestres e, eles, os escravos. Que relação mais tentadora – e perigosa – para uma criança aprender, sobretudo numa fase tão delicada como a primeira infância.

Também acho desconcertante ver um neném de meses mais interessado no desenho imbecil passando numa tela de 40 polegadas do que nas pessoas a seu redor. Desenhos e joguinhos eletrônicos têm sim aspectos positivos, mas não para bebês. Bebês precisam de contato com pessoas, precisam ser expostos à linguagem, ao toque físico, precisam desenvolver suas habilidades motoras grossas (girar, sentar, engatinhar, andar, correr, se equilibrar) e finas (apontar, segurar uma ervilha, um lápis, direcionar os movimentos). A televisão, o iPad, o computador e o celular não auxiliam nesse aprendizado e podem até atrapalhar. Bebês definitivamente não precisam deles para se desenvolverem bem, e o contato com recursos tão sedutores pode, pelo menos em tese, distraí-los a tal ponto que venha a ser prejudicial a seu desenvolvimento psicossocial nesse mundo repleto de pessoas, tarefas e momentos chatos e desinteressantes, porém importantes.

E por falar em distração, não posso deixar de citar o argumento de que alguns pais que conheço, que defendem que a televisão é mais para os pais “terem um momento de descanso” do que qualquer outra coisa. Não vou negar que deve ser um alívio e tanto. Mas eu tenho uma dificuldade em aceitar a lógica por trás disso. Quem disse que seu filho precisa estar “estimulado” ou “entretido” a todo momento? Será que esse entretenimento constante – barulhos, cores, ação e imagens em movimento – não está, sem querer, criando expectativas irreais sobre o mundo e o futuro que os espera fora das quatro paredes de seu lar? Quando seu filho tiver que prestar atenção na aula de matemática será que vai conseguir? Quando for preciso esperar sentado a refeição no restaurante será que vai aguentar? A vida tem momentos de tédio e é preciso aprender a lidar com eles.

Isso me traz à questão da imaginação. A imaginação é um recurso usado para vencer adversidades como o tédio, a tristeza, o desconhecido, o medo. Ver televisão, jogar joguinho e mexer no iPad não estimulam a imaginação. Não sou especialista, mas, na minha opinião, as telas, de maneira geral, não nos convidam para criar; as formas, as cores, os sons já estão todos ali, e não sobra muito espaço em branco para a criança preencher com imagens, cores e sons da sua própria mente. Um livro, uma folha de papel, um brinquedo, o silêncio, por outro lado, são convites perfeitos para o exercício da imaginação. O valor dessa ação criativa da mente não deve ser menosprezado, sobretudo na infância.

Quero deixar claro que não estou propondo abolir a tecnologia da vida das crianças. Não é isso! As telas fazem partes de suas vidas, isso não podemos negar. Mas refletir sobre seus possíveis efeitos é uma questão de responsabilidade. A que ponto estimulamos a dependência em eletrônicos em nossos filhos para, na verdade, facilitar a nossa vida, seja por preguiça ou por não sabermos como lidar com os eventuais momentos difíceis? Será que, ao invés de ligar a TV na hora da janta, você não pode aproveitar para focar no prazer da comida, seus sabores, texturas, aromas? Ao invés de botar um iPad na  frente da criança para “ajudá-la” a lidar com o tédio no restaurante, que tal inventarem juntos joguinhos ou brincadeiras que podem ser feitas na mesa? Em vez de investir num aparelho de DVD para ter no carro, por que não ligar o rádio ou simplesmente viajar em silêncio, permitindo a seu filho um momento de contemplação? E, na hora de comprar um brinquedo para satisfazer aquela ânsia por novidade e estímulo, que tal oferecer um desses 5 brinquedos, apontados por um contribuinte da revista Wired.com como os melhores de todos os tempos?

Digo tudo isso porque, apesar de estarmos no século XXI, o mundo não mudou tanto assim. Continuamos sendo seres primordialmente sociais. Precisamos aprender a conviver em grupo, interagir, olhar nos olhos, amar e perdoar. Precisamos aprender a controlar nossos impulsos e a adiar a gratificação (já ouviram falar no famoso teste do marshmallow?). Temos o ímpeto de criação e, para isso, precisamos desenvolver o poder da imaginação. Nossos corpos também precisam de movimento, de desafios, de diversão. E para tudo isso, convém desligar a TV ou o notebook, guardar o iPad ou o joguinho eletrônico, e viver o momento presente com todos os sentidos – mesmo quando (ou especialmente quando) esse momento seja puro tédio.

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