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Enxoval: o que realmente importa

Confesso que adoro olhar roupinhas de neném, passo horas na internet pesquisando fraldas de pano (as modernas, assunto para outro post) e carrinhos de bebê (nisso sou expert mesmo!) e não resisto uma folheada em revistas de decoração de quartinho quando passo numa banca. Como sou uma bebemaníaca assumida (e como viajo bastante pro exterior – a trabalho e por lazer), sempre tem alguém me pedindo ajuda para montar o enxoval, trazer algo de fora ou prestar uma consultoria sobre marcas importadas de carrinho ou cadeirinha ou sling. Adoro!

Mas se você acha que esse texto vai ser sobre as maravilhas de ter o enxoval perfeito – tudo importado, tudo novinho em folha – para recepcionar o seu herdeiro, bom, sinto muito desapontá-la. Não é nada disso. Quem espera um manifest0 anticonsumo e “de volta às raízes” também errou. Acontece que eu sou super a favor de se deliciar comprando enxoval – seja em Miami, Nova York, Paris, Copenhague (eu quero!) ou aqui no Brasil mesmo. Nessa nossa sociedade tribal, em que nossas identidades dependem não da cor que pintamos nossos rostos ou das argolas nas nossas orelhas, mas dos objetos que escolhemos como acessórios para nossa vida, comprar é natural. Sim, isso mesmo. Comprar faz parte do ritual, do preparo para assumir uma nova identidade.

O que me incomoda é o consumo inconsciente e o inconsequente.

O que seria o consumo inconsciente? É aquele mal pensado, por modismo ou impulso, que não leva em consideração as necessidades do bebê e o perfil da mãe. Um exemplo: mamadeiras e/ou chuquinhas para quem está determinada a amamentar. Olha, não sou xiita nem intolerante, e entendo quem precisa (ou opta) pelo aleitamento artificial. De novo, not my boobs, not my business (não são meus peitos, não tem nada a ver comigo). Mas alguém que se diz  super empenhada em amamentar exclusivamente com leite materno e aí investe num kit completo de mamadeiras importadas (com bico tamanho RN) antes mesmo de parir… isso eu não entendo. É como sonhar e se programar para uma viagem à Disney mas comprar bilhetes e passagem aérea para o Beto Carreiro World. Com tudo lá na gaveta, você vai acabar embarcando! Se o impulso de meter a mão no bolso for grande – acredita, eu entendo, tenho o lado consumista aflorado! – então procure um sutiã de amamentação bacana (bonito, chique), invista num delicioso chá da mamãe, naquela pomada importada, ou numa almofada de amamentação. Guarde o dinheiro para contratar uma enfermeira ou psicóloga para te ajudar a superar as dificuldades, se for preciso. E deixe para comprar as mamadeiras só se/ quando for realmente necessário. Isso é só um exemplo. Prometo desenvolver mais o tema “enxoval” em posts futuros.

Mas muito pior que o inconsciente é o inconsequente. Esse é o consumo desenfreado e elétrico, compulsivo, como se precisasse comprar o mundo para estar pronta ou preparada para criar um filho. É o consumo que, de fato, consome, devorando todo o resto. É o consumo das mulheres que acham que estão ganhando uma bonequinha ou bonequinho, uma princesinha ou um herdeiro, e querem que este esteja pronto para servir como seu último acessório e status symbol. Exemplos? Não faltam! O carrinho, tem que ser da marca X. Sem levar em consideração a largura da porta da sua casa, o tamanho do elevador, a falta de praticidade de ter um trambolho se você vai viver colocando e tirando-o da mala do carro. As roupas, só de grife: Burberry ou Baby Dior, please! Ou, no mínimo, engomadinhas, plisadas e cheias de babados para exibir o tesouro. Sem contar na chupeta de prata com cristais. E os objetos de entretenimento do bebê? Todos, claro! Cadeira que vibra, outra que balança, andador, tapete de atividades, carros de plástico, brinquedos que fazem barulho e piscam (um não basta, precisam ter 5 ou 10). O que é isso, minha gente? O seu filho é um ser humano, não um brinquedo. E, a não ser que você seja muito privilegiada e tenha uma casa gigantesca que você quer transformar em creche, não é preciso (nem muito menos saudável) recriar uma loja de brinquedos para o pimpolho. Além de roupas, ele precisa de afeto. Além de acessórios, ele precisa de cuidados. Será que essa mulher que está tão ocupada comprando, comprando, comprando teve tempo de parar para pensar nisso?

É legal ir pra Miami e comprar aquelas tralhas todas (metade das quais, você sabe, serão usadas 2 ou 3 vezes)? Claro que é! Só que muito, mas muito, mais legal que isso é saber que você preparou a sua cabeça (leu, se informou, refletiu) e que tem à sua disposição uma rede de apoio (marido, mãe, sogra, irmã, amigas, assistentes, vizinhos) para te dar a confiança e a tranquilidade para receber na sua vida um novo ser humano. É isso que realmente importa.

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