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SBP, Nestlé e como essa aliança afeta você (parte 2)

No último post, falei sobre a ligação entre pediatras e as empresas que fabricam leite artificial, cujas tentativas de vender seu produto como um bom substituto do leite materno foram surpreendentemente bem sucedidas, considerando várias provas do contrário, como risco maior de infecção, hospitalização, problemas respiratórios e gastrointestinais, otite e diabetes do tipo 1, entre outros. O marketing e as pesquisas constantes para aproximar o leite artificial do leite materno – meta que está muito longe de se realizar – acabaram por conquistar até mesmo a fonte de maior confiança de jovens mães e pais: o pediatra. Uma maneira em que os pediatras introduzem o leite artificial na dieta dos bebês – começando até mesmo no berçario – é legitimando mitos (ou indicando estratégias que fazem esses mitos se tornarem realidade). É deles que vamos falar nesta segunda parte.

Mentira #2: Pouco leite é uma condição real e comum na população

O “diagnóstico” de pouco leite leva muitas mulheres a substituírem o peito pela mamadeira. A constatação de que uma mulher “não produz leite suficiente”, além de falsa (na maioria dos casos), é muito cruel. A culpa vai toda para ela, com se seu corpo fosse “defeituoso”, quando, na verdade, costuma ser uma consequência de recomendações que prejudicam a amamentação. Existem casos raros de mulheres que de fato produzem pouco leite (hipoplasia mamária e alguns casos de cirurgia prévia de redução mamária são dois exemplos), mas a grande maioria das mulheres pode amamentar – mesmo que precisem complementar. O que elas precisam é de orientação adequada e apoio. Infelizmente, me parece que muitos pediatras – seja por falta de conhecimento, tempo ou por não acreditarem nos processos naturais – deixam a mulher na mão nessas horas.

Um dos motivos é simples: eles não são treinados para ensinar a amamentação às mães e nem têm tempo para esse tipo de orientação. Na faculdade e na residência o foco é em doenças e tratamentos, e não nos processos fisiológicos, naturais. Outro fator complicador é a busca pela eficiência; pediatras têm consultórios lotados, às vezes cirurgias e atendimentos hospitalares também, e não sobra tempo para sentar com cada mãe e dar dicas sobre amamentação. Por isso, acabam oferecendo uma receita de bolo, onde assumem que cada mulher é igual. Recomendam por exemplo, amamentar em horários fixos, o que não dá certo para muitas mães, que teriam mais sucesso se oferecessem o peito sempre que o bebê mostrasse sinais de fome (“livre demanda”), assim adequando a produção de leite às necessidades do bebê. Cada par mãe-bebê é único, com necessidades únicas, e o pediatra não consegue dar conta disso. E quando a mulher esbarra em problemas, como dor, bico rachado, mastite, a primeira recomendação de muitos pediatras é entrar com o complemento porque é a solução mais rápida.

Vendedoras disfarçadas de enfermeiras num hospital da África do Sul (ca. 1950)

A segunda razão é menos “inocente”. É onde entram os produtores de leite artificial. Trata-se da influência direta dessas empresas para boicotar a amamentação. Hoje em dia, por causa dos esforços de órgãos importantes de saúde pública, há leis que protegem a sociedade desse tipo de marketing, e muito do que foi feito antigamente é proibido. Mas, só para você ter uma ideia, até o fim dos anos 80 era comum distribuir latas gratuitas de leite às mães de recém-nascidos (iniciando o efeito “bola de neve”, que descreverei a seguir) e, nas décadas de 50 a 70, a Nestlé colocava representantes vestidas de enfermeira para fazer demonstrações dos produtos dentro dos hospitais. Inacreditável? Veja as fotos!

Hoje, para não desafiar as leis, essa influência é mais sutil: os pediatras fazem “cursos de treinamento” ou recebem “dados científicos” diretamente de empresas como Nestlé, Abbott, Mead Johnson etc. Um exemplo engenhoso é a tabela usada para avaliar como os bebês crescem no primeiro ano de vida. Baseada em pesquisas patrocinadas por fabricantes de LA,  essa tabela, usada por muitos pediatras, traz dados do crescimento de bebês americanos (caucasianos) alimentados por fórmulas a base de leite de vaca (que é mais gordo que o leite humano). Ou seja, de acordo com a tabela, bebês alimentados no seio aparentam estar abaixo do peso, quando, na verdade, a base da pesquisa é que é tendenciosa a favor do aleitamento artificial. Com uma “norma” tão anormal, não é de se espantar que tanta gente “precise” entrar com o complemento.

Uma ação rotineira e prejudicial do pediatra é prescrever LA ao recém-nascido já no berçário. Infelizmente, isso se tornou comum hoje em dia, especialmente (mas não exclusivamente) no caso de bebês que foram nascidos antes da hora (pré-termo), e pode prejudicar a amamentação. Primeiro porque o bebê corre o risco de não ter muita força para mamar. Segundo porque os hormônios da mãe ainda não estão agindo com força total e o leite pode demorar mais para descer. E terceiro porque o peso que aquele bebê naturalmente perderia nos primeiros dias não existe (ele nasceu antes de engordar essas 100-300g adicionais) e, para não perder peso demais, o pediatra recomenda o complemento. Assim começa o efeito bola de neve.

O efeito bola de neve funciona assim: tomando o complemento, o bebê mama menos; mamando menos, a produção da mãe cai, levando-a a aumentar a quantidade de complemento, e por aí vai, até ela desistir de vez e terminar oferecendo o LA em tempo integral, frustrada e culpada por “não ter conseguido” fazer o melhor para seu filho. Para piorar a situação, ela sai por aí falando que “teve pouco leite”, propagando esse mito quando, na verdade, o problema pode ter sido a indicação inicial de iniciar o complementação com LA. Claro que há bebês que de fato crescem pouco ou perdem muito peso e precisam de uma ajudinha – mas dificilmente esse fenômeno seria tão comum como é atualmente se as mulheres recebessem uma boa orientação. No entanto, esse quadro de “pouco leite” que acaba em “meu leite secou” é o sonho da Nestlé. O que essas empresas querem é que a amamentação não dê certo, que você não consiga. E são elas que estão patrocinando cursos, viagens e livros para o seu pediatra. Dá pra aceitar uma coisa dessas?!

Mas não se desespere. É possível se precaver desse, e de outros, mitos. Abordarei mais alguns mitos na terceira parte e, por fim, apresentarei uma lista de dicas para quem quer atingir a meta de amamentar naturalmente, sem “precisar” dar dinheiro para a Nestlé (ou qualquer outra empresa) na compra de LA.

 

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SBP, Nestlé e como essa aliança afeta você (parte 1)

Há uma semana, entrei no site da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) e dei de cara com o logo da Nestlé. Fiquei tão indignada que estou com um gosto amargo na boca até hoje. Esse patrocínio de difícil digestão é de uma incoerência, uma cara de pau e um mau gosto tão grotescos que decidi escrever meu primeiro post com teor “político”. Como o assunto é muito abrangente e complexo, será separado em partes. Não quero usar o blog para desabafos nem para levantar bandeiras, mas, nesse caso, foi impossível ficar calada.

Porque eu sei de tudo o que a Nestlé (entre outras) já fez e continua fazendo em desserviço à amamentação no Brasil e no mundo. E sei que a saúde infantil não é do interesse deles. Se fosse, não estariam vendendo leites artificiais e sim promovendo a amamentação; não estariam comercializando comidas a base de farinha e açúcar e sim divulgando os benefícios de uma nova maneira de alimentar nossas crianças; não estariam incentivando o “fast food infantil” (i.e. potes de alimentos triturados) e sim soluções para oferecer comidas de verdade, frescas e vivas, para seres humanos em desenvolvimento. A verdade é que a missão dos fabricantes de fórmula infantil (lucrar com a venda de alimentos processadas) é totalmente contrária aos objetivos da SBP, que é, ou deveria ser, zelar pela saúde das crianças brasileiras.

Já imagino os protestos: “Ah, ‘pera lá, Clarissa, não precisa demonizar a Nestlé. Afinal, vivemos numa sociedade capitalista e não há nada de errado em enxergar uma “demanda” por leite artificial e correr atrás desse mercado. E a Nestlé fabrica um produto que salva vidas de bebês que não podem amamentar.” Sim, sim, aceito a premissa capitalista e acredito (bom, tento acreditar) que essas empresas se empenham para oferecer um produto de qualidade para seus consumidores. O problema é a questão da demanda. Porque a Nestlé (e outras empresas, mas ela primordialmente) não simplesmente enxergou uma demanda existente (no caso, bebês ou mães que não conseguiam amamentar): ela ativamente criou essa demanda, convenceu os pediatras a legitimá-la e fomentou mitos como “o leite artificial é um substituto adequado ao leite materno”, “pouco leite é um problema real” e “amamentar é um estresse desnecessário na vida da mulher moderna”.

Mas antes, como sei que corro o risco de ser taxada de “xiita da amamentação”, quero deixar bem claro o seguinte: sou a favor do direito de optar pelo aleitamento artificial. Preparado da maneira correta, com mamadeiras e bicos higienizados, o leite artificial é seguro e, portanto, é uma escolha aceitável para quem não pode ou prefere não amamentar. Mas o direito de optar pressupõe acesso a informação correta e de confiança; caso contrário, é uma imposição disfarçada de “escolha”. Em outras palavras, a opção pelo aleitamento artificial não pode ser o resultado de mitos, mentiras ou falsas indicações médicas. Mas a realidade é justamente essa: um campo minado de mitos e mentiras, compradas inclusive por alguns pediatras (cortejados e seduzidos pelos fabricantes de leite artificial) e pela sociedade como um todo. Infelizmente, como pretendo mostrar, a Nestlé e as outras empresas (com o apoio da classe médica) venderam para o público informações enganosas. O propósito dessa série de posts é falar sobre o aspecto econômico e político da amamentação e, por fim, oferecer algumas dicas para que você não se torne vítima de uma situação que enche os bolsos dos acionistas dessas empresas e dos pediatras que os apoiam.Vamos por partes.

Mentira #1: o leite artificial é um bom substituto do leite materno

Desde que foi criado o processo de fabricação de leite em pó, empresas como a Nestlé buscaram um público para sua invenção – entre seus consumidores em potencial, jovens mães querendo ou precisando, especialmente por razões econômicas, se libertar da “árdua tarefa” de amamentar. O primeiro passo era vender a ideia de que seu produto era seguro e adequado. Anúncios como este de 1903 sugeriam que o alimento desenvolvido pela Nestlé produzia bebês fortes e rechonchudos que se tornariam “os trabalhadores do futuro”. O que esses anúncios não mostravam (óbvio) é que, na época, 20% dos bebês que tomavam essas fórmulas não sobreviviam ao primeiro ano de vida (comparado a 3% para bebês que mamavam no peito). Felizmente, desde então, práticas de higiene melhoraram e as empresas investiram muito para aprimorar seu produto. Mesmo assim, a mortalidade infantil de bebês que não tomam leite materno é duas vezes maior que a de bebês que mamam exclusivamente no peito – e esse é o índice para países desenvolvidos.

Mas isso não impede os fabricantes de leite artificial de tentarem convencer o público do valor de seu produto. A cada descoberta das propriedades incríveis do leite humano, as empresas correm para tentar incorporar novos benefícios a sua fórmula; recentemente, foram os ácidos graxos essenciais e os probióticos. Tudo isso para que nós, começando pelos pediatras, compremos a ideia de que o leite artificial (LA) é “quase tão bom quanto” o leite materno (LM). As empresas fabricantes de LA querem que a gente acredite que, se o LM representasse a nota “10”, o LA seria um “9”. Desculpa, mas isso não é verdade. Há uma diferença enorme entre ser “adequado” e ser “quase tão bom quanto”. O leite artificial é apenas adequado. Ele não chega aos pés do leite materno humano. O leite artificial pode engordar seu bebê e fazê-lo crescer e se desenvolver bem, mas é apenas adequado. Além de conter substâncias que não são próprias para bebês humanos (a proteína do leite de vaca), não  é um alimento vivo, não responde às necessidades particulares daquele bebê naquele momento e não contém uma série de substâncias que protegem e melhoram sua saúde (anticorpos, células-tronco, bactérias benéficas, entre outras substâncias que ainda serão descobertas). Portanto, o leite artificial é apenas um pobre substituto do leite humano. Se eu tivesse que dar uma nota, seria “6” – dá pra passar de ano, mas não é lá grandes coisas. Saiba que a Organização Mundial de Saúde recomenda fórmulas infantis somente como uma quarta opção, depois do leite direto do seio materno, o LM oferecido em copinho ou mamadeira, e o leite de outra mulher via bancos de leite materno ou ama de leite. E o seu pediatra, diz o mesmo?

Pense nisso, espalhe a notícia dessa aliança e, se quiser saber mais sobre as táticas da Nestlé e de suas concorrentes, dá uma espiadinha nesse texto (em inglês). Prometo publicar a parte 2 em breve.

 

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