Arquivo do mês: março 2012

Quer dizer que você quer parto normal?

Quando o assunto é parto, você diz “quero parto normal” ou “vou tentar normal” (e não se fala mais nisso)? Você acredita que, para ter parto normal, basta querer e torcer para que tudo dê certo? Você escolheu um médico do plano que se diz favorável ao parto normal, mas que diz “não se preocupe com isso, do parto cuido eu”?

Se você respondeu “sim” a qualquer uma dessas perguntas, você precisa ler este post. Se você conhece alguém que se encaixa nesse perfil, por favor, repasse o link para ela.

Eis os FATOS: se você vai ter seu filho na rede privada, a probabilidade de acabar numa cesárea se aproxima de 90%. Pense bem: quantas amigas suas começaram naquele quadro acima (“quero normal, meu médico diz que faz”) e terminaram numa cesárea? Não quero te desapontar (pelo contrário, quero ajudar!), mas a verdade é que parto normal não é para qualquer uma. É para quem pode – para quem pode correr atrás de informações confiáveis, pode encontrar a coragem para mudar de médico se o dela for cesarista, pode pagar um obstetra fora do plano ou optar pela rede pública se necessário, pode olhar para dentro e enfrentar seus demônios, pode peitar o marido, a mãe e o escambau. A boa notícia é que você pode ser uma mulher dessas.

Se você quer MESMO parto normal, seguem abaixo 7 dicas para aumentar as chances de ter o parto que você deseja e merece:

1. Informe-se

Parto normal no Brasil é exceção. Especialmente se você tem plano de saúde. Isso significa que você precisa estar ciente das possíveis armadilhas que fazem as mulheres caírem na cesárea, mesmo sem querer. Que armadilhas? Entre elas: os mitos sobre o parto, as falsas indicações de cesáreas, a realidade sociocultural e econômica (em que o normal é o parto cirúrgico), o sistema tecnocrático e voltado para lucros e a formação e a atitude da equipe que vai te acompanhar. Você não precisa mudar nada disso – se quiser tentar, ótimo! – mas não pode fingir que vive num mundo cor de rosa em que o médico vai deixar a natureza seguir seu curso, a equipe do hospital está lá pra te ajudar e o que quer que aconteça estava “escrito nas estrelas”. Acorde e deixe seus olhinhos bem abertos. Ou volte a acreditar em duendes (quer dizer, médicos bonzinhos) e depois não se surpreenda se acordar com uma bela de uma cicatriz na barriga.

2. Escolha um obstetra realmente favorável

A melhor forma de saber se o seu GO “faz” parto normal mesmo (quem faz é a mulher, mas já que essa é a expressão, estou adotando-a aqui, entre aspas) é através da indicação de mulheres que pariram com ele. Se isso não for possível, dê uma de detetive e procure pistas de que ele possa te induzir à cesárea. Fique atenta aos seguintes sinais: ele nunca desmarcou uma consulta (parto normal não tem hora marcada); no consultório, tem várias pacientes chegando para tirar pontos e meia dúzia de grávidas com a barriga do tamanho da sua (ou seja, não vai dar para esperar o trabalho de parto de todas elas); ele não gosta de falar sobre o parto e diz coisas como “deixa isso comigo”; ele é fã das táticas do medo (“o importante é a saúde do bebê”) e vive procurando pêlo em ovo (“temos que ficar de olho nesse líquido…”). Mesmo que ele seja muito querido, muito fofo e te conheça há anos, não se iluda: se ele faz cesárea em 90% dos casos, a sua chance de parir com ele é 1/10.

3. Procure apoio virtual e local

Quem nada contra a maré requer muito apoio e incentivo. Nada melhor que se juntar a pessoas que te entendem, já passaram por isso, e se empenham para ajudá-la a conseguir atingir o seu objetivo. Para isso, sugiro que você participe de grupos virtuais como o “Cesárea? Não, obrigada!” no Facebook e que procure também um grupo de apoio local, onde possa olhar nos olhos de outras mães, ouvir suas experiências e trocar recomendações. Aqui no Rio tem o Ishtar, grupo incrível, coordenado por gente maravilhosa e frequentado por mulheres de todos os tipos (inclusive euzinha). Tem encontros quinzenais em Copacabana, Tijuca, Niterói, Jacarepaguá e na Baixada.  Também tem Ishtar em Belém, Sorocaba e Recife, e sei que São Paulo tem o Gama, BH tem o Bem Nascer e Curitiba tem o Espaço Aobä. E não devem ser os únicos. Procure por esses grupos, vá a um encontro (são gratuitos) e saiba que você não está sozinha.

4. Prepare sua cabeça (e o corpo também)

É preciso muito preparo psicológico para se manter firme num desejo que, lastimavelmente, é tão difícil de se realizar na atual conjuntura. É preciso coragem para dizer tchau para seu médico de anos na 37a semana e procurar um novo profissional; força (e paciência) para não ceder aos protestos da família e dos amigos que não entendem porque você não marca a cesárea como todo mundo; convicção para usar suas economias para bancar uma equipe realmente alinhada com seu plano de parir; fé para se permitir parir como manda a natureza. Minhas dicas: leia livros e relatos de parto positivos (fuja de programas de TV de maneira geral) e faça terapia. Além da força psicológica e emocional, também é legal preparar o corpo para as posições e as sensações do parto (yoga para gestantes e massagem perineal são duas opções que vêm à mente, mas isso é muito pessoa e varia de mulher para mulher). Mas não se iluda: a cabeça é muito mais importante que o corpo nesse processo de parir.

5. Seja sujeito

É muito cômodo (e perigoso) entrar no papel da “mãezinha” ou “gravidinha” (primas-irmãs da “princesinha”) e deixar que todas as decisões sejam tomadas por você: pelo médico, por sua mãe, pelo marido… Se você tem a intenção de parir, você precisa se recusar a ocupar esse lugar. Porque uma mulher que dá a luz é protagonista, e não um objeto ou um coadjuvante do processo. Ser sujeito significa, entre outras coisas, questionar, se examinar, refletir, sentir, escolher, rebolar (em ambos os sentidos), viajar para a partolândia e dar um belo de um FODA-SE pra todas aquelas pessoas que teimam em te julgar. Ser sujeito significa viver de acordo com a sua verdade e sentir na pele as suas escolhas, e não ser vítima das decisões de terceiros.

6. Contrate uma doula

Para quem não sabe o que é uma doula e quer se informar, sugiro ler esse post aqui. Para não me estender muito, vou ser econômica e dizer que a doula acompanha a gestante antes, durante e após o parto; sua função é servir de apoio e conforto. A doula não é profissional de saúde e nem faz parte da equipe médica: ela acompanha a mulher, oferecendo palavras de incentivo, um toque carinhoso e um porto seguro para a parturiente (e, muitas vezes, também para seu companheiro). Em suma, a doula é uma amiga que já viu muitas mulheres parindo. Por isso, é importante  conversar muito com ela antes do parto, sentir-se bem com ela e criar um laço de afeto e confiança. Você pode achar que doula é modismo ou frescura, mas a história e as evidências mostram o contrário: doulas existem há milênios e sua presença na sala de parto diminui o índice de cesárea, analgesia e depressão pós-parto e aumenta a satisfação materna e o índice de amamentação (entre outros benefícios). Se você é carioca, visite a página do Núcleo Carioca de Doulas no Facebook para se conectar com profissionais da área. Para citar a obstetriz Ana Cristina Duarte, “A doula faz tudo para que você faça o seu parto”.

7. Não saia correndo para o hospital

Pensei se deveria mesmo incluir esta última dica – obviamente, não quero ser culpada depois por uma leitora que teve seu filho no táxi! -, mas como não tem como negar que um dos fatores de cesárea é a impaciência dos médicos (a famosa desculpa “não teve dilatação”) optei por colocá-la. A não ser que esteja com uma equipe de parto humanizado, a melhor maneira de se proteger da cesárea intraparto é chegar ao hospital em trabalho de parto ativo, com mais de 7 cm de dilatação e, de preferência, dilatação total. Eu sei que é difícil se imaginar fazendo isso – “correndo esse risco” – mas é mais comum chegar cedo demais e sofrer um parto cheio de intervenções desagradáveis ou até mesmo uma cesárea do que acabar parindo a caminho da maternidade (apesar desses casos saírem mais na mídia!). Se você não tem plena confiança na equipe médica e sente que o médico pode acabar fazendo uma cesárea de última hora, essa é a dica que eu deixo para você (de preferência, siga também a dica número 6).

Por hoje é só. Boa sorte e boa hora para você! E depois passe aqui e conte sua experiência.

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Os sacrifícios que fazemos em nome dos (futuros) filhos

Depois de uma série exaustiva de posts “políticos”, prepare-se para um bastante pessoal. Como não apareço aqui no blog há um bom tempo, considerei escrever algo sobre parto (que eu amo e que dá ibope), sobre doulas (já que as cariocas acabam de criar um núcleo muito legal e informativo) ou sobre cólica do recém-nascido (assunto super pertinente sobre o qual andei lendo recentemente), mas a verdade é que ainda estou digerindo uma decisão totalmente inesperada que fui forçada a tomar, e não consigo pensar em outra coisa.

Foi uma decisão profissional – racional -, mas, ao mesmo tempo, foi profundamente pessoal e emotiva. Decidi sair do emprego que adoro e aceitar a proposta de um concorrente. E um dos fatores decisivos foi um elemento que nem existe ainda na minha vida: meu(s) filho(s). Troquei o emprego que amava, num lugar bacana, deixando para trás amigos e outro tipo de “filhos” (os livros que edito) por um perfil de emprego novo em outra editora. Esse novo cargo promete ser interessante e desafiador, e não representa nenhuma perda salarial. Também não posso reclamar da empresa: todos dizem que ela é nota mil. Então, que história é essa de sacrifício? você deve estar pensando.

É sacrifício porque amo o lugar onde trabalho. É sacrifício porque deixei na mão um chefe que admiro muito, num momento delicado, e ainda não me perdoei por isso. É sacrifício porque não estava pronta para sair, para por um ponto final nessa história, que significou tanto para mim.  É sacrifício porque a mudança para qual estava me preparando era de começar uma história nova como mãe – e não como editora!

É claro que foi muito bom ser convidada para um cargo de responsabilidade numa empresa respeitada e bem-sucedida, ver meu valor como profissional reconhecido dentro e fora do meu emprego atual. E estou animada com o novo trabalho. Na entrevista, senti uma forte empatia com a pessoa com quem estarei trabalhando, e meus futuros chefes são pessoas que me inspiram e que certamente têm muito a me ensinar. Ou seja, tenho grandes expectativas de que se comprove uma escolha sábia – tanto profissional, quanto pessoalmente. Mas não vou mentir: doeu.

Foi a primeira vez na vida que escolhi sair de algo bom, promissor e feliz para começar algo novo, correndo o risco de não gostar, de quebrar a cara, de ser menos feliz. Mas fiz tudo isso pensando na mãe que quero ser: uma mãe presente, que não leva (tanto) trabalho para casa, que tem o fim de semana inteiro para se dedicar ao filho exclusivamente, que não precisa dividir o filho em carne e osso com os “filhos” de papel. Pelo menos não até completarem 2 ou 3 anos.

E olha que nem sou mãe ainda! [E agora essa mudança signfica adiar um pouco mais esse plano, infelizmente…] Imagino que muitos outros sacrifícios me aguardam nessa aventura chamada maternidade.

E vocês, quais sacrifícios  escolheram fazer em nome de seus filhos?

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SBP, Nestlé e como essa aliança afeta você (parte 3)

Agora que você já sabe que o “diagnóstico” de pouco leite é balela (na grande maioria dos casos) e que o leite artificial não deve ser a primeira opção caso você precise ou queira complementar, quero falar sobre duas crendices populares que  podem não ter surgido diretamente das empresas de leite, mas que contribuem para diminuir os índices de aleitamento materno. Resolvi incluí-los por que acho que precisamos nos conscientizar de sua existência para, só assim, combatê-los.

Mentira #3: Amamentar faz o peito cair

Um dos mitos mais enraizados sobre a amamentação costuma aparecer em comentários inocentes, tipo: “depois de amamentar 3  filhos, meu peito nunca mais foi o mesmo” ou “fulana amamentou e depois teve que colocar silicone”. A amamentação não faz o peito cair. O que faz o peito cair é a gravidade e, acredite, a gravidez. O crescimento das mamas, as mudanças hormonais e a predisposição genética (além do Tempo, claro!) são os culpados pela mudança na aparência dos seios. Até os cirurgiões plásticos já reconheceram isso!

Mentira #4: Quem pode se dar o luxo de escolher escolhe a mamadeira (versão politicamente correta de “amamentar é coisa de pobre”)

Releitura nefasta do clássico de Rafael, impresso ca. 1934

A indústria que produz leite artificial existe há mais de um século e está mais forte do que nunca. A urbanização gerou melhores sistemas de esgoto e água, as condições de higiene melhoraram,  e os antibióticos e tratamentos para controlar doenças estão cada dia mais eficazes, contribuindo para uma crescente segurança para usuários do LA. Ou seja, a fórmula pode piorar a saúde de uma criança, mas dificilmente irá matá-la. Com isso, a verdade é que amamentar tornou-se “opcional”.  Mas quem disse que é a opção menos atraente?

Vou dar o meu pitaco. Nesse mundo cada vez mais “tecnocêntrico”, onde produção, consumo e o acúmulo de bens são supremos, amamentar se tornou sinônimo de “antiquado” ou “primitivo”; chique e moderno é dar mamadeira. Isso é cultural e vai além da recente e crescente “masculinização” dos nossos valores. As raízes da crença irracional de que não amamentar é sinônimo de status estão nas práticas da antiga aristocracia, que delegava a alimentação de seus bebês para as amas de leite. O motivo dessa terceirização é complexo: por um lado, existiam crenças de que o sêmen contaminava o leite (ou seja, era proibido ter relações sexuais) e, as mulheres em condição de “servas do marido”, não podiam deixar os maridos “na mão” (literalmente!). Por outro lado, havia uma necessidade de gerar muitos herdeiros, e a amamentação exclusiva e prolongada reduzia a fecundidade. E assim, como é de praxe em toda cultura, o que antigamente era uma prática da elite virou “moda” e “desejo” das classes mais baixas.

Felizmente, a onda agora é outra: celebridades globais, modelos, atrizes, cantoras e princesas amamentam e se encarregam de levantar a bandeira da amamentação. Quem disse que amamentar é coisa de pobre, ou de hippie, ou de quem não tem escolha?

Bom, agora que já ficou nítido que o maior empecilho para a amamentação é a falta de informação confiável – em parte, por causa da força da indústria de LA, dos pediatras coniventes e dos mitos e crendices da sociedade como um todo – o que você pode fazer, efetivamente, para aumentar as chances de não cair na armadilha da “necessidade de complementação”  e se tornar cliente dessas empresas?

10 dicas para aumentar as chances de amamentar exclusivamente até os primeiros 6 meses

1. No final da gravidez, faça uma aula de amamentação, conheça o básico do processo, assista a vídeos instrutivos e comece a se preparar física e emocionalmente para amamentar um recém-nascido.

2. Encontre um pediatra favorável ao aleitamento materno exclusivo. Converse com ele ou ela antes de o seu filho nascer, para ver qual é  sua filosofia. Preste atenção em qualquer folheto ou brinde (caderno, lápis etc) com o logo de alguma empresa. Isso não é um bom sinal.

3. Não autorize o uso de complemento na maternidade. O leite demora mesmo a descer – 3 dias, aproximadamente – e a natureza é sábia. Ofereça o colostro e coloque o neném para mamar sempre que ele desejar (ou de acordo com a orientação da enfermeira ou da consultora). Sugiro também não marcar o seu parto. O ideal é parir naturalmente, mas, se não for essa sua preferência ou se não for possível, evite agendar a cesárea e entre em trabalho de parto. Isso aumenta as chances de o bebê estar em condições de sugar.

4. Proteja-se dos palpiteiros (mãe, sogra, tias, amigas) com informações embasadas e apoio de pessoas que acreditam na sua causa- de preferência “especialistas” (médicos, cientistas, OMS, consultor de amamentação). [Prometo escrever um manual sobre como se proteger dos palpiteiros de plantão em breve]

5. Se você faz o tipo consumista (como eu!), vá às compras e procure sutiãs, chás, blusas e produtos próprios para a amamentação. Não compre mamadeiras nem, obviamente, leite artificial.

6. Se o seu recém-nascido não estiver ganhando peso, entre em contato com um banco de leite da sua cidade e faça a complementação com sonda, para continuar a estimular a sua produção.

7. Saiba que é normal ter dificuldades no início. Tem mulher que acha tudo moleza; a maioria não. Se você pertence a essa segunda classe, não se desespere: com o apoio certo, uma boa dose de paciência e talvez um empurrãozinho da medicina, vai acabar engrenando. E quando isso acontecer, você terá muito orgulho de si.

8. Se você for voltar ao trabalho antes de o neném completar os 6 meses, invista numa bomba para tirar o leite e programe-se para tirar o leite no mês (ou meses) anteriores à sua volta. E não pare de amamentar: você pode continuar a oferecer o peito de manhã, na hora do almoço (se possível), quando voltar do trabalho e à noitinha.

9. Fique o máximo de tempo possível com o seu bebê no colo ou no sling. Isso aumenta o vínculo, a ocitocina e a produção de leite.

10. Trabalhe os seus demônios ; aprenda a perder a neura de amamentar em público, permita-se sentir prazer na hora das mamadas e reflita sobre quaisquer emoções que podem estar te travando ou incomodando.

Para resumir: Amamentar é um processo fisiológico e instintivo, mas vivemos numa sociedade em que muitas forças atuam para impossibilitar o que é natural e saudável. Se queremos mesmo praticar a amamentação exclusiva, é preciso abrir os olhos para as armadilhas e nos proteger do marketing desleal, do corporativismo, dos mitos e das “boas intenções” de quem não entende do assunto. Espero que essa série de posts tenha contribuído, de alguma forma, para esse despertar.

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SBP, Nestlé e como essa aliança afeta você (parte 2)

No último post, falei sobre a ligação entre pediatras e as empresas que fabricam leite artificial, cujas tentativas de vender seu produto como um bom substituto do leite materno foram surpreendentemente bem sucedidas, considerando várias provas do contrário, como risco maior de infecção, hospitalização, problemas respiratórios e gastrointestinais, otite e diabetes do tipo 1, entre outros. O marketing e as pesquisas constantes para aproximar o leite artificial do leite materno – meta que está muito longe de se realizar – acabaram por conquistar até mesmo a fonte de maior confiança de jovens mães e pais: o pediatra. Uma maneira em que os pediatras introduzem o leite artificial na dieta dos bebês – começando até mesmo no berçario – é legitimando mitos (ou indicando estratégias que fazem esses mitos se tornarem realidade). É deles que vamos falar nesta segunda parte.

Mentira #2: Pouco leite é uma condição real e comum na população

O “diagnóstico” de pouco leite leva muitas mulheres a substituírem o peito pela mamadeira. A constatação de que uma mulher “não produz leite suficiente”, além de falsa (na maioria dos casos), é muito cruel. A culpa vai toda para ela, com se seu corpo fosse “defeituoso”, quando, na verdade, costuma ser uma consequência de recomendações que prejudicam a amamentação. Existem casos raros de mulheres que de fato produzem pouco leite (hipoplasia mamária e alguns casos de cirurgia prévia de redução mamária são dois exemplos), mas a grande maioria das mulheres pode amamentar – mesmo que precisem complementar. O que elas precisam é de orientação adequada e apoio. Infelizmente, me parece que muitos pediatras – seja por falta de conhecimento, tempo ou por não acreditarem nos processos naturais – deixam a mulher na mão nessas horas.

Um dos motivos é simples: eles não são treinados para ensinar a amamentação às mães e nem têm tempo para esse tipo de orientação. Na faculdade e na residência o foco é em doenças e tratamentos, e não nos processos fisiológicos, naturais. Outro fator complicador é a busca pela eficiência; pediatras têm consultórios lotados, às vezes cirurgias e atendimentos hospitalares também, e não sobra tempo para sentar com cada mãe e dar dicas sobre amamentação. Por isso, acabam oferecendo uma receita de bolo, onde assumem que cada mulher é igual. Recomendam por exemplo, amamentar em horários fixos, o que não dá certo para muitas mães, que teriam mais sucesso se oferecessem o peito sempre que o bebê mostrasse sinais de fome (“livre demanda”), assim adequando a produção de leite às necessidades do bebê. Cada par mãe-bebê é único, com necessidades únicas, e o pediatra não consegue dar conta disso. E quando a mulher esbarra em problemas, como dor, bico rachado, mastite, a primeira recomendação de muitos pediatras é entrar com o complemento porque é a solução mais rápida.

Vendedoras disfarçadas de enfermeiras num hospital da África do Sul (ca. 1950)

A segunda razão é menos “inocente”. É onde entram os produtores de leite artificial. Trata-se da influência direta dessas empresas para boicotar a amamentação. Hoje em dia, por causa dos esforços de órgãos importantes de saúde pública, há leis que protegem a sociedade desse tipo de marketing, e muito do que foi feito antigamente é proibido. Mas, só para você ter uma ideia, até o fim dos anos 80 era comum distribuir latas gratuitas de leite às mães de recém-nascidos (iniciando o efeito “bola de neve”, que descreverei a seguir) e, nas décadas de 50 a 70, a Nestlé colocava representantes vestidas de enfermeira para fazer demonstrações dos produtos dentro dos hospitais. Inacreditável? Veja as fotos!

Hoje, para não desafiar as leis, essa influência é mais sutil: os pediatras fazem “cursos de treinamento” ou recebem “dados científicos” diretamente de empresas como Nestlé, Abbott, Mead Johnson etc. Um exemplo engenhoso é a tabela usada para avaliar como os bebês crescem no primeiro ano de vida. Baseada em pesquisas patrocinadas por fabricantes de LA,  essa tabela, usada por muitos pediatras, traz dados do crescimento de bebês americanos (caucasianos) alimentados por fórmulas a base de leite de vaca (que é mais gordo que o leite humano). Ou seja, de acordo com a tabela, bebês alimentados no seio aparentam estar abaixo do peso, quando, na verdade, a base da pesquisa é que é tendenciosa a favor do aleitamento artificial. Com uma “norma” tão anormal, não é de se espantar que tanta gente “precise” entrar com o complemento.

Uma ação rotineira e prejudicial do pediatra é prescrever LA ao recém-nascido já no berçário. Infelizmente, isso se tornou comum hoje em dia, especialmente (mas não exclusivamente) no caso de bebês que foram nascidos antes da hora (pré-termo), e pode prejudicar a amamentação. Primeiro porque o bebê corre o risco de não ter muita força para mamar. Segundo porque os hormônios da mãe ainda não estão agindo com força total e o leite pode demorar mais para descer. E terceiro porque o peso que aquele bebê naturalmente perderia nos primeiros dias não existe (ele nasceu antes de engordar essas 100-300g adicionais) e, para não perder peso demais, o pediatra recomenda o complemento. Assim começa o efeito bola de neve.

O efeito bola de neve funciona assim: tomando o complemento, o bebê mama menos; mamando menos, a produção da mãe cai, levando-a a aumentar a quantidade de complemento, e por aí vai, até ela desistir de vez e terminar oferecendo o LA em tempo integral, frustrada e culpada por “não ter conseguido” fazer o melhor para seu filho. Para piorar a situação, ela sai por aí falando que “teve pouco leite”, propagando esse mito quando, na verdade, o problema pode ter sido a indicação inicial de iniciar o complementação com LA. Claro que há bebês que de fato crescem pouco ou perdem muito peso e precisam de uma ajudinha – mas dificilmente esse fenômeno seria tão comum como é atualmente se as mulheres recebessem uma boa orientação. No entanto, esse quadro de “pouco leite” que acaba em “meu leite secou” é o sonho da Nestlé. O que essas empresas querem é que a amamentação não dê certo, que você não consiga. E são elas que estão patrocinando cursos, viagens e livros para o seu pediatra. Dá pra aceitar uma coisa dessas?!

Mas não se desespere. É possível se precaver desse, e de outros, mitos. Abordarei mais alguns mitos na terceira parte e, por fim, apresentarei uma lista de dicas para quem quer atingir a meta de amamentar naturalmente, sem “precisar” dar dinheiro para a Nestlé (ou qualquer outra empresa) na compra de LA.

 

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