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Os sacrifícios que fazemos em nome dos (futuros) filhos

Depois de uma série exaustiva de posts “políticos”, prepare-se para um bastante pessoal. Como não apareço aqui no blog há um bom tempo, considerei escrever algo sobre parto (que eu amo e que dá ibope), sobre doulas (já que as cariocas acabam de criar um núcleo muito legal e informativo) ou sobre cólica do recém-nascido (assunto super pertinente sobre o qual andei lendo recentemente), mas a verdade é que ainda estou digerindo uma decisão totalmente inesperada que fui forçada a tomar, e não consigo pensar em outra coisa.

Foi uma decisão profissional – racional -, mas, ao mesmo tempo, foi profundamente pessoal e emotiva. Decidi sair do emprego que adoro e aceitar a proposta de um concorrente. E um dos fatores decisivos foi um elemento que nem existe ainda na minha vida: meu(s) filho(s). Troquei o emprego que amava, num lugar bacana, deixando para trás amigos e outro tipo de “filhos” (os livros que edito) por um perfil de emprego novo em outra editora. Esse novo cargo promete ser interessante e desafiador, e não representa nenhuma perda salarial. Também não posso reclamar da empresa: todos dizem que ela é nota mil. Então, que história é essa de sacrifício? você deve estar pensando.

É sacrifício porque amo o lugar onde trabalho. É sacrifício porque deixei na mão um chefe que admiro muito, num momento delicado, e ainda não me perdoei por isso. É sacrifício porque não estava pronta para sair, para por um ponto final nessa história, que significou tanto para mim.  É sacrifício porque a mudança para qual estava me preparando era de começar uma história nova como mãe – e não como editora!

É claro que foi muito bom ser convidada para um cargo de responsabilidade numa empresa respeitada e bem-sucedida, ver meu valor como profissional reconhecido dentro e fora do meu emprego atual. E estou animada com o novo trabalho. Na entrevista, senti uma forte empatia com a pessoa com quem estarei trabalhando, e meus futuros chefes são pessoas que me inspiram e que certamente têm muito a me ensinar. Ou seja, tenho grandes expectativas de que se comprove uma escolha sábia – tanto profissional, quanto pessoalmente. Mas não vou mentir: doeu.

Foi a primeira vez na vida que escolhi sair de algo bom, promissor e feliz para começar algo novo, correndo o risco de não gostar, de quebrar a cara, de ser menos feliz. Mas fiz tudo isso pensando na mãe que quero ser: uma mãe presente, que não leva (tanto) trabalho para casa, que tem o fim de semana inteiro para se dedicar ao filho exclusivamente, que não precisa dividir o filho em carne e osso com os “filhos” de papel. Pelo menos não até completarem 2 ou 3 anos.

E olha que nem sou mãe ainda! [E agora essa mudança signfica adiar um pouco mais esse plano, infelizmente…] Imagino que muitos outros sacrifícios me aguardam nessa aventura chamada maternidade.

E vocês, quais sacrifícios  escolheram fazer em nome de seus filhos?

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Como escolher um carrinho?

Como disse em outro post, tenho verdadeira obsessão por carrinhos de bebê. Cheguei até a parar estranhos na rua para saber se estavam gostando do modelo escolhido (uma marca que nunca tinha visto por essas bandas). Não sei se essa paixão está relacionada a minha temporada na Dinamarca (onde o carrinho é crucial!), mas acho que de todas as decisões referentes ao enxoval do bebê – com a possível exceção dos móveis e decoração do quarto – a escolha do carrinho é a mais importante. Afinal, o carrinho será uma peça chave na sua vida a partir da chegada do bebê (a não ser que você pretenda usar o sling exclusivamente, o que eu acho o máximo, mas que não é o desejo da maioria).

O Quinny Zapp Xtra é compacto, versátil e descolado, mas a suspensão e cesta diminuta podem não agradar a todos.

Não existe carrinho perfeito – muito menos “o melhor” carrinho do mundo – pois cada família tem suas necessidades, preferências e especificidades. Infelizmente, no Brasil, as opções são restritas e a relação custo-benefício baixíssima. Recomendo para quem tem o luxo de poder comprar um carrinho no exterior que o faça, pois os carrinhos lá fora são melhores, mais baratos e as opções quase infinitas. Qualquer que seja sua condição financeira e oportunidades de viagem, vale a pena pensar muito bem sobre qual carrinho comprar, porque além de ser um dos principais “acessórios” na primeira fase da maternidade, ele ficará com você por no mínimo 2 anos (podendo inclusive ser aproveitado por outros filhos no futuro).

Ao invés de recomendar as marcas X, Y ou Z (mas no final incluirei alguns nomes para vocês pesquisarem), vou colocar aqui uma série de perguntas para ajudar você a decidir qual perfil de carrinho seria o mais adequado para você. Sugiro que você leve em conta quatro fatores fundamentais e um último que não é essencial, mas que pode ser levado em consideração. São eles: função, conforto, medidas, orçamento e visual.

Função: o carrinho é para quem e para quê?

Essa resposta pode parecer óbvia: “Pra transportar meu bebê, oras!” Mas não é tão simples. Porque um carrinho para transportar um bebê recém-nascido é diferente de um carrinho  melhor para levar um bebê de 18 meses, ou de gêmeos, por exemplo. Também é preciso levar em consideração questões importantes relacionadas ao estilo de vida da família – como os programas que fazem nos finais de semana, a condição das ruas das redondezas, a duração dos passeios etc. Procure responder as perguntas abaixo:

O UppaBaby Vista foi projetado originalmente para um bebê só (single stroller), mas, com os acessórios, cabem até 3 crianças!

1. Para quem é o carrinho – para um recém-nascido, um bebê maior, gêmeos, dois bebês próximos em idade (ex. um recém-nascido e um bebê de 1 ano) etc.? Um recém-nascido precisa de um carrinho que tenha um assento reclinável em no mínimo 145 graus (quase deitado reto) e deverá ter a opção de encaixar o bebê conforto (cadeirinha do carro). Também considero bem importante a opção de ter o bebê virado para quem empurra (assento reversível). Um bebê mais velho também poderá tirar eventuais sonecas no carrinho, mas o assento reclinável passa a ser opcional e muitos pais de crianças mais velhas optam por um carrinho mais leve (mais fácil de transportar) já que o filho não passará tanto tempo dentro dele. O de gêmeos precisa caber dois, obviamente. E, para quem têm dois filhos em idades differentes, existem opções de carrinho que podem ser transformados em verdadeiros veículos de transportar pimpolhos (até três de uma vez!). Existem até carrinhos próprios para pais atletas – os famosos “jogging strollers” com três rodas enormes!

2. Ele será usado mais em pisos lisos (como shoppings, calçadas bem asfaltadas, interiores) ou mais na rua esburacada e falha da cidade? Para pisos lisos, a suspensão não precisa ser nenhuma Brastemp, mas para usar nas ruas esburacadas e desniveladas (como as do Rio, por exemplo), uma suspensão boa é um “must”.

3. Quanto tempo, mais ou menos, o bebê ficará fora de casa com o carrinho? Quanto mais tempo, mais importante é investir num carrinho confortável, com assentos acolchoados e, igualmente importante, com uma cesta decente que caiba tudo que ele precisará nos passeios mais longos (fraldas, brinquedos, troca de roupa, comida, água etc).

4. Onde o carrinho será usado, primordialmente? Se você pretende usar o carrinho muito em shoppings e lugares com corredores estreitos, vale e pena prestar atenção na largura. Alguns podem ser verdadeiros trambolhos, que dificultam muito a vida de quem transita em lugares estreitos. Se ele vai viver entrando e saindo do carro, também convém levar em consideração o peso e a facilidade em fechar e abrir.

Conforto: esse carrinho é confortável para meu filho? E para mim?

Um carrinho pode ser confortável para o bebê, mas desconfortável para quem empurra; um exemplo seria um carrinho com suspensão decente e assento acolchoado, mas que é duro de manobrar e precisa ser empurrado com duas mãos (como o Peg Perego Pliko P3 – o mais comum na Zona Sul do Rio, por razões que me espantam, pois acho um carrinho que deixa muito a desejar em termos de manuseio e visual). Por outro lado, pode ser o contrário: tranquilo de empurrar e leve, proporcionando conforto para você, mas sem nenhuma suspensão ou acolchoamento no assento, resultando num passeio incômodo para o pequeno passageiro (como no caso de muitos carrinhos “guarda-chuva” por aí). Outra coisa importante para se levar em consideração é a proteção contra o sol: é grande o suficiente para proteger do sol, tem a opção de descer mais, é arejado? Eu também incluiria no quesito “conforto” a possível frustração diária que você pode ter se optar por um carrinho de má qualidade, cujo mecanismo trava, que seja duro de abrir e fechar e que não caiba direito nos seus espaços. O que me leva ao terceiro ponto…

Medidas: esse carrinho cabe na minha vida?

Qual o tamanho da sua casa? Do porta malas do carro? Do elevador? Dos corredores dos lugares que frequenta? Das calçadas do seu bairro? Não deixe de pensar nessas questões antes de comprar um carrinho gigante, com a melhor suspensão do mundo e lugar para por seu iPod, e depois perceber que o bicho não entra no seu elevador.  Mas lembre-se: carrinhos menores costumam ser menos confortáveis (em termos de suspensão e posições para o bebê). Às vezes, um carrinho que parece grande fecha num tamanho razoável. Quando estiver pesquisando as opções, procure anotar as medidas (“dimensions”) tanto do carrinho aberto quanto fechado.

Orçamento: quanto estou disposta a gastar?

Uma das razões pela qual vale a pena viajar para o exterior na gravidez é que, além de fazer uma viagem gostosa com o maridão (a última sozinhos em um bom tempo!), você poderá comprar itens do enxoval com um custo-benefício muito melhor. Um carrinho de luxo lá fora custa mil dólares – ou R$1.800, o preço de um Peg Perego aqui. E você pode comprar um carrinho maravilhoso, perfeito para você, do seu gosto e ideal para o seu estilo de vida, por muito menos que isso. Como em tudo na vida, as opções mais caras costumam ser também as de melhor qualidade, com suspensão e manuseio superior, além de virem com itens de luxo, como capa de chuva, mosquiteiro, e um visual bem mais interessante, além de terem acessórios como adaptador para a cadeirinha do carro, porta-bebida, guarda-sol, entre outros. No entanto, é importante levar em consideração que nem sempre o mais caro é o melhor: muitas vezes, você estará pagando pela marca e pelo visual.

Visual: que tipo de carrinho quero desfilar pelas ruas da minha cidade?

A já chiquérrima Bugaboo se uniu à marca Missoni para uma edição especial de seu modelo compacto, o Bee.

Como qualquer acessório, o carrinho também acaba refletindo o nosso gosto pessoal e não deixa de ser uma espécie de “statement” sobre nossos valores. Você pode até achar fútil, mas não tem como negar: roupa, sapato, bolsa, joias, corte de cabelo etc. são signos de quem somos, a nossa tribo, nossos valores. Claro que é perigoso estereotipar. Só porque uma mulher anda com salto agulha e bolsa da Louis Vuitton, não significa que ela tenha o QI de uma lesma – ela pode ser uma pesquisadora reconhecida mundialmente! Da mesma forma, uma mulher que veste havaianas e shorts rasgado e sai de casa de cara lavada pode ser uma empresária famosa, dona de uma fortuna considerável. Mas, exceções à parte, nossos acessórios costumam comunicar algo para os outros. O carrrinho também não deixa de ter essa função. Há carrinhos modernos e chiques, descolados e differentes, com design escandinavo ou europeu, com aparência esportista ou mais tradicionais. Eu só acho importante embrar que o visual, necessariamente, vem em último lugar: antes de tudo, o carrinho é um acessório funcional. Portanto, não faça questão de comprar o carrinho das estrelas (para sua informação, é o Bugaboo Chameleon ou o Stokke Xplory) só para perceber que ele te dá a maior dor de cabeça no dia a dia!

Agora que compliquei um pouco a sua vida, lançando essas milhares de perguntas, vou descomplicar. Abaixo está uma lista de itens para você fazer uma tabela comparativa dos carrinhos que te interessam e que pode facilitar a sua decisão. Mais abaixo, dou dicas de recursos para ajudar na sua pesquisa e de marcas que eu acho legais, se você tiver o privilégio de poder comprar um carrinho no exterior.

Medidas (aberto e fechado)/ Peso / Preço / Assento reclina? / Assento reversível? / Nível de conforto/ Suspensão (repare nas rodas) /Bom de manobrar? /  Tipo de cobertura contra o sol/ Tamanho da cesta / Acessórios (adaptador para cadeirinha, capa de chuva, porta-bebida) /Visual

Dicas:

  • Entre em sites de grande tráfego, como a Amazon, para ler as resenhas dos carrinhos ou ver sua pontuação.
  • Assista a vídeos do carrinho em ação no YouTube ou em sites especializados, como a BabyGizmo.
  • Procure nas ruas da sua cidade os modelos que te agradam e, se tiver coragem, puxe papo com a dona e pergunta sobre os pontos fortes e fracos do modelo escolhido.

Marcas legais que talvez você não conheça: Baby Jogger, Bugaboo, Bumbleride, Phil & Teds, Quinny, UppaBaby & Valco.

Qualquer dúvida, entre em contato comigo. Como disse, ADORO falar sobre carrinhos de bebê e terei o maior prazer em te orientar, caso você ache necessário!

[Você poderá gostar também do post Como escolher uma cadeirinha para o carro/ bebê conforto?]

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Maternidade: a última fronteira da globalização?

Algumas observações sobre a criação de filhos em diferentes culturas

Não foi por acaso que escolhi estudar antropologia cultural na faculdade. Antes de completar 18 anos, estudei em 3 continentes e, quatro anos mais tarde, havia morado em 5 países diferentes (onde morar = habitar por um período maior que 90 dias). Pode-se dizer que passei a vida toda observando, comparando e pensando sobre as diferenças – e as semelhanças – entre práticas culturais de vários países. Em três desses países também tive bastante contato com crianças: no Brasil, obviamente, em várias fases da vida; nos EUA, na minha adolescência, como babysitter nas horas vagas; e, aos 22 anos, na Dinamarca, onde passei 6 meses ganhando a vida como au pair, cuidando de um bebê de 1 ano.

É claro que na Dinamarca, nos Estados Unidos e no Brasil há diferentes tipos de pai e mãe, tomando decisões diversas e se identificando com várias “tribos”. Mas pode-se dizer que determinados comportamentos ou atitudes são quase universais sob o ponto de vista cultural e, nessas coisas, a população diverge pouco. Queria falar sobre algumas particularidades culturais que talvez causem “estranhamento” em alguém que não pertence ao país, mas que são importantíssimos para definir a “identidade cultural” dos cidadãos desses países. Quem sabe você não queira adotar algum hábito “estrangeiro” ou simplesmente venha a enxergar a sua própria cultura com novos olhos?

E.U.A: a pressão pelo destaque e pela excelência

Bebês americanos: (hiper)estimulados desde cedo

Foi difícil escolher um único elemento da cultura americana para descrever. No início, pensei em falar sobre a prática universal de ler um livro infantil antes de dormir. É um hábito totalmente enraizado, praticado por pessoas de todas as classes sociais e “tribos” da maternidade desde a tenra infância, e algo que eu mesma pretendo adotar. No entanto, parei para pensar e vi que, na verdade, esse hábito faz parte de um quadro maior: a necessidade de desenvolver habilidades e talentos e se destacar na sociedade desde cedo. As crianças americanas de maneira geral sofrem uma pressão absurda. Seus pais não esperam que sejam meramente saudáveis ou “boazinhas”; elas precisam ser mais inteligentes, mais talentosas, mais especiais que as demais… De maneira geral, eles torcem para que os filhos sejam precoces em tudo e, para isso, estão dispostos a investir tempo e dinheiro. Desde os DVDs (picaretas) que prometem fazer seu bebê mais inteligente aos CDs de Mozart para bebês ainda em desenvolvimento no útero materno e à suplementação de Omega 3 e DHA na gravidez, há uma verdadeira obsessão por desenvolver o cérebro do filho e garantir-lhe uma vaga em Harvard ou Yale. Crianças pequenas, de três anos, fazem milhares de atividades para garantir um currículo completo e uma gama de talentos que precisam ser “aprimorados” o quanto antes: aulas de piano, de futebol (para meninas), de beisebol (para meninos), DVDs de uma segunda língua (agora a moda é mandarim), brinquedos “educativos”, “flash cards” para melhorar a memória dos pequenos e “play dates” (encontros marcados para brincar). Toda essa agenda é obsessivamente pensada para que a criança desenvolva habilidades importantes para que, futuramente, ela venha a ser um grande líder na área que escolher. Quando não é a excelência acadêmica o esperado, é o destaque em qualquer outra área (esporte, música, teatro). O fato é que muitas crianças americanas são encaradas como um projeto pessoal dos pais e, portanto, sofrem uma pressão enorme por serem bem-sucedidas ou “únicas” de alguma maneira. Não é à toa que lá tem tanta criança prodígio e tantos pais optando por educar os filhos em casa, seguindo um currículo feito totalmente sob-medida – para o bem e para o mal.

Dinamarca: a reverência pela natureza

Faça chuva ou sol, a soneca do bebê dinamarquês é ao ar livre

Quando cheguei na casa do Sebastian, o bebê apaixonante de quem eu iria cuidar pelos próximos meses, nos arredores de Copenhague, era inverno. O termômetro registrava em torno de -5 graus. Mesmo assim, as instruções eram claras: todos os dias, às 11 da manhã, eu deveria embrulhar o pequeno num saco de dormir (feito de pena de ganso), colocá-lo no seu carrinho (aqueles à moda antiga) e levá-lo para um passeio até que ele adormecesse. Ele deveria ficar dormindo lá fora, com a babá eletrônica estrategicamente posicionada, até a hora de acordar. Imagino que vocês estejam reagindo da mesma forma que eu, dez anos atrás: Como assim colocar um bebê de 10 meses para dormir por 2 horas num frio absurdo? Ah, detalhe, se estivesse chovendo, era para cobrir o carrinho com a capa de chuva. Acontece que, na Dinamarca, a natureza é respeitada acima de tudo. E as crianças são expostas a ela desde o dia em que nascem. No inverno, elas dormem no frio, para receber o “ar fresco”. Na primavera, bebem água adoçada com a flor do sabugueiro do quintal. No verão, comem frutas vermelhas direto do pé e no outono saem para catar maçãs. Em todas as estações são estimuladas a ficarem próximo da natureza – na neve, na terra, na areia, no parque. Até mesmo as crianças de Copenhague, a capital. Vale a pena acrescentar mais duas curiosidades sobre os bebês na Dinamarca: eles mamam no peito costumeiramente até os 2 anos ou mais e a preferência nacional é por brinquedos de madeira ou pano. Quase não vi brinquedos de plástico por lá. De novo, a importância de respeitar e ficar próximo da natureza e de matérias primas naturais. Por fim, uma curiosidade: o Sebastian não tinha nenhuma peça de roupa na cor vermelha – lá vermelho é cor de menina.

Brasil: a importância de ser belo

Imagine a seguinte cena: seu filho está se comportando mal numa festa ou na casa da sua sogra. Qual a palavra que você usa para reprimi-lo? Feio. “Isso é muito feio, filho, para com isso!” Quando queremos incentivar, a palavra é bonito. Feio é a pior coisa do mundo. Quem não desejou com toda sua força que no filho nascesse bonito, que tivesse os olhos azuis do avô ou o cabelo “bom” (odeio esse termo!) do pai? Quanto não se gasta no Brasil com adornos totalmente inúteis cujo único propósito é embelezar e enfeitar a cria? Sapatinhos de croché, fitas, roupas engomadas, mantas que combinam com a roupa… Uma coisa é certa: já viajei bastante e somente no Brasil eu vi para vender faixas e fitas de cabelo para nenéns recém-nascidas. Também desconheço uma cultura em que seja tão comum (hegemônico, até) a prática de furar as orelhas de uma bebê com meses ou semanas de idade, uma atitude cuja única função é estética. Pois é. Infelizmente, nessa minha análise de práticas culturalmente peculiares (e que seriam consideradas estranhas ou desumanas para quem é de fora), a característica brasileira não poderia ser mais fútil. Aqui espera-se que os bebês (especialmente as meninas) sejam belos – verdadeiros bonequinhos, preciosos e emperequetados. O maior elogio para a mãe brasileira é ter seu filho equiparado a um bebê Johnson’s, a ponto de existir para vender shampoos que prometem clarear o cabelo do pequeno para que fique loiro. Com camomila, claro. Natural, óbvio. Mas comprar um produto cujo único propósito é tornar seu bebê mais belo é sinal de que, talvez, damos importância demais às aparências.

Enfim, nesse exercício, busquei descrever um elemento da cultura de criação de filhos que nos outros países causaria um estranhamento. A neurose por destaque e excelência dos EUA pode interpretada como cruel ou doentia nos outros países. Expor um bebê de 4 meses aos elementos da natureza seria considerado louco ou irresponsável no Brasil ou nos EUA. E, por fim, a nossa obsessão nacional pela estética, até dos bebês, não é vista como “natural” pelos estrangeiros.

Não estou dizendo que a criação de filhos no Brasil se resume a isso e, juro, queria ter trazido para cá uma avaliação mais positiva sobre as práticas brasileiras. Mas não consegui, sinceramente. Porque a diferença sobressalente que enxergo – pelos produtos, as propagandas e as conversas entre amigos – é a preocupação com a estética. Alguém pode me ajudar a ver algo mais positivo que seja característico da nossa cultura?

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Nem mais nem menos mãe

Outro dia entrei na página de Facebook de uma maternidade de São Paulo para comentar a questão dos altos índices de cesárea nos hospitais privados (nessa, o índice está em 93%). A maternidade estava se promovendo como uma das melhores no país e as ativistas do parto normal estavam incomodadas com esse paradoxo (para não dizer palhaçada). Afinal, a Organização Mundial de Saúde reconhece que mais de 15% de cesáreas não melhoram os índices de mortalidade infantil e só pioram os índices de mortalidade materna (um estudo no prestigioso The Lancet corrobora essa recomendação) – ou seja, uma taxa acima de 15% de cesáreas estaria colocando mais mulheres e mais bebês em risco. Acontece que o debate que começou com uma pergunta de utilidade pública – como a instituição poderia se empenhar para aumentar seus índices de parto normal (se é que isso é de interesse deles, o que é, infelizmente, pouco provável) – acabou caindo no pessoal.

Um dos primeiros comentários foi algo nessa linha: “mulheres que têm parto normal não são mais mães do que as que optam pela cesárea”. Não é a primeira vez que escuto esse mi-mi-mi discurso. Parece que não se pode levantar o assunto “como promover o parto normal” sem ofender alguém. E sempre (sem exceção) essa reação surge do nada, pegando todo mundo desprevenido.

Confesso que isso me tira do sério. Afinal, ninguém diz que se acha “mais mãe” que a irmã/amiga/prima/colega só porque ela pariu e a outra teve cesárea. Ninguém. Eu nunca ouvi nenhuma defensora do parto normal lançar mão de um argumento esdrúxulo como esse. Nós, as apaixonadas por parto, lutamos em prol das mulheres que querem parto normal (que representam 75% da nossa população, segundo esse estudo da Fiocruz), reivindicando mais transparências dos hospitais, mais ética dos médicos e mais acesso a informações baseadas em evidências para a população de maneira geral. A meta é melhorar as chances do parto normal para quem o deseja, e não diminuir quem pensa diferente.

Então, a pergunta que não quer calar é: por que essa reação aparentemente tão descabida?

Tenho duas possíveis explicações: uma do meu “diabinho” interior e outra do “anjinho”. O diabinho diria que essa reação tão forte e instantânea só poderia ser um efeito de ter tocado numa ferida psíquica muito grande. Ou seja, a própria mulher inconscientemente se sente “menas” frente à realização e ao poder daquela que pariu e, daí, surge a raiva e o impulso de se defender de seu inconsciente, afirmando o contrário do que ela realmente está sentindo. Nesse caso, a mera menção de uma mulher parindo é um gatilho que desencadeia seu complexo de inferioridade e revela toda a fragilidade de suas convicções.

O anjinho tem mais compaixão e pensa que, talvez, a dita cuja só esteja tendo uma reação natural à agressividade e à arrogância das ativistas e defensoras do parto normal que, talvez por terem a ciência (e a natureza) do seu lado, se acham donas da verdade. Ou seja, a pobre mulher se sente injustamente julgada, por um tom de voz ou um olhar de desdém da interlocutora, pelo simples fato de ter ousado escolher um outro caminho – que talvez não seja o “melhor” segundo as evidências, o Ministério da Saúde e a OMS, mas que ela julgou ser a “melhor” para ela. Nada mais do que seu direito.

É provável que nem o diabinho nem o anjinho estejam errados. Mas qual seria a solução?

“Cesariadas”: por favor, não levem para o pessoal a discussão sobre parto normal. Não estamos protestando suas escolhas pessoais e sim a falta de informação e opção real para as mulheres que querem passar pela experiência do parto. Isso é – ou deveria ser – um direito universal de todas as gestantes, mas que, nesse país e nessa cultura tecnocrática, regida por interesses econômicos e ideológicos, se tornou tão raro. Recomendo fortemente esse texto aqui, da incomparável Ana Cris Duarte.

Ativistas do parto: Cuidado com o tom de voz e os preconceitos na hora de abordar esse assunto, sobretudo na presença de mulheres que podem não compartilhar dos mesmos valores. Afinal, se você acredita no protagonismo da mulher, é preciso aceitar que esse protagonismo pode levar a uma escolha que você julga equivocada. Da mesma forma que você não gosta de ser chamada de “louca” ou “xiita”, a mulher que agendou seu “parto cesáreo” para uma data bonitinha não gosta de ver no seu olhar o rótulo de “pobre iludida” ou “desnaturada”. Encare como uma oportunidade para exercer os “músculos da compaixão” – ou, para usar o linguajar da tribo, a (sempre útil) “cara de alface”.

Talvez, com essas regrinhas básicas, seja possível atingir uma comunicação melhor e perceber que estamos todas buscando a mesma coisa: respeito.

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Enxoval: o que realmente importa

Confesso que adoro olhar roupinhas de neném, passo horas na internet pesquisando fraldas de pano (as modernas, assunto para outro post) e carrinhos de bebê (nisso sou expert mesmo!) e não resisto uma folheada em revistas de decoração de quartinho quando passo numa banca. Como sou uma bebemaníaca assumida (e como viajo bastante pro exterior – a trabalho e por lazer), sempre tem alguém me pedindo ajuda para montar o enxoval, trazer algo de fora ou prestar uma consultoria sobre marcas importadas de carrinho ou cadeirinha ou sling. Adoro!

Mas se você acha que esse texto vai ser sobre as maravilhas de ter o enxoval perfeito – tudo importado, tudo novinho em folha – para recepcionar o seu herdeiro, bom, sinto muito desapontá-la. Não é nada disso. Quem espera um manifest0 anticonsumo e “de volta às raízes” também errou. Acontece que eu sou super a favor de se deliciar comprando enxoval – seja em Miami, Nova York, Paris, Copenhague (eu quero!) ou aqui no Brasil mesmo. Nessa nossa sociedade tribal, em que nossas identidades dependem não da cor que pintamos nossos rostos ou das argolas nas nossas orelhas, mas dos objetos que escolhemos como acessórios para nossa vida, comprar é natural. Sim, isso mesmo. Comprar faz parte do ritual, do preparo para assumir uma nova identidade.

O que me incomoda é o consumo inconsciente e o inconsequente.

O que seria o consumo inconsciente? É aquele mal pensado, por modismo ou impulso, que não leva em consideração as necessidades do bebê e o perfil da mãe. Um exemplo: mamadeiras e/ou chuquinhas para quem está determinada a amamentar. Olha, não sou xiita nem intolerante, e entendo quem precisa (ou opta) pelo aleitamento artificial. De novo, not my boobs, not my business (não são meus peitos, não tem nada a ver comigo). Mas alguém que se diz  super empenhada em amamentar exclusivamente com leite materno e aí investe num kit completo de mamadeiras importadas (com bico tamanho RN) antes mesmo de parir… isso eu não entendo. É como sonhar e se programar para uma viagem à Disney mas comprar bilhetes e passagem aérea para o Beto Carreiro World. Com tudo lá na gaveta, você vai acabar embarcando! Se o impulso de meter a mão no bolso for grande – acredita, eu entendo, tenho o lado consumista aflorado! – então procure um sutiã de amamentação bacana (bonito, chique), invista num delicioso chá da mamãe, naquela pomada importada, ou numa almofada de amamentação. Guarde o dinheiro para contratar uma enfermeira ou psicóloga para te ajudar a superar as dificuldades, se for preciso. E deixe para comprar as mamadeiras só se/ quando for realmente necessário. Isso é só um exemplo. Prometo desenvolver mais o tema “enxoval” em posts futuros.

Mas muito pior que o inconsciente é o inconsequente. Esse é o consumo desenfreado e elétrico, compulsivo, como se precisasse comprar o mundo para estar pronta ou preparada para criar um filho. É o consumo que, de fato, consome, devorando todo o resto. É o consumo das mulheres que acham que estão ganhando uma bonequinha ou bonequinho, uma princesinha ou um herdeiro, e querem que este esteja pronto para servir como seu último acessório e status symbol. Exemplos? Não faltam! O carrinho, tem que ser da marca X. Sem levar em consideração a largura da porta da sua casa, o tamanho do elevador, a falta de praticidade de ter um trambolho se você vai viver colocando e tirando-o da mala do carro. As roupas, só de grife: Burberry ou Baby Dior, please! Ou, no mínimo, engomadinhas, plisadas e cheias de babados para exibir o tesouro. Sem contar na chupeta de prata com cristais. E os objetos de entretenimento do bebê? Todos, claro! Cadeira que vibra, outra que balança, andador, tapete de atividades, carros de plástico, brinquedos que fazem barulho e piscam (um não basta, precisam ter 5 ou 10). O que é isso, minha gente? O seu filho é um ser humano, não um brinquedo. E, a não ser que você seja muito privilegiada e tenha uma casa gigantesca que você quer transformar em creche, não é preciso (nem muito menos saudável) recriar uma loja de brinquedos para o pimpolho. Além de roupas, ele precisa de afeto. Além de acessórios, ele precisa de cuidados. Será que essa mulher que está tão ocupada comprando, comprando, comprando teve tempo de parar para pensar nisso?

É legal ir pra Miami e comprar aquelas tralhas todas (metade das quais, você sabe, serão usadas 2 ou 3 vezes)? Claro que é! Só que muito, mas muito, mais legal que isso é saber que você preparou a sua cabeça (leu, se informou, refletiu) e que tem à sua disposição uma rede de apoio (marido, mãe, sogra, irmã, amigas, assistentes, vizinhos) para te dar a confiança e a tranquilidade para receber na sua vida um novo ser humano. É isso que realmente importa.

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A boa mãe, ou, que p*rra é essa?

“O verdadeiro desafio da maternidade é você, não seu filho”Oliver James

Quando pergunto a uma amiga que tipo de mãe ela quer ser, invariavelmente escuto como resposta “uma boa mãe”. Oras, assim é fácil, né? Toda mulher que sonha e se prepara para ter um filho quer ser uma boa mãe! Mas o que será isso – seria uma espécie em extinção, uma figura celestial ou um mito inalcançável? Eu, pessoalmente, não acredito muito nesse ideal único de “boa mãe”. Sou adepta de Winnicott, o psicanalista inglês que disse que a boa mãe é a mãe boa o suficiente. Acredito na mãe possível, que faz escolhas conscientes, se informa para fazer o que é mais natural para ela e para o seu filho, sem ter medo de colocar nessa equação as suas próprias necessidades. É uma mulher que se prepara com informação e autoconfiança, e que toma decisões baseadas na própria felicidade e bem estar, ao mesmo tempo em que garante as necessidades dos filhos. Uma mãe sem culpa, que não padece em paraíso. Não sei se isso existe, mas acho uma meta saudável.

Um tempo atrás, recebi para avaliar na editora o livro de um psicólogo inglês chamado Oliver James, especialista em expor alguns “podres” da sociedade britânica e fazer seus compatriotras refletirem sobre assuntos difíceis e polêmicos. Um desses livros se tornou um pequeno clássico por aquelas bandas: They F**k you Up (“Eles f*odem com a sua vida”), título inspirado num poema genial de Philip Larkin, que analisa os efeitos nocivos de escolhas inadequadas na primeira infância (de 0 a 6 anos). Por que estou falando disso? Porque a continuação, How not to F**k them Up (Como não f*der com a vida deles), o livro que avaliei, apresenta alguns conceitos interessantes.

James divide as mães em três grupos básicos, baseado na personalidade de cada uma: a organizadora (“organizer”), a grude (“hugger”) e a flexi-mãe (“flexi-mum”). As duas primeiras caiem nos extremos, representando 25% da população (cada), enquanto metade das mães se identificam como flexi-mães (um meio termo).

A típica organizadora não muda sua rotina para o bebê

A mãe organizadora poderia ser chamada de “executiva”, exemplificada pela imagem de uma mulher de terno, salto alto, notebook e nem um fio de cabelo fora de lugar. Ela tende a ser organizada (duh..), regrada, disciplinada, ambiciosa e super racional. A gravidez da mulher organizadora, de maneira geral, não é vivida como um prazer e sim um “mal necessário”. Estar grávida é sentir-se invadida, com o corpo entregue a um outro ser. Essa mulher não gosta de ser lembrada do seu lado “bicho” e, de maneira geral, tenta colocar um senso de ordem e regras no corpo gravídico. Ela curte as consultas médicas e os exames (até mesmo os mais invasivos),  porque conferem uma sensação de que está tudo “sob controle”. Como valoriza o tecnológico e teme as forças “caóticas” da natureza, tende a agendar seu parto, seja induzindo um parto vaginal (lá fora, nunca aqui no Brasil) ou marcando a cesárea (mais comum por aqui). Sente-se muito desconfortável na primeira fase de vida do bebê, que ela entende como um bichinho dependente e assustadoramente frágil. Ela é fã de rotinas, horários, babás (eletrônicas ou não), mamadeiras e chupetas. Sua missão é civilizar o filho, fazê-lo entrar numa rotina e ganhar sua independência. Sente-se frustrada com o rompimento da sua rotina, sua identidade como profissional e mulher independente, podendo (ou não) descontar isso no filho.

Felicidade, para a mãe grude, é estar com seu filho

Já a mãe grude é o oposto de tudo isso. Imagine uma mulher de saia e sandálias, cabelos soltos e sem maquiagem, pronta para sentar na grama com sua cria e brincar na lama se for preciso. Sua maior ambição é ser mãe e sua meta é estar presente em todos os momentos da vida do filho. Ela adora ser mulher e se sente abençoada por poder gerar um filho em seu ventre. Sonha com um parto natural, conversa com o bebê desde que se descobriu grávida e, depois que ele nasce, não quer ficar um minuto longe dele. Adora amamentar, não deixa o bebê chorar por mais de 5 segundos e  até dorme junto a ele se possível. A mãe grude, também chamada de mãe mamífera em alguns círculos, esquece do resto do mundo  pelos primeiros meses da vida do seu bebê, dedicando-se a ele de corpo e alma. Podendo escolher,  ela nem volta da licença maternidade, optando por ficar em casa e cuidar do filho em tempo integral. Palavras que predominam no vocabulário das mães grudes incluem: natural, orgânico, atenção, colo, amamentação prolongada, não-violência, vínculo, sintonia. Sua missão é criar o filho com carinho e paciência, colocando suas necessidades à frente das demais (carreira, casa, marido, visual). Seu maior medo é sentir que o filho não precisa mais dela e ela pode, inclusive, acabar inconscientemente limitando a sua independência a medida que ele cresce.

Nenhuma dessas mães é perfeita – a organizadora chamaria a outra de “xiita, hippie, doida” e a grude a chamaria de “egoísta, fria, desnaturada”. Mas ambas podem ser boas mães. E engana-se quem pensa que a flexi-mãe consegue fazer “o certo”. Porque isso não existe. Qualquer um dos estilos é válido. Segundo James, só não vale a mulher fingir ser algo que não é, nem se convencer de que o seu estilo é o mais correto. O importante, na maternidade como na vida, é estar feliz com suas escolhas (e assumir as consquências das mesmas).

Eu tenho fortes tendências da mãe grude, mas com umas pitadas de organizadora. E você: se identifica mais com a organizadora ou com a grude?

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