Vale a pena armazenar o sangue do cordão umbilical?

Se você está fazendo o pré-natal numa clínica particular (mesmo que seja pelo plano de saúde), se já visitou uma maternidade privada ou se é leitora (mesmo que eventual) de revistas como Caras e Contigo, é impossível que não tenha ouvido falar no armazenamento das células-tronco do sangue do cordão umbilical. A julgar pelas celebridades das revistas e pelos panfletos na sala de espera do seu obstetra, a decisão de coletar o sangue do cordão do seu bebê é uma decisão simples, que só depende de grana. Já que, como afirma a Cryopraxis, há “ausência de risco para o doador, uma vez que o método de coleta não é invasivo”, por que não investir no armazenamento desse sangue que, supostamente, viraria “lixo biológico”? Afinal, “há coisas na vida que não tem preço – segurança é uma delas” sugere a Crio Gênesis, enquanto a Cord Vida garante que essa escolha representa “Proteção para o seu bebê, hoje e no futuro”.

Hm… será? Será que coletar e armazenar o sangue do cordão umbilical vale a pena mesmo?

Profissionais coletam o sangue do cordão umbilical de um bebê segundos após seu nascimento.

Profissionais coletam o sangue do cordão umbilical de um bebê segundos após seu nascimento.

Decidi me informar melhor e gostaria de compartilhar com vocês os meus achados e levantar alguns pontos para reflexão.

1. Importantes órgãos de saúde não recomendam o armazenamento de células-tronco em bancos privados.
No Brasil, o Ministério da Saúde, o INCA e a Anvisa se posicionaram contra o armazenamento de sangue de cordão umbilical em bancos privados com base em estudos e estatísticas que apontam as numerosas limitações do uso real desse material. A Academia Americana da Pediatria e o Colégio Americano de Ginecologistas Obstetras também são reticentes à prática. Vou resumir as principais objeções levantadas por esses órgãos:

  • A probabilidade real de se usar as células-tronco do cordão é baixíssima: as estimativas indicam entre 0,005% e 0,05%. No Brasil, apenas 3 das 45.661 unidades de sangue de cordão armazenadas em bancos privados no período de 2003 a 2010 foram utilizadas. Ou seja, somente 0,007%.
  • As quantidades coletadas geralmente não são o suficiente para tratar muitas condições – especialmente em adultos. Para você ter uma ideia, segundo Mary Hanet, a gerente de um dos maiores bancos públicos dos EUA, 75% do sangue coletado para bancos públicos é descartado por não conter um número mínimo de células-tronco. Ou seja, há uma chance considerável de você pagar para armazenar um material completamente inviável.
  • Em muitas das doenças passíveis de serem tratadas com células-tronco na infância, não é indicado usar material autólogo (do próprio paciente), porque aquelas células também carregam os marcadores genéticos da doença. É o caso das leucemias, por exemplo, e de outras doenças genéticas.
  • Como os bancos privados não são regulados, há uma chance do armazenamento não estar sendo feito adequadamente.
  • Ainda há poucos estudos e relatos de caso na literatura médica para comprovar o real benefício de tratamentos com células-tronco de sangue de cordão umbilical autólogas.
2. O sangue do cordão pertence ao bebê – privá-lo desse sangue pode ter consequências adversas.
Dizem que o sangue do cordão, se não for coletado, vai para o lixo junto com a placenta. E isso pode até ser verdade em muitos casos, mas é importante saber que  não precisa acontecer no seu caso. Deixar passar alguns minutos antes de cortar o cordão – uma prática conhecida como clampeamento tardio de cordão umbilical – já faz parte de um protocolo humanizado (e baseado em evidências) de parto e nascimento – é, inclusive, uma recomendação da OMS. Consiste em esperar o cordão parar de pulsar, para que o sangue residual do cordão e da placenta retorne para o bebê. Afinal, aquele sangue ali pertence ao bebê, não é mesmo? Na natureza, num parto 100% fisiológico, ele voltaria ao bebê. Estudos mostram que bebês que receberam esse sangue na época do nascimento têm menos anemia do que bebês nascidos com os protocolos antigos de clampeamento (ou seja, cujo cordão foi cortado imediatamente). Eileen Hutton, que publicou uma revisão sistemática sobre o tema, diz o seguinte sobre o clampeamento precoce do cordão (ou seja, o método convencional praticado pela maioria dos médicos): “As implicações são imensas. Trata-se de privar os bebês de 30 a 40 por cento do próprio sangue no nascimento – e tudo isso porque aprendemos uma prática que é nociva”.
Esse vídeo maravilhoso ilustra a quantidade de sangue que o bebê deixa de receber quando o cordão é cortado imediatamente. Não é preciso entender inglês para captar a moral da história.

Um último ponto sobre as consequências imediatas para o bebê: o procedimento em si, como você pode ver na imagem que ilustra esse post, não me parece um jeito muito agradável de ser recepcionado a este mundo. Eu, se fosse um recém-nascido, preferiria estar entre os seios quentinhos da minha mãe.

3. O marketing das empresas de armazenamento é predatório e antiético.
Um excelente debate entre médicos publicado no jornal de acesso aberto PLOS Medicine levanta uma questão pertinente:  bancos de armazenamento privados exploram a vulnerabilidade emocional dos pais visando o próprio lucro? Visto que: A) muitos candidatos a clientes desconhecem a informação resumida no ponto 1 (sobre a baixíssima probabilidade de, primeiro, precisarem desse material e, segundo e talvez mais importante, conseguirem fazê-lo de forma eficaz) e, sobretudo, B) que a decisão lhes é colocada como uma questão de “seguro de saúde” para um filho que ainda não nasceu – e sobre o qual já se colocou muito desejo, amor, preocupação – então eu diria que C), sim, é uma atitude covarde e cruel das empresas tentar vender-lhes uma garantia nada garantida, uma ilusão, de que através desse “investimento” eles estejam adquirindo um salva-guarda contra seus piores pesadelos. Como se não bastasse essa ação predatória sobre os medos inevitáveis dos pais, essas empresas também bonificam os médicos que “indicam” o serviço. Fiquei sabendo, por uma fonte segura, que as empresas oferecem um “agrado” (em dinheiro, que fique claro) aos obstetras das pacientes que contratam o serviço e que esse “agrado” pode até ultrapassar o valor que o médico recebeu do plano de saúde pelo procedimento feito (parto ou cesárea). É a dupla falta de ética nesse caso, porque nem o obstetra vira uma fonte confiável de informação, já que ele está se beneficiando do procedimento (sem revelar isso aos clientes).
É lógico que, sabendo de tudo isso, um casal pode ainda chegar à conclusão de que dormiria melhor à noite pagando os tais R$2.000 + taxas anuais de R$500. Mas sempre é bom examinar os medos e as crenças irracionais antes de gastar a grana e ser vítima desse marketing desleal, até porque [veja abaixo]…
4. …há maneiras mais eficazes – e mais certeiras – de zelar pela saúde do seu filho.
Ao invés de cair na neurose promovida pelo marketing do medo, fixando-se num cenário hipotético nada provável (doença rara, tecnologias de ponta, cura milagrosa!), que talvez nem seja tratável com o material disponível (insuficiente, mal armazenado, comprometido),  que tal colocar suas energias em medidas efetivas para melhorar a saúde do seu filho? Quer reduzir as chances de que ele tenha um câncer raro, diabetes, doenças autoimunes? Foque suas energias (e recursos financeiros) na amamentação e, em seguida, na alimentação saudável, priorizando comidas caseiras, feitas com ingredientes naturais (e, se possível, livres de agrotóxicos, como os orgânicos). Estabeleça em sua família um estilo de vida ativo, com tempo na natureza, diversão, esporte, ar puro e endorfinas naturais. Promova um ambiente com um mínimo de químicas e toxinas  – o que não significa estéril, pelo contrário, mas evitando expor sua família a substâncias cancerígenas ou disruptores endócrinos. Quer fazer mais? Então contrate um pediatra que faça um trabalho cauteloso, focado na saúde a longo prazo e não só nos males imediatos, limitando assim medicações, hospitalizações e cirurgias. Trate seu bebê, e depois a sua criança, o seu adolescente, com carinho e respeito, zelando pelo seu bem estar emocional, pois uma mente sã é uma condição sine qua non para um corpo são. Essas atitudes pró-ativas, concretas, fundamentadas em evidências, terão um impacto muito maior  a longo prazo na saúde e no bem estar do seu filho.
5. Você aposta na ciência?
Muitos pais que consideram coletar e armazenar o sangue do cordão do filho têm fé nas novas tecnologias e, por isso, optam por contratar esse serviço mesmo sabendo que, no momento atual, as aplicações são restritas. Acreditam que, no futuro, com novas pesquisas e descobertas, os usos se tornarão mais abrangentes e, assim, a probabilidade de se utilizar o material tão caramente guardado aumentará. Agora, se você aposta na ciência e na tecnologia, não seria razoável apostar na possibilidade de se descobrirem outros meios de curar e/ou tratar doenças sem privar o bebê de 30% do sangue do seu corpo ao nascer e sem expô-lo, desnecessariamente, ao risco de anemia por conta do clampeamento precoce do cordão? Sei lá, não sou cientista, mas não acho que essa hipótese seja tão improvável assim.

Já disse tudo o que me propus a dizer. Peço desculpa pelo texto enorme e por não ter tocado no assunto do armazenamento em bancos públicos, mas acho que o impulso por trás dessa opção não é o medo e a vulnerabilidade que fazem um casal considerar o armazenamento em  banco privado. E a minha birra é com isso. Porque é impossível alguém tomar uma decisão consciente sem ter informação real sobre o que está prestes a contratar: informação sobre o serviço, as possíveis consequências, as motivações que o levam a considerá-lo e as alternativas. Espero que eu tenha contribuído para que você faça uma decisão mais consciente sobre a contratação (ou não) desse serviço.

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15 Comentários

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15 Respostas para “Vale a pena armazenar o sangue do cordão umbilical?

  1. De.

    Nossa, muito sensato esse texto. Até eu que não tinha dinheiro para tal e nem histórico de doenças graves na família me senti “privando meu filho dessa segurança” quando fui impactada por esse serviço durante a gravidez.
    Mas optei pelo 4º e 5º pontos citados: prover uma vida com hábitos saudáveis e acreditar na ciência para o bem.
    Abraço!

  2. Graziela

    Viva!!! Até que enfim algo sensato quanto ao tema e sem nos deixar, pais, com dor na consciência por não termos como BANCAR um armazenamento desse tipo!!!!!! Muito grata!

  3. Teka

    Excelente, Clarissa!!!
    Eu sempre suspeitei que esta história de congelamento de células tronco fosse meio “ouro de tolo”, mas nunca havia me aprofundado na questão.
    Também preferi confiar no estilo de vida saudável, este é nosso seguro-saúde aqui em casa.

  4. Monica

    Excelente texto, parabéns! Eu era uma das que acreditava que tinha que armazenar e meu marido foi pesquisar e chegamos a muitas das conclusões que vc escreveu. Pensamos em doar para um banco público, mas pra isso vc precisa de um kit e acabou não rolando, pq meus partos foram normais e aí não deu tempo. A novidade pra mim foi sobre o clampeamento precoce do cordão e imagino que isso tenha acontecido com meus filhos :-(

  5. Elisa

    Estava pesquisando sobre isso e tinha chegado às mesmas conclusoes. Ontem me deparei no globo.com com uma chamada da Juliana Paes falando da extrema importância do armazenamento do sangue do cordao. Seria banal se nao fosse sério. Como um veículo de informacao divulga uma informacao iludida/tendenciosa dessas?! Eu nao li a entrevista, mas me chateou muito pensar que várias pessoas só de ler a chamada ficaram pensando que é importante armazenar e talvez se sentindo péssimos pais por nao terem feito ou nao poderem fazer.

  6. Eu investi numa maneira alternativa: dei irmaos aos meus filhos! :-)

  7. tlamha

    Seria interessante ouvir o que vc acha do armazenamento das celulas-tronco do tecido do cordao umbilical. Meu medico (particular) nao recomendou o armazenamento do sangue do cordao e deixou minha bebe no colo por varioa minutos ainda ligada ao cordao. Mas nos orientou a ler sobre o armazenamento das celulas-tronco mesenquimais, que sao as do tecido do cordao. :)

  8. Adorei o post, muito bom. Seria ótimo se a espera para clipe o cordão virasse regra.

  9. jaqueline dias

    PERFEITO! me orientou muito!

  10. Caroline

    O que me preocupa é o seguinte, pago caro para armazenar o sangue, dai quando precisar, não existe tratamentos viáveis aqui no Brasil, ter que pagar um absurdo para fazer os tratamentos com as células. Não achei nada sobre isso na net, custos de um tratamento.

  11. Sylvio

    Excelente texto. Estamos aguardando nosso primeiro bebê e essa é uma das dúvidas que me atormenta. Após essa leitura creio que possa tomar uma decisão bem mais racional. Muito obrigado!

  12. Carlos Eduardo

    Interessante o texto. Pesquisando mais sobre o assunto, encontrei este outro artigo que também me pareceu bastante esclarecedor e com a mesma opinião do que este: http://www.anaesposito.com.br/cordao_umbilical.aspx

  13. Juliana Sales

    Gostei muito do texto. Já estava concordando com aa estatísticas do sistema público. Mas o grande peso para mim tem sido a possibilidade de usar em alguém da família, que tem histórico de leucemia. A possibilidade de salvar um familiar, mesmo que não seja necessariamente meu filho que ainda vai nascer, me é muito tentadora. Acho que vou marcar uma consulta com um hematologista conhecido para tirar dívidas.

  14. Marcelo

    Muito obrigado pelas informações, eu já esta fazendo as contas de como eu iria me sacrificar pra pagar a tal, pois sou muito tecnológico e me atentei exatamente a usos futuros, mas desconhecia o fato de que o cordão é cortado pulsando, nosso parto será o mais humanizado possível.

  15. Fiz o armazenamento há onze anos do meu filho e há tempos tenho dúvida se vale a pena. Ao ler as informações e publicações a respeito da pouca chance de uso real, sempre arrenpendo de ter feito.
    Penso em parar de pagar pois acho que fui iludido no hospital e pelo dito maior banco do país, que vendeu pela emoção.

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