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Precisamos falar sobre o puerpério

 

puerperio_blog post header_Jenny Lewis

Nossa sociedade vende uma imagem idílica do período após o parto. Basta ver o que aparece no Google quando se digita “puerpério”: fotos de mães sorrindo, bebês tranquilos, tudo muito calmo e iluminado… A visão do paraíso materno. Eu mesma contribuo para isso quando escolho imagens aqui para o blog, tenho que admitir.

Mas não se iluda: o puerpério costuma ser PUNK.

Embora seja mágico ter o seu filho nos braços,  a chegada de um bebê vira a vida da família de ponta cabeça. Além das grandes mudanças de cunho prático (mamadas, higiene, sono etc.), para a mulher em especial tem o agravante de que seu corpo passa por transformações inéditas; independente da via de nascimento, o corpo dói, o útero contrai, os hormônios fluem, os peitos enchem, os mamilos ardem (uns mais, outros menos) e as emoções transbordam. Os órgãos abdominais estão se ajustando, e a sensação de que algo não está muito normal internamente pode ser vivida com estranheza ou até pânico. Quando o nascimento é via cesariana, o corpo precisa se recuperar das lesões; ações corriqueiras como tossir, levantar-se e agachar se tornam delicadas, mesmo quando a dor está sendo medicada ou está suportável. E o termo “cansaço” ganha uma nova dimensão…

No campo emocional, a transformação é ainda mais complexa. A mulher, que antes era alvo de tanto carinho e afeto enquanto grávida, passa a ser praticamente ignorada, já que todos os olhos estão voltados para o bebê. E dá-lhe pitacos, conselhos, julgamentos e orientações (muitas prejudiciais) para cima dela! Mesmo quem tem a sorte de não ser rodeada por gente sem noção vive uma transição monumental. A ansiedade e a idealização que caracterizam o fim da gravidez se transformam em dúvidas, medos, amor (que, às vezes, demora a se manifestar), desconfortos, alegria, cansaço, choro… Tudo junto e misturado, e muito difícil de articular, especialmente quando somente o lado idílico da maternidade é promovido e assimilado pela nossa cultura, como vimos pelo Mestre Google.

Existe uma ausência de informações sobre a experiência do pós-parto (esse relato aqui é uma exceção). A informação disponível é focada no aspecto “médico” ou nas “obrigações de cuidados”. Parte do problema é que quem acompanha a nova família por esse período são os profissionais médicos, o obstetra e o pediatra, que foram treinados para observar e agir sobre a parte física e tangível: como cuidar dos pontos ou do desconforto perineal, o que não fazer no período de resguardo, como fazer a higiene de coto umbilical etc. Os aspectos emocionais são ignorados ou rotulados com termos tipo”baby blues” e”depressão pós-parto”, o que nem sempre ajuda quem está imersa em toda a gama de emoções do pós-parto, mas que não necessariamente sofre de uma condição psiquiátrica (por favor, vejam a NOTA abaixo sobre depressão pós-parto, um assunto sério que deve ser tratado em consultório). 

A vida moderna, por motivos socioculturais e econômicos, infelizmente contribui para dificultar esse período. Antes da família nuclear, quando vivíamos em grupos familiares maiores ou em tribos, a comunidade (de mulheres, geralmente) cuidava intensamente da nova mãe para que ela tivesse a força e o ânimo para cuidar do recém-nascido: massagens, refeições especiais, repouso e resguardo faziam parte desse rito de passagem. A mulher era, literalmente, banhada em afeto e suporte para, assim, nutrir o bebê. Hoje, mesmo com os homens muito mais envolvidos nas tarefas de cuidar, a mulher moderna tem somente uma ou duas (ou no máximo três) outras pessoas para ajudá-la: o companheiro e sua mãe e/ou sogra ou, às vezes, uma profissional contratada para ajudar (babá, enfermeira). E o problema não é só o número e sim a qualidade desse cuidado, que tende a ser pragmático, focado em tarefas relacionadas somente ao bebê. Não há muito espaço para as necessidades emocionais da mãe nessa nova configuração cultural; especialmente quando a própria mulher foge da vulnerabilidade, da incoerência, do intangível (recomendo fortemente esse texto do pediatra Daniel Becker).

Nossa cultura pós-industrial, investida em promover aspectos materiais, concretos e mensuráveis, não consegue dar conta desse aspecto emotivo, ora transcendental ora sombrio. Ao invés de promover a vivência integral desse momento, tanto o bom quanto o ruim, as normas culturais nos chamam para o mundo externo: sentimo-nos na obrigação de pentear o cabelo e receber visitas, servir algo para os amigos e parentes, deixar todos segurarem o bebê, estabelecer rotinas de cuidados e dar algum sentido a toda essa transformação. Tem gente que marca até festas na maternidade, com direito a champanhe e buffet, para comemorar o nascimento, ignorando por completo a delicadeza e a singularidade do pós-parto. E não vou nem entrar no mérito da crueldade que é a cobrança de voltar à forma física de uma mulher sem filhos, como se aquele corpo, ainda dolorido, ainda se doando para outro ser humano, não merecesse as maiores honrarias e o mais sincero carinho pelo milagre que gerou!

Para piorar o quadro, há um fator psicológico contundente, que também é particular a nossa era: o fato de que, em geral, as mães escolheram, desejaram e planejaram esse filho. Se por um lado isso é bom, por outro, gera uma enorme expectativa/idealização. A maternidade, antes um aspecto comum e praticamente inevitável na vida de uma mulher com vida sexual ativa, se tornou uma condição elevada, quase santificada. Afinal, se não houvesse uma certa idealização alguém, com o luxo de escolher, se aventuraria a conhecer essa terra estrangeira de onde ninguém volta sem ser transformado para sempre? No fundo, a questão que nos assombra: “por ter sido desejada e planejada, como aceitar que nem tudo são flores nessa condição que eu escolhi e da qual não posso retornar?”

Não escrevi esse post para assustar ninguém nem para dizer que o puerpério é uma viagem às trevas. Tampouco quero convencê-la a ficar numa caverna lambendo a cria, como nossos antepassados neandertais, ao invés de chamar  as visitas, encomendar os bem-nascidos e realizar a fantasia de ter uma “bonequinha” para chamar de sua enquanto marca sua volta à academia com o personal trainer e liga pra farmácia para garantir o antidepressivo que o médico receitou “em caso de tristeza” (isso foi assunto do último post, hehe). Quero só que você saiba que o puerpério existe, e que é duro, mesmo quando é bom. Embora tenha quem negue ou diminua o fator “punk” do puerpério, a maioria das mulheres relata que os primeiros dias ou semanas após o parto são difíceis, surpreendentes, marcados por altos (cheiro de neném, pele de neném, bebê bêbado de leitinho materno!) e baixos (dúvidas mil, inseguranças, choro, medos inéditos, tristeza). Isso é normal. Isso é louco. Isso é a vida de mãe.

E para brindar à sua nova ou iminente condição materna, eis aqui um slideshow com imagens de mães reais com seus bebês de apenas um dia de vida, registradas pela brilhante fotógrafa inglesa Jenny Lewis para a série One Day Young, e trechos do livro Mulheres visíveis, mães invisíveis, da psicoterapeuta Laura Gutman.

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NOTA: Não sou psicóloga e minha intenção não é negar nem minimizar a depressão pós-parto, condição que afeta cerca de 15% das puérperas. O objetivo deste post é discutir os sentimentos ambíguos e intensos que caracterizam um pós-parto suportável e dentro da normalidade, sem que isso precise ser rotulado ou combatido. No entanto, se você suspeita que a tristeza, o cansaço e a irritabilidade estejam pesados demais, afetando sua autoestima e suas relações, consulte um psicólogo. Se perceber que está cogitando medidas drásticas para amenizar seu sofrimento, peça ajuda profissional com urgência. Não tenha vergonha: a depressão pós-parto acontece “nas melhores famílias” (mesmo!) e pode ser superada com o acompanhamento adequado.

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