33 motivos para assistir ao documentário O Renascimento do Parto

Antes de começar este blog, antes mesmo de sonhar com ele, pensei em fazer um filme. Não sou cineasta e não entendo muito do assunto, mas sabia que a melhor forma de despertar o interesse das pessoas por um tema muito caro a mim seria através de imagens e da mídia audiovisual. Coloquei na cabeça que iria fazer um filme sobre parto e nascimento no Brasil e que ele seria bonito e teria depoimentos dos profissionais mais pica-grossas do universo da humanização do parto no nosso país (talvez até uma galera gringa), talvez algumas celebridades, uma trilha bonita e cenas emocionantes para fazer um contraponto aos partos horripilantes que vemos nas novelas e nos programas da GNT e do Discovery Channel; seria um documentário para expôr a anormalidade da realidade obstétrica no Brasil e, ao mesmo tempo, um filme para celebrar o parto como ele poderia ser – um evento familiar, transformador – se nós simplesmente criássemos as condições para tal.

Por sorte, não precisei desembolsar uma grana preta para esse projeto porque gente muito mais talentosa do que eu estava à frente de um projeto semelhante. Finalmente, depois de muito suor, esforço e torcida, esse filme chegou às telas de cinema Brasil afora. Em vez de escrever uma crítica ou uma defesa apaixonada do filme (não por falta de querer, mas por pura falta de tempo mesmo), resolvi fazer uma lista (como boa virginiana etc tals). Se você se encaixar em alguma categoria, entre lá no ingresso.com e garanta seu programa do fim de semana! [Confira os horários aqui]

Então, sem mais, 30 motivos para não deixar de ver o filme O Renascimento de Parto (de preferência, neste fim de semana, porque a bilheteria dos primeiros três dias faz crucial diferença na decisão dos donos de cinemas em manter ou retirar um filme de suas salas):

  1. Você (ou sua esposa, sua melhor amiga, sua irmã, sua prima, sua filha) está grávida e quer um parto normal.
  2. Você (ou sua esposa, sua melhor amiga, sua irmã, sua prima, sua filha) está grávida e optou pela cesárea.
  3. Você (ou sua esposa, sua melhor amiga, sua irmã, sua prima, sua filha) está grávida e não pensou ainda no tipo de parto.
  4. Para conhecer o Espaço Itaú da sua cidade (o do Rio, recém-reformado, ficou lindo!), pois é só lá que o filme está passando.
    ORDP espaço itaú
  5. Você não se animou com as estreias da semana, mas não fica sem um bom cineminha no fim de semana.
  6. Você está de TPM (ou emotiva por qualquer razão) e a fim de dar uma boa chorada (e por a culpa no filme depois, claro).
  7. Você tem uma sensação inexplicável, porém real, de que o seu próprio nascimento não foi muito bacana (e não tem medo de cutucar essa ferida).
  8. Para ver o Marcio Garcia (um gato – o galã adolescente de muitas balzacas brasileiras! No papel de pai carinhoso então, ficou irresistível!).
  9. Você estudou cinema, antropologia, sociologia, biologia, medicina, obstetrícia, enfermagem, filosofia, psicologia ou se interessa por esses campos de conhecimento. [bônus para quem se interessa por todos eles!]
  10. Para prestigiar o cinema nacional.
  11. Você adora um bom debate e esse (parto normal vs. cesárea) é tão espinhoso, visceral e universal que você não pode ficar de fora!
  12. É um documentário (oba!) e você gosta de aprender sobre assuntos sobre os quais nunca parou para se aprofundar.
  13. Você faz parte dessa indústria do nascimento e precisa se informar sobre esse tal de “parto humanizado”, que está ameaçando o seu ganha pão.
  14. Para alimentar seu desprezo por hippies, xiitas, radicais do parto e profissionais que baseiam suas práticas em evidências científicas.
  15. Você é fã do documentário americano The Business of Being Born e quer ver a versão brasileira.
  16. Você é profissional de saúde e se preocupa com a realidade obstétrica brasileira.
  17. Você é profissional de saúde e acha a realidade obstétrica brasileira perfeitamente normal, saudável e avançada.
  18. Você nem está grávida ainda, mas morre de medo de parir.
  19. Você (ou sua esposa, sua amiga, sua irmã, sua prima, sua filha) passou por uma cesárea e não se acha menos mãe por causa disso [veja item abaixo e leia este texto, por favor].
  20. Você (ou sua esposa, sua amiga, sua irmã, sua prima, sua filha) passou por uma cesárea indesejada e, por motivos que você mal sabe, não conseguiu superar a sensação de tristeza/ frustração/ perda que ela traz.
  21. Você acha parto uma coisa nojenta, violenta e não entende por que tem gente que quer tanto passar por isso.
  22. Você é feminista e luta por melhores condições de vida para as mulheres.
  23. Você se deu conta de que 90% do seu círculo de amizades teve o filho por cesárea – a grande maioria fora do trabalho de parto – e pensou “opa, o que está acontecendo aqui?”
  24. Você acha que “parteira” significa “mulher sem instrução formal que pega menino”, mas ouviu falar que na Europa os partos normais são conduzidas por parteiras e, portanto, acha que chegou a hora de rever os seus conceitos.
  25. Você adora filosofar e quer se inspirar (ou se irritar) com os questionamentos do polêmico Michel Odent, autor de livros como A cientificação do amor e o recém-lançado Childbirth and the future of homo sapiens (O parto e o futuro da nossa espécie).
  26. Você tem uma pinimba com esse termo “parto humanizado” e acha que todo parto de ser humano é humanizado. [dica: humanizado vem do verbo humanizar, “Tornar(-se) benevolente, agradável”, e não do adjetivo humano, mas prometo que o filme explica melhor].
  27. Você é designer, adorou o site do filme, os cartazes e a identidade visual do filme e, portanto, quer prestigiar o trabalho como um todo.

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  28. Você é um tarado (ou uma tarada, por que não?) e quer ver mulheres peladas em momento de êxtase.
  29. Você tem uma esposa, amiga, colega de trabalho, irmã, prima, vizinha que é ativista do parto normal e não aguenta mais ouvir sobre o assunto, então decidiu ver o filme para poder dar um cala a boca nessa mala.
  30. Você está grávida (ou grávido) e não aguenta mais ouvir histórias escabrosas sobre o parto normal e precisa se expor a algo mais positivo.
  31. Você se emocionou com o trailer e/ou com o promo do filme e agora precisa ver o filme completo! [se você ainda não viu o trailer ou o material promocional, não sabe o que está perdendo – e leva só uns minutinhos, veja abaixo]
  32. Você pretende ter filhos um dia.
  33. Você é fã d'”A mãe que quero ser” e está curiosa para saber quem será a minha obstetra, minha parteira e o pediatra do(s) meu(s) filho(s) :-P. [Dica: todos aparecem no filme e se você adivinhar quem são, ganha um livro autografado]

E aí, me conta: Qual o seu motivo?

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Vale a pena armazenar o sangue do cordão umbilical?

Se você está fazendo o pré-natal numa clínica particular (mesmo que seja pelo plano de saúde), se já visitou uma maternidade privada ou se é leitora (mesmo que eventual) de revistas como Caras e Contigo, é impossível que não tenha ouvido falar no armazenamento das células-tronco do sangue do cordão umbilical. A julgar pelas celebridades das revistas e pelos panfletos na sala de espera do seu obstetra, a decisão de coletar o sangue do cordão do seu bebê é uma decisão simples, que só depende de grana. Já que, como afirma a Cryopraxis, há “ausência de risco para o doador, uma vez que o método de coleta não é invasivo”, por que não investir no armazenamento desse sangue que, supostamente, viraria “lixo biológico”? Afinal, “há coisas na vida que não tem preço – segurança é uma delas” sugere a Crio Gênesis, enquanto a Cord Vida garante que essa escolha representa “Proteção para o seu bebê, hoje e no futuro”.

Hm… será? Será que coletar e armazenar o sangue do cordão umbilical vale a pena mesmo?

Profissionais coletam o sangue do cordão umbilical de um bebê segundos após seu nascimento.

Profissionais coletam o sangue do cordão umbilical de um bebê segundos após seu nascimento.

Decidi me informar melhor e gostaria de compartilhar com vocês os meus achados e levantar alguns pontos para reflexão.

1. Importantes órgãos de saúde não recomendam o armazenamento de células-tronco em bancos privados.
No Brasil, o Ministério da Saúde, o INCA e a Anvisa se posicionaram contra o armazenamento de sangue de cordão umbilical em bancos privados com base em estudos e estatísticas que apontam as numerosas limitações do uso real desse material. A Academia Americana da Pediatria e o Colégio Americano de Ginecologistas Obstetras também são reticentes à prática. Vou resumir as principais objeções levantadas por esses órgãos:

  • A probabilidade real de se usar as células-tronco do cordão é baixíssima: as estimativas indicam entre 0,005% e 0,05%. No Brasil, apenas 3 das 45.661 unidades de sangue de cordão armazenadas em bancos privados no período de 2003 a 2010 foram utilizadas. Ou seja, somente 0,007%.
  • As quantidades coletadas geralmente não são o suficiente para tratar muitas condições – especialmente em adultos. Para você ter uma ideia, segundo Mary Hanet, a gerente de um dos maiores bancos públicos dos EUA, 75% do sangue coletado para bancos públicos é descartado por não conter um número mínimo de células-tronco. Ou seja, há uma chance considerável de você pagar para armazenar um material completamente inviável.
  • Em muitas das doenças passíveis de serem tratadas com células-tronco na infância, não é indicado usar material autólogo (do próprio paciente), porque aquelas células também carregam os marcadores genéticos da doença. É o caso das leucemias, por exemplo, e de outras doenças genéticas.
  • Como os bancos privados não são regulados, há uma chance do armazenamento não estar sendo feito adequadamente.
  • Ainda há poucos estudos e relatos de caso na literatura médica para comprovar o real benefício de tratamentos com células-tronco de sangue de cordão umbilical autólogas.
2. O sangue do cordão pertence ao bebê – privá-lo desse sangue pode ter consequências adversas.
Dizem que o sangue do cordão, se não for coletado, vai para o lixo junto com a placenta. E isso pode até ser verdade em muitos casos, mas é importante saber que  não precisa acontecer no seu caso. Deixar passar alguns minutos antes de cortar o cordão – uma prática conhecida como clampeamento tardio de cordão umbilical – já faz parte de um protocolo humanizado (e baseado em evidências) de parto e nascimento – é, inclusive, uma recomendação da OMS. Consiste em esperar o cordão parar de pulsar, para que o sangue residual do cordão e da placenta retorne para o bebê. Afinal, aquele sangue ali pertence ao bebê, não é mesmo? Na natureza, num parto 100% fisiológico, ele voltaria ao bebê. Estudos mostram que bebês que receberam esse sangue na época do nascimento têm menos anemia do que bebês nascidos com os protocolos antigos de clampeamento (ou seja, cujo cordão foi cortado imediatamente). Eileen Hutton, que publicou uma revisão sistemática sobre o tema, diz o seguinte sobre o clampeamento precoce do cordão (ou seja, o método convencional praticado pela maioria dos médicos): “As implicações são imensas. Trata-se de privar os bebês de 30 a 40 por cento do próprio sangue no nascimento – e tudo isso porque aprendemos uma prática que é nociva”.
Esse vídeo maravilhoso ilustra a quantidade de sangue que o bebê deixa de receber quando o cordão é cortado imediatamente. Não é preciso entender inglês para captar a moral da história.

Um último ponto sobre as consequências imediatas para o bebê: o procedimento em si, como você pode ver na imagem que ilustra esse post, não me parece um jeito muito agradável de ser recepcionado a este mundo. Eu, se fosse um recém-nascido, preferiria estar entre os seios quentinhos da minha mãe.

3. O marketing das empresas de armazenamento é predatório e antiético.
Um excelente debate entre médicos publicado no jornal de acesso aberto PLOS Medicine levanta uma questão pertinente:  bancos de armazenamento privados exploram a vulnerabilidade emocional dos pais visando o próprio lucro? Visto que: A) muitos candidatos a clientes desconhecem a informação resumida no ponto 1 (sobre a baixíssima probabilidade de, primeiro, precisarem desse material e, segundo e talvez mais importante, conseguirem fazê-lo de forma eficaz) e, sobretudo, B) que a decisão lhes é colocada como uma questão de “seguro de saúde” para um filho que ainda não nasceu – e sobre o qual já se colocou muito desejo, amor, preocupação – então eu diria que C), sim, é uma atitude covarde e cruel das empresas tentar vender-lhes uma garantia nada garantida, uma ilusão, de que através desse “investimento” eles estejam adquirindo um salva-guarda contra seus piores pesadelos. Como se não bastasse essa ação predatória sobre os medos inevitáveis dos pais, essas empresas também bonificam os médicos que “indicam” o serviço. Fiquei sabendo, por uma fonte segura, que as empresas oferecem um “agrado” (em dinheiro, que fique claro) aos obstetras das pacientes que contratam o serviço e que esse “agrado” pode até ultrapassar o valor que o médico recebeu do plano de saúde pelo procedimento feito (parto ou cesárea). É a dupla falta de ética nesse caso, porque nem o obstetra vira uma fonte confiável de informação, já que ele está se beneficiando do procedimento (sem revelar isso aos clientes).
É lógico que, sabendo de tudo isso, um casal pode ainda chegar à conclusão de que dormiria melhor à noite pagando os tais R$2.000 + taxas anuais de R$500. Mas sempre é bom examinar os medos e as crenças irracionais antes de gastar a grana e ser vítima desse marketing desleal, até porque [veja abaixo]…
4. …há maneiras mais eficazes – e mais certeiras – de zelar pela saúde do seu filho.
Ao invés de cair na neurose promovida pelo marketing do medo, fixando-se num cenário hipotético nada provável (doença rara, tecnologias de ponta, cura milagrosa!), que talvez nem seja tratável com o material disponível (insuficiente, mal armazenado, comprometido),  que tal colocar suas energias em medidas efetivas para melhorar a saúde do seu filho? Quer reduzir as chances de que ele tenha um câncer raro, diabetes, doenças autoimunes? Foque suas energias (e recursos financeiros) na amamentação e, em seguida, na alimentação saudável, priorizando comidas caseiras, feitas com ingredientes naturais (e, se possível, livres de agrotóxicos, como os orgânicos). Estabeleça em sua família um estilo de vida ativo, com tempo na natureza, diversão, esporte, ar puro e endorfinas naturais. Promova um ambiente com um mínimo de químicas e toxinas  – o que não significa estéril, pelo contrário, mas evitando expor sua família a substâncias cancerígenas ou disruptores endócrinos. Quer fazer mais? Então contrate um pediatra que faça um trabalho cauteloso, focado na saúde a longo prazo e não só nos males imediatos, limitando assim medicações, hospitalizações e cirurgias. Trate seu bebê, e depois a sua criança, o seu adolescente, com carinho e respeito, zelando pelo seu bem estar emocional, pois uma mente sã é uma condição sine qua non para um corpo são. Essas atitudes pró-ativas, concretas, fundamentadas em evidências, terão um impacto muito maior  a longo prazo na saúde e no bem estar do seu filho.
5. Você aposta na ciência?
Muitos pais que consideram coletar e armazenar o sangue do cordão do filho têm fé nas novas tecnologias e, por isso, optam por contratar esse serviço mesmo sabendo que, no momento atual, as aplicações são restritas. Acreditam que, no futuro, com novas pesquisas e descobertas, os usos se tornarão mais abrangentes e, assim, a probabilidade de se utilizar o material tão caramente guardado aumentará. Agora, se você aposta na ciência e na tecnologia, não seria razoável apostar na possibilidade de se descobrirem outros meios de curar e/ou tratar doenças sem privar o bebê de 30% do sangue do seu corpo ao nascer e sem expô-lo, desnecessariamente, ao risco de anemia por conta do clampeamento precoce do cordão? Sei lá, não sou cientista, mas não acho que essa hipótese seja tão improvável assim.

Já disse tudo o que me propus a dizer. Peço desculpa pelo texto enorme e por não ter tocado no assunto do armazenamento em bancos públicos, mas acho que o impulso por trás dessa opção não é o medo e a vulnerabilidade que fazem um casal considerar o armazenamento em  banco privado. E a minha birra é com isso. Porque é impossível alguém tomar uma decisão consciente sem ter informação real sobre o que está prestes a contratar: informação sobre o serviço, as possíveis consequências, as motivações que o levam a considerá-lo e as alternativas. Espero que eu tenha contribuído para que você faça uma decisão mais consciente sobre a contratação (ou não) desse serviço.

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Será que estimulamos demais os nossos bebês?

Numa semana em que o transtorno do déficit de atenção (ou TDA) bombou nas redes sociais – certamente por causa da polêmica em torno do novo manual de diagnóstico de psiquiatria, o DSM-5 , e das excelentes reflexões que decorreram disso – e para marcar a Semana Mundial do Brincar (sim, isso existe!), gostaria de propor uma reflexão sobre a primeira infância. Especificamente, sobre aquele tempo em que não estamos nem trocando nem amamentando ou alimentando nem higienizando nem ninando o bebê. Estou me referindo ao tempo de brincar ou, simplesmente, de ESTAR com o bebê.

Para um adulto que pouco convive com crianças pequenas, basta pensar em passar tempo com um bebê que bate um medo, uma insegurança profunda. Ele não fala, não anda, mal consegue se locomover! O que vamos fazer juntos? O que ele está pensando? O que ele quer de mim? Será que vou/vamos morrer de tédio? Será que ele não ficaria melhor numa creche ou num curso ou na frente da televisão, para se sentir estimulado, para aprender, para desenvolver habilidades?

Não vou me atrever a sugerir que a exposição precoce a um ambiente com muitos estímulos seja a culpada pelo aumento da hiperatividade e do transtorno do déficit de atenção – até porque acho muito mais provável que o principal culpado por isso seja o excesso de diagnósticos duvidosos causados por pressão da indústria farmacêutica sobre médicos, aliado ao impulso de pais e professores de rotular e tratar de forma “eficiente” comportamentos indesejados (leia mais aqui e aqui). No entanto, acho no mínimo curioso que nos empenhamos tanto em deixar nossos bebês constantemente entretidos – e vale tudo para isso, desde brinquedos trambolhudos e barulhentos a iPads e galinhas pintadas na TV – e, no entanto, passados alguns anos, lamentamos a falta de interesse deles pela sobriedade da sala de aula e da inqueitude deles diante de uma simples peça de teatro.

Há alguns meses, me deparei com um texto num blog inglês que me deixou gritando “isso! isso! isso!” e me empolgou a ponto de eu pedir autorização para traduzi-lo. Finalmente consegui a permissão da autora, a psicóloga, educadora perinatal e fundadora da organização BabyCalm, Sarah Ockwell-Smith, para divulgar o texto em português aqui no blog.  O original se chama “Do we do too much with our babies” e pode ser lido em inglês aqui. Embora ela não toque no assunto “déficit de atenção” ou “hiperatividade”, acredito que alguns pontos de seu texto se apliquem a uma reflexão, ou um questionamento, mais amplo no qual o TDA se insere: será que estamos criando e olhando para nossas crianças da forma mais saudável e sensata possível?

Enfim, leiam o texto e deixem suas impressões!

Será que fazemos demais com nossos bebês?

por Sarah Ockwell-Smith

Tenho pensado bastante sobre isso ultimamente e, quanto mais eu penso, mais eu acredito de verdade que estamos muito equivocados na nossa compreensão sobre bebês e primeira infância na nossa sociedade.

Uma rápida ida ao Google em busca de “atividades para bebês” perto da minha residência me dá uma lista de várias aulas às quais eu poderia levar meu bebê (imaginário!). Entre elas:

Massagem para bebês, yoga para bebês, Baby Sensory, natação para bebês, musicalidade, dança disco para bebês, francês para bebês, linguagem de sinais, ballet, ginástica para bebês e aulas para bebês e papais. Isso tudo sem contar as atividades para crianças pequenas (entre 1 e 3 anos): rugby para bebês, teatro, futebol e trampolim para bebês.

Caramba, quanta opção! Não é de se espantar que tantos pais me perguntem “o que devo fazer para entretê-lo” ou comentem “ele deve ficar tão entediado só ficando em casa comigo”. Quanto mais aulas desse tipo aparecem, quanto mais as mães sentem que deveriam estar “fazendo” algo com seus bebês, mantendo-os entretidos, se empenhando para promover o desenvolvimento dos mesmos, mais elas aprendem que, sozinhas, elas não são o suficiente para o filho, e sua medida de valor próprio se torna dependente das aulas às quais levam o bebê e dos equipamentos que disponibilizam para ele. Outra preocupação que tenho com essas aulas é que, mais uma vez, elas costumam desvalorizar os pais enquanto especialistas do próprio filho. Mães aprendem que há maneiras específicas de tocar em seu bebê, jeitos específicos de se mexer com eles, formas específicas de falar e cantar com eles (e que tudo isso requer uma dose de preparo profissional). Às vezes, esse ensino pode deixá-las menos confiantes em si mesmas, e na sua maneira particular de fazer as coisas. Elas podem se perguntar se estão “fazendo certo”. Sei que quando eu fiz um curso de massagem para bebês com o meu primeiro filho, acabei fazendo menos massagens nele depois do curso porque não conseguia me lembrar dos toques específicos (e das músicas que os acompanhavam) e fiquei preocupada se estava “fazendo o certo,” de forma que meus toques espontâneos diminuíram.

FP ApptivityNão vou nem entrar no assunto “brinquedos e equipamentos ‘educativos’ feitos para ajudar o desenvolvimento do bebê” – entre eles, flash cards (cartões de memorização), sistemas de leitura para bebês e DVDs que ensinam línguas estrangeiras…

Minha pergunta é simples: por que achamos que precisamos de toda essa tralha? Quando paramos de acreditar que aquilo de que um bebê realmente precisa é tempo conosco? Quando passamos a desvalorizar a importância de integrar os bebês ao nosso dia a dia normal? Por que não acreditamos que somos o suficiente para nossos bebês? Por que não somos capazes de permitir que os bebês simplesmente sejam bebês?

O que é triste nesse caso é que pesquisas nos mostram claramente como os bebês aprendem e o que é importante nesse processo. Adoro essa frase da Maria Montessori: “Cuidar de uma criança deve ser norteado não pelo desejo de fazê-la aprender coisas, mas pelo empenho de sempre manter acesa dentro dela aquela chama cujo nome é inteligência”. Como, então, cultivar essa curiosidade natural? Permitindo que nossos bebês sejam os líderes e que ditem o ritmo de seu aprendizado? Ou sobrecarregando-os com diversos cursos e recursos que visam acelerar seu desenvolvimento?

Brincar

Brincamos com nossos bebês antes mesmo de eles nascerem, muitas vezes sem perceber que estamos brincando. Alisamos o barrigão, apertando delicadamente um pezinho estendido, e sentimos o bebê reagir. É espontâneo o desenrolar das brincadeiras após o nascimento – imitamos expressões faciais, nos escondemos e depois reaparecemos no campo de visão do bebê (“achou!”) fazemos cosquinha… tudo isso nós fazemos sem nos darmos conta. Brincar ensina tanta coisa a nossos bebês, sendo que a mais notável talvez seja esperar sua vez, o que vem a ser um dos componentes mais importantes da fala. Melanie Klein escreveu a fundo sobre a importância de brincar e da formação da fantasia e do simbolismo e é particularmente conhecida pela citação “Uma das muitas experiências interessantes e surpreendentes do iniciante em análise infantil é descobrir até em crianças muito jovens uma capacidade de percepção que costuma ser muito maior do que a do adulto”. O que acontece, então, quando sempre direcionamos a brincadeira do bebê? Através de brinquedos ou cursos específicos? O que acontece com a criatividade deles quando sempre estamos no comando?

Falar e Cantar

Pesquisas revelam que os bebês começam a adquirir linguagem antes mesmo de nascerem. Falar está no DNA dos bebês e o componente mais importante na aquisição de linguagem somos nós. Sem estarmos conscientes de tal, ensinamos nossos bebês a falar, ensinamos nossos bebês sobre musicalidade e ritmo, ensinamos a arte da conversação e de esperar a vez de falar. Ensinamos tudo isso não com a ajuda de cartões de memória ou cursinhos em DVD, mas com as interações diárias e ao falarmos com vozinha de bebê (Baby talk). Baby talk se refere ao jeito inconsciente de falarmos com os bebês: naturalmente afinamos a voz (usamos um tom mais agudo), exageramos as vogais e marcamos as consoantes, e também mudamos o vocabulário para ser mais apropriado à idade, encurtamos frases e simplificamos o conteúdo. O Baby talk também faz maior uso do contato olho no olho. Bebês têm uma inclinação natural a esse tipo de fala – por isso o nome Baby talk (fala de bebê). Nós todos possuímos essa incrível habilidade inata de ensinar linguagem aos bebês, então por que precisamos da ajuda e das ferramentas de terceiros?

Objetos cotidianos & ‘brinquedos’

treasure basketUm objeto cotidiano será tão fascinante para seu bebê quanto um brinquedo educativo caro. Winnicott escreveu sobre a experiência da espátula – em que bebês recebiam um abaixador de língua para brincar – na qual ele observou um período de hesitação antes de começar a brincadeira. Winnicott descobriu que essa hesitação era de extrema importância e daí concluiu ser essencial permitir aos bebês esse período de hesitação para que pudessem desenvolver a criatividade. O conceito da brincadeira heurística, introduzido por Elinor Goldschmeid no início dos anos 1980, se refere à exploração dos objetos (e, portanto, das propriedades da natureza) a partir do ‘mundo real’. Ela deixou um legado precioso ao lançar o conceito de cestas de tesouro – cestas que contêm objetos caseiros e objetos da natureza (veja esse ótimo texto explicando como montar uma cesta de tesouro [em inglês]). Elinor acreditava que os bebês “sugam, pegam, tocam e sentem objetos, [treinando] comportamentos que promovem seu aprendizado mais primário”.

Nós e o ambiente

bumboOs bebês podem aprender tanto simplesmente ficando no nosso colo: aprendem sobre movimento, se fortalecem, especialmente quando ficam barriga com barriga (tanto se fala de colocar o bebê de barriga para baixo, mas poucos pais sabem que colocar o bebê no sling barriga com barriga tem o mesmo efeito!) e talvez o mais importante de tudo é que aprendem sobre o ambiente à sua volta, tendo como base segura o contato humano. Pense no quão fascinante deve ser para um bebê dar uma volta na cidade? Ou passear no campo? São tantos sons, cheiros, imagens que você pode não apreciar, mas que são novidade para um bebê! Por isso é importante segurar o bebê (virado para você), porque quando esses estímulos se tornarem excessivos, eles podem se desligar. Quando ficam expostos diretamente a tudo (virados para frente no carregador ou longe de nós), eles podem se sentir sobrecarregados. O ponto essencial aqui é deixar que o bebê se desenvolva e aprenda no seu próprio ritmo. Como deve ser a vida de um bebê colocado num assento Bumbo na frente da televisão? Seu corpo forçado a ficar numa posição para a qual seus músculos e juntas não estão preparados, impossibilitado de sair da frente de uma TV emitindo sons altos e cores brilhantes? Como deve ser a vida de um bebê apoiado artificialmente na vertical em um aparelho de atividades cercado de plástico em cores berrantes, sons estridentes e luzes ofuscantes? Onde você preferiria aprender e em qual ambiente você se imagina estando mais naturalmente curioso e no qual você mais aprenderia: nas duas situações descritas acima ou no colo da sua mãe, contra seu peito, aquecido, apoiado numa posição fisiologicamente correta, sentindo o cheiro familiar dela, em um ambiente em que você fica livre para explorar, mas para o qual você pode retornar e “se desligar” quando se sente sobrecarregado?boba-3g-tweet

Quando vamos permitir que nossos bebês simplesmente existam em paz? Quando vamos perceber suas verdadeiras necessidades? Temo que só nos distanciaremos mais e mais das verdadeiras necessidades dos bebês em nosso tempo.

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Em defesa do quarto compartilhado

Onde seu bebê vai dormir?

Para a esmagadora maioria das pessoas que conheço, a resposta é automática: no quartinho dele, claro! Afinal, “o quarto do bebê” é um dos pilares da preparação para a chegada de um novo membro da família. Para muitas famílias, foi no quarto que investiram a maior parte da grana e das energias: pesquisas, revistas, peregrinações a lojas, talvez até um projeto com arquiteto bacana, marcenaria etc. No quarto, depositaram sonhos, esperanças, expectativas e magia. Encheram o armário de roupinhas cuidadosamente lavadas, sapatinhos de diversos modelos, presentes de familiares e de amigos, além de pacotes e mais pacotes de fraldas. Compraram ou folhearam revistas para escolher o tom certo do papel de parede ou da tinta, das cortinas e, claro, o kit berço mais lindo que o orçamento permitiu. Afinal, o berço é a peça central do quartinho – o ponto para onde os olhares se voltam, o móvel que dá o tom para o resto da decoração; é quase como se fosse o trono do pequeno príncipe ou da pequena princesa que está prestes a coroar a vida do casal.

Quarto de príncipe/ princesa

Quarto de príncipe/ princesa

Eu também sonho com um quartinho lindo, digno de revista, porém com toques modernos e coloridos que fazem parte do meu estilo. Gosto da estética escandinava – linhas retas, minimalistas, madeira clara ou laca colorida – mas também me pego sendo seduzida pela burguesinha romântica que vive dentro de mim, cuja preferência é por um quartinho provençal, rigorosamente executado por arquitetos, com direito até a cortinas em toile de jouy (de preferência, uma leitura moderna da estampa).

Quarto hipster/ escandinavo

Quarto hipster/ escandinavo

Mas essas fantasias não duram muito porque aí eu me vejo, invariavelmente, sempre, implacavelmente, pensando na criança. Será que esse bercinho escandinavo/ provençal é onde ele/ela vai dormir feliz e em segurança? Será que esses móveis lindos (altos, inacessíveis, restritivos) e esse esquema de cores sofisticado (monótono, padronizado) compõem o espaço mais adequado para uma pessoinha em desenvolvimento? E, talvez o mais relevante para fins desse post, será que colocar um bebê pequeno para dormir num quarto sozinho é a medida mais prática, sensata e conveniente para ele e para os pais?

O quarto do bebê é algo relativamente recente na história da humanidade. Antes de morarmos em casas relativamente grandes, em núcleos familiares comparativamente pequenos, as crianças dormiam com os pais quando pequenas e depois dividiam todas um cômodo da casa. Estudos indicam que bebês que dormem no mesmo cômodo que os pais – seja em cama compartilhada, num berço ou moisés acoplado ou num colchão no mesmo quarto – têm mais sucesso regulando sua respiração e temperatura, apresentam menos sinais de estresse e mamam mais. Dormir em proximidade aos pais também pode proteger da síndrome da morte súbita infantil

É importante frisar que há diferentes formas de dormir junto do bebê (ou, para usar o termo inglês, praticar o co-sleeping). A mais culturalmente aceita é colocar o bebê para dormir num berço no quarto dos pais. Outra forma bastante comum na Europa e nos EUA é acoplar um bercinho ou moisés à cama do casal (o móvel até ganhou o nome de “co-sleeper”). A terceira opção – para muitos considerada “radical” – é a “cama compartilhada”, em que o bebê dorme junto dos pais na cama de casal (em inglês usa-se o termo “family bed”). Cabe ao casal discutir as três opções e escolher a que melhor lhe convém – sabendo, claro, que isso pode mudar de um dia para o outro, dependendo das necessidades e demandas de cada membro da família. Em um próximo post, darei entrarei em detalhes sobre como praticar o co-sleeping com segurança e prazer, incluindo depoimentos de quem fez essa opção e dicas de produtos que podem facilitar essa escolha.

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Seja qual for o método adotado, dormir em proximidade dos cuidadores (no mínimo no mesmo quarto) tem inúmeras vantagens:

  • facilita a amamentação (a proximidade poupa tempo e incentiva a produção da ocitocina, que ajuda na produção do leite);
  • fortalece o vínculo ( os pais se sentem mais próximos e mais ligados ao bebê, que por sua vez ganha mais atenção e carinho);
  • promove a rápida resposta às necessidades fisiológicas e emocionais da criança (que são muitas e não seguem uma rotina); 
  • tranquiliza os pais (que, por estarem perto, sabem que o bebê está bem).

Infelizmente, a primeira coisa que vem à mente quando se discute o quarto compartilhado são as supostas desvantagens – entre elas, a crença de que contribui para bebês mais dependentes, que dificultará a transição para a própria cama/o próprio quarto, e que prejudica a vida sexual do casal. Eu não vou dizer que isso não é verdade. Só vou sugerir algumas perguntas em contrapartida:

  1. Desde quando um bebê pequeno, que não anda e não fala nem se alimenta sozinho, é independente? Colocá-lo sozinho num ambiente estranho, sem calor humano, contribuirá para sua independência/autonomia – ou somente para sua solidão e aceitação da solidão?
  2. É possível criar um filho sem passar por momentos difíceis de transição? O nascimento já não é uma transição? Não faria sentido diminuir o número de eventos de transição no início da vida para que essa primeira fase no relacionamento pais e filhos seja mais suave e prazerosa? O que impede você de promover a transição para o próprio quarto quando a criança estiver, de fato, mais autônoma (andando, falando, curiosa para explorar o mundo)?
  3. Você acha mesmo que sua vida sexual será tão intensa quanto antes do bebê nascer – independente de onde ele for dormir? Você tem sofá/futon/chuveiro/ outros cômodos na casa? Sabia que, enquanto dorme, seu bebê não vai nem saber que você e o seu parceiro estão se divertindo um pouquinho?

Para finalizar, deixo vocês com as palavras proferidas pelo sábio pediatra espanhol Carlos González na entrevista à edição portuguesa da revista Pais e Filhos “Há muitas críticas ao co-sleeping. Que prejudica a autonomia da criança, que estraga o casamento… Se não prejudica o marido, não vai prejudicar o bebê. Há muitas mulheres que dormem com os seus maridos e isso não prejudica a sua independência, o seu crescimento, não acontece nada.”

[Ah, mais uma coisa, só para deixar claro: não tenho nada contra os lindos quartinhos de bebê das revistas. Só não sei se eles são os lugares mais apropriados para o bebê fazer essa transição ao mundo extrauterino. Afinal, acho que os sons e os cheiros de seus pais serão muito mais reconfortantes que o charmoso kit berço que lhes custou tanto ;-)]

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Como escolher uma cadeirinha para o carro/ bebê conforto?

A cadeirinha para carro Grupo 0 ou 0+ (para bebês até 10 ou 13 kg, respectivamente), conhecida popularmente como “bebê conforto”, é um item indispensável para a família que anda de carro. Transportar um bebê de colo sem esse acessório significa não só correr riscos desnecessários como também desafiar a lei. Mas isso tudo você já sabe (ou, se não sabe, veja o manual do Departamento Nacional de Trânsito sobre Segurança no Transporte de Crianças). O que é mais complicado, com tantas opções no mercado e opiniões divergentes, é escolher a  cadeirinha certa para transportar o seu bebezico. Sorte a sua, então, ter descoberto o blog de uma pesquisadora obsessiva que gosta de simplificar a vida das pessoas ;-).

Bom, primeiro vamos falar dos critérios obrigatórios:

  1. QUALIDADE: Ser bem projetada e fabricada por uma empresa de confiança, com materiais robustos, e ter demonstrado bom desempenho em testes de qualidade.
    Campeão de vendas, o Graco Snugride supera os requisitos de segurança dos EUA.

    Campeão de vendas, o Graco Snugride supera os requisitos de segurança dos EUA.

    Dicas: Procure marcas com tradição, de preferência europeias ou norte-americanas, já que nessas regiões as leis e os testes são mais rígidos e, portanto, a qualidade tende a ser melhor. Um teste feito pela Proteste em cadeirinhas do grupo 1 (a categoria para bebês acima de 9kg) encontrou falhas em vários modelos disponíveis no Brasil. Se você tiver condições de fazer seu enxoval no exterior, traga uma cadeirinha de lá: o custo/benefício é muito maior. Marcas europeias: Maxi Cosi (Bebé Confort é a “segunda linha” do mesmo grupo empresarial), Peg Perego (Burigotto é a “segunda linha”), Recaro. Marcas americanas: Graco, Chicco, Britax, UPPAbaby.

  2. CONDIÇÃO: Estar em boas condições de uso e não ter sofrido impacto anterior, o que pode ter danificado elementos estruturais da cadeira sem que você consiga perceber a olho nu.
    Dicas: Por mais tentador que seja, pense duas vezes antes de aceitar uma cadeirinha usada, pois ela pode estar com a estrutura comprometida. Nunca aceite uma cadeirinha cuja procedência você desconheça ou que tenha mais de 5 anos de uso.  A não ser que sua família não tenha condições de arcar com mais uma despesa e precise dessa doação, essa é uma economia que não vale a pena.
  3. ADEQUACÃO: Ser apropriada para o peso e o tamanho do bebê, que sempre deverá ser colocado de forma correta, como manda o manual. Caso contrário, a cadeirinha não estará protegendo a criança e poderá, inclusive, ser prejudicial.
    Repare como o cinto de 5 pontos do Britax Chaperone está bem ajustado no boneco (atente para os ombros).

    Repare como o cinto de 5 pontos do Britax Chaperone está bem ajustado no boneco (atente para os ombros).

    Dicas: Sugiro investir numa cadeirinha do grupo 0+ que suporta até 13kg, mas fique atento para a altura máxima também. É muito importante que a cabeça esteja bem sustentada a todo momento. Por isso, embora o peso seja o fator determinante para a categoria de cadeira, não esqueça de levar em conta a altura (especialmente se o seu bebê é comprido; ele pode atingir o limite de altura antes de chegar no peso máximo recomendado). Leia com atenção o manual antes de usar. E não esqueça de afivelar o cinto de 5-pontos (1 ponto em cada ombro, 1 de cada lado inferior e 1 central, entre as pernas) SEMPRE que for andar de carro com seu bebê.

  4. COMPATIBILIDADE: Caber no carro, no banco traseiro do veículo, seja na posição central (ideal se houver cinto de 3 pontos, mas pouco comum) ou lateral, atrás de um dos bancos dianteiros. Se as dimensões não forem compatíveis, a instalação não será bem feita.
    Dicas: Especialmente para quem tem um carro compacto, compensa tirar as medidas do banco traseiro (e da distância para o assento dianteiro) antes de sair às compras. Assim, você evita o estresse e o desgaste diário de ter que, na pior das hipóteses, devolver a cadeirinha e comprar outra ou, no mínimo, ter que andar apertada no banco da frente para permitir a instalação da cadeirinha no banco de trás.
  5. INSTALAÇÃO: Estar instalada corretamente no banco do carro, virada para trás, de forma que fique firme, sem chacoalhar mais de 2 ou 3 cm em cada direção.
    O sistema LATCH da Chicco Keyfit, considerado um dos modelos mais simples de instalar.

    O sistema LATCH da Chicco Keyfit, considerado um dos modelos mais simples de instalar.

    Dicas: Se você tiver um carro com Isofix  – ganchos acoplados à carroceria do veículo – (veja lista aqui), recomendo fortemente que compre uma cadeirinha compatível com esse sistema de fixação. Procure pelos nomes “Isofix” ou “LATCH”.  Esse dispositivo, além de garantir uma fixação muito mais forte – por ser afixado direto na carroceria, ao invés de usar o cinto – é muito mais seguro porque minimiza o erro na instalação. Infelizmente, não são vendidas cadeirinhas com Isofix no Brasil (leia mais aqui). Caso não seja uma opção para você, recomendo que procure vídeos na internet, leia o manual e instale a sua cadeirinha antes do bebê chegar. Treine bastante, ajustando bem o cinto, testando a fixação da cadeirinha, até você sentir segurança na sua habilidade de instalar a cadeirinha. Repito: é imprescindível que a cadeirinha esteja instalada corretamente.  Caso contrário, ela não vale de nada.

Agora para os opcionais:
  • Quer mais segurança e conforto para o bebê? Sugiro investir numa cadeirinha que tenha proteção lateral (SIP ou “side impact protection”).
  • Quer rapidez? Compre uma cadeirinha cuja base fique no carro (idealmente instalada com o Isofix) de tal forma que basta um clique para tirar a cadeirinha e levar o bebê para passear. Se tiverem mais de um carro, compre uma base extra.
  • Quer praticidade? Escolha uma marca que faça parte de um “travel system” (ex. Peg Perego ou Graco) ou compre um adaptador para poder acoplar a cadeirinha ao seu carrinho de bebê.
  • Quer poupar os seus braços? Compare o peso das cadeiras se a intenção é ficar muito tempo carregando o combo bebê conforto + bebê (mas saiba que isso geralmente implica em escolher uma cadeira com limite de peso mais baixo ou uma menos robusta e, portanto, menos segura).
  • Não quer abrir mão do visual? Opte por marcas europeias (como a Maxi Cosi/ Bebé Confort) ou pelo novíssimo e super aguardado lançamento da UPPAbaby, o Mesa infant car seat (compatível somente com os carrinhos da marca deles, por enquanto), que é liiiindo. [quem acompanha o blog ou me conhece pessoalmente sabe que eu tenho uma quedinha pela marca UPPAbaby ;-) ]

    Com proteção lateral e um visual "clean" o UPPAbaby Mesa nem foi lançado e já está bombando. Mas só é compatível com os carrinhos da marca.

    Com proteção lateral e um visual “clean”, o UPPAbaby Mesa nem foi lançado e já está bombando. Mas só é compatível com os carrinhos da marca.

Sei que já escrevi demais, mas queria deixá-los com algumas observações importantes sobre o uso das cadeirinhas infantis.

  • É importante lembrar que a função do bebê conforto é transportar o bebê com segurança. Por favor, não deixe seu bebê no bebê conforto por horas a fio – apesar do nome, não há nada de muito confortável nesse apetrecho (pelo menos não comparado aos braços de um outro ser humano)! Além de ser restritivo fisicamente e de contribuir para a síndrome da cabeça chata, a cadeirinha não é ergonomicamente ideal para sonecas nem oferece conforto e diversão para o bebê nos momentos em que ele está acordado.
  • Nunca coloque o bebê conforto solto numa superfície alta, tipo a bancada da cozinha ou uma mesa, quando o bebê estiver dentro. É preferível deixá-lo no chão ou acoplado no carrinho.
  • Por mais tentador que seja “fazer o upgrade” para uma cadeirinha em que o bebê fique voltado para a frente (Cadeirinhas do Grupo 1), a Academia Americana de Pediatria agora recomenda deixar o bebê viajar voltado para trás até os 2 anos de idade. Na Suécia e na Alemanha, é comum levar as crianças em cadeiras “rear-facing” até os 4 anos ou mais. O motivo é simples: estudos mostram que viajar assim é 5 vezes mais seguro! Se você lê inglês, visite o site Rear Facing para maiores informações.

Espero que este post tenha ajudado você a fazer uma boa escolha e um uso consciente da cadeirinha/ bebê conforto. Desejo a você e a seu bebê passeios seguros e prazerosos!

[Você poderá gostar também do post Como escolher um carrinho?]

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Um bebê saudável não é o bastante

Por que tantas mulheres aceitam indicações esdrúxulas de cesárea, agendam cirurgias desnecessárias, abandonam o sonho de parir e passam a contribuir para a vergonhosa estatística de nascimentos cirúrgicos do nosso país?

Sei que as respostas são tão variáveis quanto as pessoas que se depararam com essa escolha. Cada mulher tem a sua história, seus medos e suas motivações. Mas, como antropóloga, acredito que a cultura pró-cesárea pesa muito forte nessa hora. Afinal, se todas estão fazendo, não pode ser tão ruim (algumas até dizem que “parto normal é anormal, normal é a cesárea”). Optar pela cesárea, no nosso Brasil atual, representa um alívio. Significa não precisar mais nadar contra a maré, peitar Deus e o mundo, ser chamada de louca ou taxada de masoquista (“pra quê sofrer??”). Nessa nossa cultura de valores invertidos (onde o que importa é o produto e as aparências, não as pessoas e seus desejos) e machistas (em que a vagina ou é “assassina” ou é “o parquinho do marido”), submeter-se à cesárea é “pensar no bebê” e “insistir” no parto normal é egoísta.

Pois eu não concordo. Não mesmo. Primeiro porque, apesar das crendices e dos mitos de cordões assassinos e vaginas deformadoras de crânio, a ciência diz categoricamente que a via vaginal é a melhor via de nascimento para um bebê salvo em raríssimos casos. E segundo porque eu não acredito que o parto se resume ao nascimento de um bebê – ou melhor, à extração desse produto bebê do corpo (traiçoeiro, descontrolável, perigoso) de sua mãe. O parto é da mulher, do bebê e da família e merece ser vivido de forma plena, crua e totalmente personalizada (e não por isso menos segura e prazerosa), por essa família. Quando o parto se torna “um mal necessário” para conseguir “um bebê saudável” – como ocorre na nossa cultura – todos saem perdendo.

Eis que essa semana li um texto publicado no site da organização Improving Birth, cuja missão é promover o cuidado baseado em evidências e a humanização do parto e nascimento, que caiu como uma luva, e quero agora compartilhá-lo com vocês. Escrito pela Cristen Pascucci, vice-presidente da organização Improving Birth e especialista em política e comunicação, o original pode ser encontrado no seguinte link e a tradução segue abaixo. Espero que gostem do texto tanto quanto eu.

Um bebê saudável não é tudo o que importa
por Cristen Pascucci

Ouvimos toda hora que “um bebê saudável é tudo o que importa”. Isso simplesmente não é verdade – especialmente quando, com mais frequência do que deveria, o que queremos dizer é que, tanto para mães quanto para seus bebês, basta “sobreviver ao parto”. Isso não chega nem perto de ser bom o bastante.

A verdade é que hoje, aqui e agora, o padrão não só pode como deve ser mais alto: um bebê saudável, uma mãe saudável e uma experiência positiva e respeitosa para todos, centrada na família.

Por que isso é tão importante? Porque o que nós esquecemos quando o foco é meramente em “sobreviver” ao parto é que, para mães, dar à luz não representa só um dia entre muitos dias de suas vidas. Para a grande maioria de nós, o parto não se resume à extração de um feto de nossos úteros da maneira mais eficiente possível.

O parto é uma experiência marcante, que fica gravada na memória para sempre. Pergunte à maioria das mães como foi o seu parto e você vai ver e ouvir a emoção vir à tona enquanto compartilham suas histórias – histórias estas que, boas ou ruins, nós revivemos intensamente e com frequência, queiramos ou não. E não esqueçamos que nossas experiências podem ter consequências importantes, duradouras e permanentes para a nossa saúde. O parto afeta o puerpério (quem nunca ouviu falar nos baby blues, aquela melancolia pós-parto?), os relacionamentos com nossos bebês e nossas famílias, e nossas atitudes perante nós mesmas e os partos que teremos no futuro.

Para os bebês, trata-se de sua primeira impressão do mundo e daqueles que serão seus principais cuidadores. Estamos comunicando aos nossos bebês desde o primeiro dia o que é o mundo, se é ameaçador ou seguro, e como nos relacionamos com esse mundo. Essa relação não poderia ser muito melhor se adentrássemos a maternidade fortalecidas pelo parto, confiantes e apoiadas?

É claro que no mundo real o parto não segue o padrão de um livro texto; complicações, mudanças de planos e desfechos indesejados acontecem. Mas mesmo nesses casos, uma mulher ainda pode ser respeitada e apoiada. Talvez não sejamos capazes de controlar a natureza, mas podemos sim controlar como tratamos as mulheres durante o trabalho de parto e nascimento. Até quando acontece o pior (especialmente quando acontece o pior!), não há nenhuma desculpa para um tratamento que não demonstre o máximo de respeito, deferência e compaixão pela parturiente enquanto ela faz suas escolhas.

Porque o que é mais curioso sobre a frase de “bebê saudável” é que, com tanta frequência, ela é empregada para justificar uma experiência decepcionante, difícil ou traumática. É dita por nossos médicos, nossos amigos e nossos parentes enquanto ainda não nos recuperamos do choque do que acabou de acontecer: enquanto tentamos entender uma experiência que fugiu, inesperadamente, ao nosso controle. E sim, também dizemos a frase para nós mesmas.

Então qual é a peça chave para um novo padrão? Somos nós! São as mulheres cujo dinheiro alimenta a indústria que nos provê desses serviços e cuidados. Embora muitas não tenham se tocado disso, somos nós que estamos com a faca e o queijo na mão. Imagine o que aconteceria se nós, milhões de mães e pais e seus amigos, de fato tomássemos para nós esse poder e fizéssemos uso dele.

Podemos começar pela educação, nos informando sobre o que seria um cuidado digno – respeitoso, baseado em evidências – e daí passando a buscar esse cuidado com consciência crítica quando conversamos com potenciais médicos. Podemos ficar atentos aos sinais de alerta – coisas como ouvir do médico que “não será permitido” ou que você “não pode” fazer tal coisa – e parar de ignorar nossos instintos! Na minha opinião, escutar uma frase como “um bebê saudável é a única coisa que importa” se encaixa nessa categoria. Essa frase me diz, “o que quer que aconteça na sala de parto/centro cirúrgico, você não terá o direito de reclamar. Se nós lhe entregarmos um bebê vivo, fizemos o nosso trabalho.”

Por fim, e talvez o que é mais importante, podemos exercer o nosso poder abandonando aqueles médicos que não nos oferecem bebês saudáveis, mães saudáveis e uma experiência positiva, respeitosa e centrada na família.

Para mães e bebês, sobreviver ao parto não é o bastante. É só o ponto de partida.

"Pelo menos você tem um bebê saudável", criado por Meghan Rodberg.

“Pelo menos você tem um bebê saudável”, criado por Meghan Rodberg.

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Por que vale tanto a pena ter uma doula?

Há um ano, a palavra doula era praticamente desconhecida. Hoje, graças à mídia tradicional, às redes sociais e ao famoso (e muito eficaz) “trabalho de formiguinha”, mais gente já ouviu falar nas doulas e em seu trabalho. E agora, no dia 31 de janeiro, o Ministério do Trabalho reconheceu o trabalho da doula ao incluí-lo oficialmente na Classificação Brasileira de Ocupações. Viva!

Mas para quem (ainda) não sabe, a doula é uma profissional capacitada a acompanhar a mulher durante a gestação, parto e puerpério, oferecendo apoio emocional e físico, bem como informações embasadas cujo intuito é capacitar a mulher a fazer suas próprias escolhas. Estudos comprovam os benefícios de estar acompanhada por uma doula durante o trabalho de parto e o parto propriamente dito. O folder abaixo faz um belo resumo dessas vantagens (para maiores informações, confira o site do Núcleo Carioca de Doulas).

Folder Núcleo Carioca de Doulas

É preciso deixar bem claro que a doula não é uma profissional de saúde (médico, parteira, enfermeira), muito menos substitui o pai ou acompanhante familiar na hora do parto. Se eu tivesse que descrever a doula em poucas palavras, eu diria que é uma pessoa que saca muito de gravidez, parto, amamentação, cuidados com o bebê e que só quer o seu bem. É ela que, por não ter nenhum outro interesse em jogo, vai ajudá-la a descobrir o que você espera e deseja do processo e que vai ficar do seu lado, zelando pelos seus interesses e pelo seu conforto.

  • Antes do parto, a doula escuta você e fornece informações baseadas em evidências.
  • Na hora P, ela oferece massagens, suporte emocional, carinho e fica sempre do seu lado.
  • No delicado período pós-parto, ela estará com você para facilitar a amamentação, tirar suas dúvidas, dar um carinho e, eventualmente, ajudar nas pequenas tarefas da casa.

(As possíveis atribuições de uma doula são muitas e cabe a você conversar com a sua para saber como ela pode atendê-la da melhor forma possível.)

Ao contrário do que você poderá ouvir de médicos, da mídia ou de leigos, a doula não é um modismo nem algo que surgiu na modernidade. Sem querer polemizar, mas eu diria que a verdadeira profissão mais antiga do mundo é a da doula – com a pequena diferença de que, antigamente, elas não eram pagas por isso! As doulas eram amigas, irmãs, mães, que vinham dar carinho e suporte para a mulher durante o momento intenso e transformador do parto. Confira abaixo o eclético slideshow que montei para provar o quão antigo e belo é esse valioso trabalho.

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A meu ver, a doula é, acima de tudo, uma boa e experiente amiga; alguém que entende você, que tem profundo conhecimento e compaixão pelo momento transformador pelo qual você está passando, e que saberá conduzi-la à sua própria verdade e a uma força que nem você sabia que tinha. Ela é uma cheerleader (torcendo por você), uma figura maternal (para quem você pode mostrar seus medos, suas fraquezas) e um porto seguro (que ficará do seu lado quando/se as coisas ficarem punk).

Para quem busca viver o período da gestação e parto de forma natural, humanizada e consciente – ou seja, em seus próprios termos, sem sucumbir a interesses alheios – a doula poderá ser uma peça valiosíssima. E, de quebra, é capaz de você ganhar uma amiga para toda a vida.

E se lhe perguntaram “pra quê ter uma doula?”, você pode responder: “Sei lá, pra quê ter uma amiga?”

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