Um bebê saudável não é o bastante

Por que tantas mulheres aceitam indicações esdrúxulas de cesárea, agendam cirurgias desnecessárias, abandonam o sonho de parir e passam a contribuir para a vergonhosa estatística de nascimentos cirúrgicos do nosso país?

Sei que as respostas são tão variáveis quanto as pessoas que se depararam com essa escolha. Cada mulher tem a sua história, seus medos e suas motivações. Mas, como antropóloga, acredito que a cultura pró-cesárea pesa muito forte nessa hora. Afinal, se todas estão fazendo, não pode ser tão ruim (algumas até dizem que “parto normal é anormal, normal é a cesárea”). Optar pela cesárea, no nosso Brasil atual, representa um alívio. Significa não precisar mais nadar contra a maré, peitar Deus e o mundo, ser chamada de louca ou taxada de masoquista (“pra quê sofrer??”). Nessa nossa cultura de valores invertidos (onde o que importa é o produto e as aparências, não as pessoas e seus desejos) e machistas (em que a vagina ou é “assassina” ou é “o parquinho do marido”), submeter-se à cesárea é “pensar no bebê” e “insistir” no parto normal é egoísta.

Pois eu não concordo. Não mesmo. Primeiro porque, apesar das crendices e dos mitos de cordões assassinos e vaginas deformadoras de crânio, a ciência diz categoricamente que a via vaginal é a melhor via de nascimento para um bebê salvo em raríssimos casos. E segundo porque eu não acredito que o parto se resume ao nascimento de um bebê – ou melhor, à extração desse produto bebê do corpo (traiçoeiro, descontrolável, perigoso) de sua mãe. O parto é da mulher, do bebê e da família e merece ser vivido de forma plena, crua e totalmente personalizada (e não por isso menos segura e prazerosa), por essa família. Quando o parto se torna “um mal necessário” para conseguir “um bebê saudável” – como ocorre na nossa cultura – todos saem perdendo.

Eis que essa semana li um texto publicado no site da organização Improving Birth, cuja missão é promover o cuidado baseado em evidências e a humanização do parto e nascimento, que caiu como uma luva, e quero agora compartilhá-lo com vocês. Escrito pela Cristen Pascucci, vice-presidente da organização Improving Birth e especialista em política e comunicação, o original pode ser encontrado no seguinte link e a tradução segue abaixo. Espero que gostem do texto tanto quanto eu.

Um bebê saudável não é tudo o que importa
por Cristen Pascucci

Ouvimos toda hora que “um bebê saudável é tudo o que importa”. Isso simplesmente não é verdade – especialmente quando, com mais frequência do que deveria, o que queremos dizer é que, tanto para mães quanto para seus bebês, basta “sobreviver ao parto”. Isso não chega nem perto de ser bom o bastante.

A verdade é que hoje, aqui e agora, o padrão não só pode como deve ser mais alto: um bebê saudável, uma mãe saudável e uma experiência positiva e respeitosa para todos, centrada na família.

Por que isso é tão importante? Porque o que nós esquecemos quando o foco é meramente em “sobreviver” ao parto é que, para mães, dar à luz não representa só um dia entre muitos dias de suas vidas. Para a grande maioria de nós, o parto não se resume à extração de um feto de nossos úteros da maneira mais eficiente possível.

O parto é uma experiência marcante, que fica gravada na memória para sempre. Pergunte à maioria das mães como foi o seu parto e você vai ver e ouvir a emoção vir à tona enquanto compartilham suas histórias – histórias estas que, boas ou ruins, nós revivemos intensamente e com frequência, queiramos ou não. E não esqueçamos que nossas experiências podem ter consequências importantes, duradouras e permanentes para a nossa saúde. O parto afeta o puerpério (quem nunca ouviu falar nos baby blues, aquela melancolia pós-parto?), os relacionamentos com nossos bebês e nossas famílias, e nossas atitudes perante nós mesmas e os partos que teremos no futuro.

Para os bebês, trata-se de sua primeira impressão do mundo e daqueles que serão seus principais cuidadores. Estamos comunicando aos nossos bebês desde o primeiro dia o que é o mundo, se é ameaçador ou seguro, e como nos relacionamos com esse mundo. Essa relação não poderia ser muito melhor se adentrássemos a maternidade fortalecidas pelo parto, confiantes e apoiadas?

É claro que no mundo real o parto não segue o padrão de um livro texto; complicações, mudanças de planos e desfechos indesejados acontecem. Mas mesmo nesses casos, uma mulher ainda pode ser respeitada e apoiada. Talvez não sejamos capazes de controlar a natureza, mas podemos sim controlar como tratamos as mulheres durante o trabalho de parto e nascimento. Até quando acontece o pior (especialmente quando acontece o pior!), não há nenhuma desculpa para um tratamento que não demonstre o máximo de respeito, deferência e compaixão pela parturiente enquanto ela faz suas escolhas.

Porque o que é mais curioso sobre a frase de “bebê saudável” é que, com tanta frequência, ela é empregada para justificar uma experiência decepcionante, difícil ou traumática. É dita por nossos médicos, nossos amigos e nossos parentes enquanto ainda não nos recuperamos do choque do que acabou de acontecer: enquanto tentamos entender uma experiência que fugiu, inesperadamente, ao nosso controle. E sim, também dizemos a frase para nós mesmas.

Então qual é a peça chave para um novo padrão? Somos nós! São as mulheres cujo dinheiro alimenta a indústria que nos provê desses serviços e cuidados. Embora muitas não tenham se tocado disso, somos nós que estamos com a faca e o queijo na mão. Imagine o que aconteceria se nós, milhões de mães e pais e seus amigos, de fato tomássemos para nós esse poder e fizéssemos uso dele.

Podemos começar pela educação, nos informando sobre o que seria um cuidado digno – respeitoso, baseado em evidências – e daí passando a buscar esse cuidado com consciência crítica quando conversamos com potenciais médicos. Podemos ficar atentos aos sinais de alerta – coisas como ouvir do médico que “não será permitido” ou que você “não pode” fazer tal coisa – e parar de ignorar nossos instintos! Na minha opinião, escutar uma frase como “um bebê saudável é a única coisa que importa” se encaixa nessa categoria. Essa frase me diz, “o que quer que aconteça na sala de parto/centro cirúrgico, você não terá o direito de reclamar. Se nós lhe entregarmos um bebê vivo, fizemos o nosso trabalho.”

Por fim, e talvez o que é mais importante, podemos exercer o nosso poder abandonando aqueles médicos que não nos oferecem bebês saudáveis, mães saudáveis e uma experiência positiva, respeitosa e centrada na família.

Para mães e bebês, sobreviver ao parto não é o bastante. É só o ponto de partida.

"Pelo menos você tem um bebê saudável", criado por Meghan Rodberg.

“Pelo menos você tem um bebê saudável”, criado por Meghan Rodberg.

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16 Comentários

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16 Respostas para “Um bebê saudável não é o bastante

  1. Eu sonhava antes de ter filhos em ter um parto natural, eu achava lindo, uma experiencia quase espiritual.
    Quando engravidei descobrir que a coisa era bem diferente, descobri que para mim não existia essa opção.
    Minha condição, e da minha família, financeira e social, não permitiu muita luta contra a sociedade: “ou você faz do jeito que todo mundo faz ou vai pro SUS e passar por coisa pior”
    Há histórias e histórias, cada mulher tem a sua, espero continuar lendo, aprendendo e lutando por mais respeito, mesmo que eu mesma não tenha tido isso, pois não quero uma história igual para minhas filhas e minha irmã mais nova. Sei que pra mim é tarde pra viver esse sonho, mas elas vão ter essa escolha se quiserem vive-la, eu vou me esforçar para dar isso a elas.

  2. Tudo a ver com o que passei e com o que penso sobre o assunto. Posso colocar a tradução no meu blog atribuindo os créditos?

    • Pode sim, Juliana! Por favor coloque o nome da autora do texto, Cristen Pascucci, o link para a matéria original e o meu crédito de tradutora, Clarissa Oliveira do blog A mãe que quero ser! Vamos espalhar essa mensagem! Obrigada e abraço, Clarissa.

  3. Clotilde Maria Korndorfer

    Talvez de todo o texto a frase mais marcante para mim foi:”controlar como tratamos as mulheres durante o trabalho de parto e nascimento(…) não há nenhuma desculpa para um tratamento que não demonstre o máximo de respeito, deferência e compaixão pela parturiente enquanto ela faz suas escolhas.” Viajei com uma mãe de menininha de 2 anos esta semana que me disse ter buscado muito um parto natural ( em uma cidade como a nossa com mais de 85% e de cesáreas pelo SUS!) e ela mencionou que o parto foi ” muito bom”…só que ficou 17h em trabalho de parto, sozinha no hospital..e que o o médico lhe dissera: ” Ah é, você quer ter parto normal, então vai ter…” Tão chocante, não é? Imaginem se ela tivesse tido o respeito e a deferência que uma parturiente merece!!??

  4. Olá Clarissa, adorei seu blog e os comentários que você deixou nos meus posts! Esse texto da Cristen é sensacional e eu também gostaria de pedir autorização para postá-lo depois (com os devidos créditos, claro!).

    Já vou colocar seu blog nos meus favoritos!

    Beijão

  5. Pingback: Um Bebê Saudável Não é o Bastante | Bibliografia da Doula

  6. Clarissa, eu sou Nana, A Louca do Bebê, mas pode me chamar da louca do parto. Rsrs Conheci o teu blog agora, através do Super Duper, li alguns posts, achei tudo maravilhoso! Lembrei do texto que escrevi essa semana, pensei em te mostrar, mas sabe vergonha da pessoa que nem é tentante falando dessas coisas com alguém muito experiente? Daí eu descubro que você começou o blog como tentante! Puxa! Uma igual! Fiquei muito mais confortável pra fazer o convite: dá uma lida nesse texto, se tiver um tempo? Queria muito que fosse lido por uma antropóloga, até faço o chamamento, mas acho que não tem nenhuma entre as leitoras. Rsrs
    http://aloucadobebe.blogspot.com.br/2013/03/o-medo-morte-o-bungy-e-o-parto.html?m=0
    Que bom encontrar o teu blog. Assim que puder, lerei os posts antigos. Daqui pra frente, todos serão lidos!
    Grande abraço.

    • Oi Nana, adorei o nome do seu blog. Vou ler tudo assim que tiver um tempinho. Muito bom saber que além de mim têm outras mulheres loucas para serem mães e que levam isso a sério (sem cair na neurose – embora eu tenha minhas dúvidas se minha loucura às vezes não foi longe demais, rsrs). Vou ler o seu post e deixar meu comentário. Um abraço fraterno, Clarissa

  7. Olá,
    Depois de acompanhar muitos blogs, percebi que há uma grande ignorância da sociedade em geral e às vezes de muitas mulheres também com relação aos seus direitos.
    Tocada por essa vontade de mudar tudo, resolvi criar um blog para informar sobre o direito das mulheres e também ajudar as mulheres que tiveram seus direitos violados.
    Gostaria de divulgar aqui o endereço do meu blog: http://odireitodamulher.blogspot.com.br/

    O blog é novo, criei ele ontem, mas espero poder alcançar e ajudar muitas mulheres com meu trabalho.

    Obrigada.

    Beijos.

  8. Republicou isso em Um filhote de leãoe comentado:
    Maravilhoso texto publicado originalmente no blog “A mãe que quero ser”

  9. Pingback: Um bebê saudável não é o bastante | Pense bem antes de fazer uma cesariana

  10. Anna Carolina

    Gostei muito do texto, tudo a ver com o que penso, o parto e um dos momentos mais importantes da vida de uma mulher, e ser tratada com amor e respeito neste instante, deveria ser sagrado. Obrigada.

  11. Tenho 24 anos, estou gravida do meu primeiro bebe. Moro no norte do Paraná, aqui os médicos os hospitais não dão liberdade nenhuma para as mulheres. Confesso que estou com medo, pois, queria poder parir da forma mais natural e amorosa, gostaria q estivessem presentes minha mãe e meu esposo, gostaria também que pudesse escolher a posição mais agradável p ver minha sementinha chegando a este mundo. Sei que nada disso vai acontecer, defendo o parto Humanizado, todas as vezes que compartilho qualquer coisa q fala a esse respeito na minha pagina da rede social, as reações das mulheres são diferentes, a maioria diz q “eu preciso parar d ler sobre essas coisas pois, o que tiver q ser será, Deus vai estar comigo”. Acho que só Ele mesmo.

    • Bruna, parabéns pela gravidez! Espero que você esteja curtindo, apesar dos desafios de ser uma gestante em busca de um parto humanizado no Brasil. Você conhece a comunidade Cesárea? Não, Obrigada! no Facebook? Sugiro que você solicite participação lá, pois encontrará pessoas como você e dicas de onde procurar apoio na sua cidade ou região. Acredite: seu parto está nas suas mãos. Correndo atrás e persistindo, você encontrará uma equipe bacana para te acompanhar nesse momento tão especial. Abraço, Clarissa

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