Série Inspiração: Grantly Dick-Read sobre a dor do parto

Um dos temas que mais dá ibope quando o assunto é parto é a famosa e abominável DOR. Se nos pautarmos pelas imagens que vemos em novelas e filmes , ou pelas conversas com mulheres que tiveram experiências traumáticas ao parir, é compreensível chegarmos à conclusão de que “parto = dor” e ponto final. Não é de se espantar que tantas pessoas fogem do parto normal por causa da crença de que parir necessariamente significa sofrer. Mas quem disse que é sempre assim?

Talvez um dos primeiros a questionar a obrigatoriedade da relação “parto = dor” foi o obstetra inglês Grantly Dick-Read no início do século XX, considerado um dos pais do movimento em prol do parto natural. O clássico Childbirth without Fear (Parto sem medo), publicado sob o título “Revelations of Childbirth” (Revelações do Parto) em 1942 e concluído em 1959, colocou um ponto de interrogação nessa relação e ofereceu a gerações de mulheres um arcabouço interessante para repensar essa ligação – e desfazê-la! Não é à toa que o livro continua disponível no mercado há mais de meio século (não em português, infelizmente) e que tenha servido de inspiração para “gurus” do parto natural como Michel Odent e Ina May-Gaskin.

Grantly Dick-Read (1890-1959), um verdadeiro herói

O trecho que selecionei para o quarto post da série Inspiração foi traduzido do capítulo 3, em que Dick-Read nos revela o episódio que transformou para sempre a sua carreira e a vida de várias mulheres, que com sua orientação conseguiram parir sem medo e sem dor.

Uma filosofia do parto

Frequentemente me pergunto se a mulher de Whitechapel, cujo nome esqueci há muitos anos, tem noção da enorme influência que teve em minha vida por conta de um simples comentário que me fez. Por alguma razão a situação como um todo deixou uma impressão indelével na minha mente, embora na época eu não fazia ideia de que seria a semente que mudaria o curso de minha vida.

De bicicleta, vencendo a lama e chuva, chegara à Rua Whitechapel, entre duas e três horas da madrugada, e virara à direita e à esquerda, e depois inúmeras direitas e esquerdas, até chegar a um casebre perto dos arcos da ferrovia. Tateei e tropecei ao subir por uma escada na penumbra e finalmente abri a porta de um quarto de aproximadamente 10 metros quadrados. Havia uma poça d’água no chão do quarto, a janela estava quebrada, a chuva entrando pelo vão, a cama não estava feita e um dos lados era sustentado por uma caixa de açúcar. Minha paciente estava deitada, coberta com sacos e uma velha saia preta. O quarto estava iluminado por uma única vela, colocada na boca de uma garrafa de cerveja sobre uma estante. Uma vizinha trouxera uma jarra d’água e uma bacia; eu tivera que trazer meu próprio sabão e uma toalha. Apesar deste ambiente – que mesmo há trinta anos era uma desgraça em qualquer país civilizado – logo me dei conta de que havia uma atmosfera de quietude e benevolência.

Em tempo nasceu o bebê. Não havia comoção ou barulho. Tudo parecia transcorrer de acordo com um plano regrado. Houve somente um ponto de discórdia: eu tentara convencer minha paciente a permitir que eu colocasse uma máscara sobre o seu rosto e administrasse um pouco de clorofórmio [um anestésico popular na época] quando avistei a cabeça do bebê e a dilatação do canal era evidente. Ela, no entanto, se ressentiu da sugestão e com firmeza, porém docilmente, recusou essa ajuda. Era a primeira vez em minha curta experiência que eu fora recusado ao oferecer clorofórmio. Antes de partir perguntei a ela por que ela não quis a máscara. Ela não respondeu de imediato, mas olhou para a senhora que havia lhe assistido e para a janela pela qual entravam os primeiros raios do amanhecer; depois virou-se para mim e, tímida, respondeu: ‘Não estava doendo. Não era para doer, era, doutor?’

Nas semanas e meses que se seguiram, quando eu sentava com mulheres em trabalho de parto, mulheres que pareciam estar aterrorizadas e em agonia por conta do parto, essa frase voltava a retumbar em meus ouvidos: ‘Não era para doer, era, doutor?’ até que, finalmente, mesmo com minha mente ortodoxa e conservadora, comecei a ver a luz. Comecei a perceber que não havia nenhuma lei da natureza e nenhuma regra que justificaria a dor do parto. Não muitos anos mais tarde a guerra me levou a terras estrangeiras. Lá presenciei mulheres dando a luz de forma muito natural e aparentemente sem dor, mas também vi aquelas que sofreram com a dor e cujas lembranças do nascimento do filho eram experiências horríveis. Quando a guerra por fim cessou e eu voltei a exercer a medicina no Hospital de Londres, como residente em obstetrícia, o mesmo problema ocorreu. A maioria das mulheres aparentava sofrer muito, mas volta e meia conhecia uma mulher calma que não desejava anestésicos nem parecia estar passando por um desconforto insuportável.

Era muito difícil explicar por que uma deveria sofrer enquanto a outra aparentava não sentir dor alguma. Não parecia haver muita diferença nos partos em si; ambas tinham que fazer o mesmo esforço; o fator tempo não divergia tanto um do outro. […] No entanto, aos poucos ficou claro para mim que era a paz de um trabalho de parto relativamente indolor que o destacava dos outros. Havia uma calma, parecia até mesmo uma fé, no desfecho normal e natural do parto.

*

A conclusão do dr. Dick-Read sobre a origem e o mecanismo da dor do parto fica para um próximo post (prometo!). O que quero deixar para você hoje é uma sementinha: tecnicamente, é possível ter uma experiência semelhante à jovem de Whitechapel e parir sem sofrimento! E mesmo que não seja totalmente indolor, é justo esperar que, no ambiente apropriado, com a assistência adequada, as sensações intensas provocadas pelo trabalho de parto não sejam tão insuportáveis quanto as cenas das novelas nos levam a crer. Afinal, existem muitas formas de aliviar a dor – desde massagens, carinho, água quente, meditação e anestésicos – e uma boa equipe saberá oferecê-las se for preciso (mais sobre isso no futuro).

O recado do post de hoje é este: Se você nunca passou pelo parto antes, ou se nunca vivenciou este momento com a tranquilidade e o apoio que tal evento merece, como pode saber que não suportará as dores? Em vez de fugir do parto normal por medo da dor será que não vale a pena se munir do conhecimento e das ferramentas necessárias e esperar para ver como será a sua experiência?

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8 Comentários

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8 Respostas para “Série Inspiração: Grantly Dick-Read sobre a dor do parto

  1. Conheço o seu blog há pouco tempo, mas acho ótimo e volto sempre que tem um post novo. Esse texto foi tão bom de ler, adoro quando vejo as pessoas saindo daquele pensamento engessado e se permitindo enxergar as coisas por outro panorama, se questionando!

  2. Ah não, escrevi um comentário e meu navegador travou na hora de publicar!
    Eu tinha falado que leio o blog há pouco tempo mas volto sempre que tem post novo. Desse então, eu gostei demais porque amo ver as pessoas se permitindo ver as coisas por um novo panorama, gosto quando vejo em alguém esse espírito questionador e ao mesmo tempo a humildade de se dar conta que pode estar enganado e procurar observar de novo, dessa vez com a mente mais aberta…
    Um abraço!

  3. Eveline

    Ai meu Deus, que coisa mais linda.. todas as palavras desse post, são tão doces e suaves.
    É tão triste saber que para termos um parto natural temos que LUTAR muito para conseguir. Não na hora de parir, mas a luta acontece antes desse momento, uma pena, pois sei que muita gente desiste nesse percurso. Nem as culpo, eu posso até ser uma delas, é o sistema que as vezes faz com que sigamos para outro caminho. Deus me permita conseguir e vencer essa luta!
    Parabéns pelo blog.

  4. Como sempre fantastico seu post, vou inclusive compartilhar e dedicar a uma amiga que nunca pariu e moooooooooooorre de medo ada dor.
    Eu por minha vez pari dois e foram partos maravilhosos de prazer e luz,pouco tempo de PT ativo, o que sinceramente me tirou a tranquilidade foram as intervenções desnecessarias, por isso sou a favor do Parto Domiciliar pois acredito como diz o Odent, em “O nascimento dos mamíferos humanos”:~(vou parafrasear o que diz o texto) “a mulher quando não se sente observada, e é deixada em paz, e pode se sentir segura durante o TP, consegue passar pela transição com maior serenidade, pois o cerebro libera a quantidade necessaria dos homornios que atuam no TP e parto facilitanto assim essa transição e em alguns provocando um um extase inexplicavel”(é assim com todos os mamiferos e não seria diferente com os mamiferos humanos) Eu creio que assim como o ato sexual, é um evento intimo e que requer preparação, sentir-se segura e poder particicipar ativamente do proprio parto, ser a protagonista junto com o bebe ao inves de paciente faz toda diferença nesse momento impar de vida e luz. @mo_parir!

  5. Roberta

    Quero ter parto normal, mas é óbvio que tem que doer um bebê sair de um lugar menor do que ele. Também não dá pra se iludir!

  6. Patrícia

    Eu tive meu primeiro parto normal e passei muita dor… mas na verdade nem lembro dela no momento em q meu filho nasceu exatamente, mas sim das insuportáveis contrações finais…rs
    No entanto não me ative a essa experiência como uma regra… tanto q na minha segunda filha também queria repetir o normal. Infelizmente não foi possível, mas estou na 3a gestação e vou tentar novamente o natural.
    E apesar d no meu caso ter sido dolorido, concordo plenamente com o post: cada organismo é diferente, e não é pq uma sofre q todas devem sofrer. E vou mais além: não é pq no meu primeiro parto sofri, q sofrerei em outro…
    E particularmente, costumo imaginar essa dor (no caso d existir) como uma pequena amostra do q eu sou capaz d suportar por um filho.
    Afinal, se me proponho a morrer por ele, tenho q saber suportar qq incômodo ou dor q possa sentir em função dele.
    Não acho justo se privar da mágica desse momento simplesmente por medo d dor…
    Considero isso um motivo muito fraco e fútil.

  7. Pingback: Nenhuma outra função corporal natural dói e o parto não deve ser exceção | Pense bem antes de fazer uma cesariana

  8. Pingback: Série Inspiração: Grantly Dick-Read Sobre a Dor do Parto | Bibliografia da Doula

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