SBP, Nestlé e como essa aliança afeta você (parte 3)

Agora que você já sabe que o “diagnóstico” de pouco leite é balela (na grande maioria dos casos) e que o leite artificial não deve ser a primeira opção caso você precise ou queira complementar, quero falar sobre duas crendices populares que  podem não ter surgido diretamente das empresas de leite, mas que contribuem para diminuir os índices de aleitamento materno. Resolvi incluí-los por que acho que precisamos nos conscientizar de sua existência para, só assim, combatê-los.

Mentira #3: Amamentar faz o peito cair

Um dos mitos mais enraizados sobre a amamentação costuma aparecer em comentários inocentes, tipo: “depois de amamentar 3  filhos, meu peito nunca mais foi o mesmo” ou “fulana amamentou e depois teve que colocar silicone”. A amamentação não faz o peito cair. O que faz o peito cair é a gravidade e, acredite, a gravidez. O crescimento das mamas, as mudanças hormonais e a predisposição genética (além do Tempo, claro!) são os culpados pela mudança na aparência dos seios. Até os cirurgiões plásticos já reconheceram isso!

Mentira #4: Quem pode se dar o luxo de escolher escolhe a mamadeira (versão politicamente correta de “amamentar é coisa de pobre”)

Releitura nefasta do clássico de Rafael, impresso ca. 1934

A indústria que produz leite artificial existe há mais de um século e está mais forte do que nunca. A urbanização gerou melhores sistemas de esgoto e água, as condições de higiene melhoraram,  e os antibióticos e tratamentos para controlar doenças estão cada dia mais eficazes, contribuindo para uma crescente segurança para usuários do LA. Ou seja, a fórmula pode piorar a saúde de uma criança, mas dificilmente irá matá-la. Com isso, a verdade é que amamentar tornou-se “opcional”.  Mas quem disse que é a opção menos atraente?

Vou dar o meu pitaco. Nesse mundo cada vez mais “tecnocêntrico”, onde produção, consumo e o acúmulo de bens são supremos, amamentar se tornou sinônimo de “antiquado” ou “primitivo”; chique e moderno é dar mamadeira. Isso é cultural e vai além da recente e crescente “masculinização” dos nossos valores. As raízes da crença irracional de que não amamentar é sinônimo de status estão nas práticas da antiga aristocracia, que delegava a alimentação de seus bebês para as amas de leite. O motivo dessa terceirização é complexo: por um lado, existiam crenças de que o sêmen contaminava o leite (ou seja, era proibido ter relações sexuais) e, as mulheres em condição de “servas do marido”, não podiam deixar os maridos “na mão” (literalmente!). Por outro lado, havia uma necessidade de gerar muitos herdeiros, e a amamentação exclusiva e prolongada reduzia a fecundidade. E assim, como é de praxe em toda cultura, o que antigamente era uma prática da elite virou “moda” e “desejo” das classes mais baixas.

Felizmente, a onda agora é outra: celebridades globais, modelos, atrizes, cantoras e princesas amamentam e se encarregam de levantar a bandeira da amamentação. Quem disse que amamentar é coisa de pobre, ou de hippie, ou de quem não tem escolha?

Bom, agora que já ficou nítido que o maior empecilho para a amamentação é a falta de informação confiável – em parte, por causa da força da indústria de LA, dos pediatras coniventes e dos mitos e crendices da sociedade como um todo – o que você pode fazer, efetivamente, para aumentar as chances de não cair na armadilha da “necessidade de complementação”  e se tornar cliente dessas empresas?

10 dicas para aumentar as chances de amamentar exclusivamente até os primeiros 6 meses

1. No final da gravidez, faça uma aula de amamentação, conheça o básico do processo, assista a vídeos instrutivos e comece a se preparar física e emocionalmente para amamentar um recém-nascido.

2. Encontre um pediatra favorável ao aleitamento materno exclusivo. Converse com ele ou ela antes de o seu filho nascer, para ver qual é  sua filosofia. Preste atenção em qualquer folheto ou brinde (caderno, lápis etc) com o logo de alguma empresa. Isso não é um bom sinal.

3. Não autorize o uso de complemento na maternidade. O leite demora mesmo a descer – 3 dias, aproximadamente – e a natureza é sábia. Ofereça o colostro e coloque o neném para mamar sempre que ele desejar (ou de acordo com a orientação da enfermeira ou da consultora). Sugiro também não marcar o seu parto. O ideal é parir naturalmente, mas, se não for essa sua preferência ou se não for possível, evite agendar a cesárea e entre em trabalho de parto. Isso aumenta as chances de o bebê estar em condições de sugar.

4. Proteja-se dos palpiteiros (mãe, sogra, tias, amigas) com informações embasadas e apoio de pessoas que acreditam na sua causa- de preferência “especialistas” (médicos, cientistas, OMS, consultor de amamentação). [Prometo escrever um manual sobre como se proteger dos palpiteiros de plantão em breve]

5. Se você faz o tipo consumista (como eu!), vá às compras e procure sutiãs, chás, blusas e produtos próprios para a amamentação. Não compre mamadeiras nem, obviamente, leite artificial.

6. Se o seu recém-nascido não estiver ganhando peso, entre em contato com um banco de leite da sua cidade e faça a complementação com sonda, para continuar a estimular a sua produção.

7. Saiba que é normal ter dificuldades no início. Tem mulher que acha tudo moleza; a maioria não. Se você pertence a essa segunda classe, não se desespere: com o apoio certo, uma boa dose de paciência e talvez um empurrãozinho da medicina, vai acabar engrenando. E quando isso acontecer, você terá muito orgulho de si.

8. Se você for voltar ao trabalho antes de o neném completar os 6 meses, invista numa bomba para tirar o leite e programe-se para tirar o leite no mês (ou meses) anteriores à sua volta. E não pare de amamentar: você pode continuar a oferecer o peito de manhã, na hora do almoço (se possível), quando voltar do trabalho e à noitinha.

9. Fique o máximo de tempo possível com o seu bebê no colo ou no sling. Isso aumenta o vínculo, a ocitocina e a produção de leite.

10. Trabalhe os seus demônios ; aprenda a perder a neura de amamentar em público, permita-se sentir prazer na hora das mamadas e reflita sobre quaisquer emoções que podem estar te travando ou incomodando.

Para resumir: Amamentar é um processo fisiológico e instintivo, mas vivemos numa sociedade em que muitas forças atuam para impossibilitar o que é natural e saudável. Se queremos mesmo praticar a amamentação exclusiva, é preciso abrir os olhos para as armadilhas e nos proteger do marketing desleal, do corporativismo, dos mitos e das “boas intenções” de quem não entende do assunto. Espero que essa série de posts tenha contribuído, de alguma forma, para esse despertar.

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14 Comentários

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14 Respostas para “SBP, Nestlé e como essa aliança afeta você (parte 3)

  1. Ely, parabéns por essa maravilhosa trilogia. Li todos os textos, publiquei na página da AMS. Fico muito grata (e aliviada) quando leio textos tão empoderadores como o seu! Um beijo com carinho,

    Simone de Carvalho
    Moderadora da Comunidade Aleitamento Materno Solidário no Facebook

  2. nair

    Parabéns pelos textos, são estimulantes e muito bem escritos!
    Quero compartilhar uma dica para continuar a amamentação com a volta ao trabalho, que recebi de uma parteira que é mãe há cinco meses, e voltou ao trabalho 4 meses após parir: ela faz a retirada do leite com bomba no ritmo que o bebe dela mamava em casa, que era a cada 3 horas (sabemos q o tempo de cada bebe é diferente!). Cada vez q se aproxima o momento que o bebe dela está mamando em casa, no trabalho ela faz uma ordenha, cada vez de um peito, assim a produção de leite dela não diminuiu, fato comum das mães que retornam ao trabalho e fazem a retirada uma ou duas vezes por dia. Enfatizo tb a dica 9, ter o bebe perto do corpo, mesmo qndo dorme, ao inves de rapidamente colocá-lo no berço estimula o vínculo e a produção de leite.
    muito obrigada, beijos

  3. Natasha Delfino

    Como é bom encontrar textos como o seu, enfatizando a importância da amamentação e esclarecendo todos os interesses mascarados por trás da besteirada que ouvimos por aí, de comadres a médicos (como você bem enfatizou)..
    Confesso não conseguir entender como uma mãe pode abrir mão de um momento tão pleno e divino como amamentar. E, arrisco-me a dizer aqui, talvez mais divino ainda que a gestação.. Acabou-se a espera, aquele ser está ali, se alimentando de você e sorrindo de prazer e gratidão. Que coisa mais linda!
    As taxas de crescimento são meros detalhes em vista de todos os benefícios da amamentação, mas até nisso minha Marina sai na frente de muitos bebês alimentados com LA: engordou mais de 1500kg por mês até agora, cresce forte e sadia.. um viva à amamentação em livre demanda!

    • Lindas palavras, Natasha. E parabéns pela Marina Mamona :) Ainda não vivi isso, mas pretendo amamentar por muuuuuito tempo quando for a minha vez. Obrigada pelo comentário! Bjo, Clarissa

  4. Olá!
    Adorei o post, tem ótimas informações. Pelo meu histórico familiar, desde o início procurei uma equipe humanizada e que apoiasse a amamentação, além de ler muito e fazer o curso de cuidados com bebês e achei que estava preparada, que não seria difícil. Mas eis que depois de um parto natural lindo e domiciliar tive uma retenção de placenta e acabei ficando internada separada da minha filha por 30 horas (mas amamentei por 4 horas assim que ela nasceu). Saindo do hospital não conseguia amamentar de tanta dor, parecia que ela iria arrancar meus mamilos. Não era exagero, ela tinha disfunção motora oral, que faz com que o bebê morda ao invés de sugar, e além de machucar a mãe, acaba não se alimentando. Mas nesse momento o pediatra recomendou uma fono, para fazer exercícios específicos. Tive que dar complemento no copinho, pois até mesmo ordenhar era dolorido. Somando a falta de sucção, a minha anemia, o uso de antibióticos e o estresse todo, o leite começou a diminuir. Resolvida a disfunção para sugar, com o apoio da obstetriz, do obstetra e do pediatra, iniciei os medicamentos para estimular a produção e a seguir a translactação. Quando ela estava com pouco mais de duas semanas finalmente voltamos para a amamentação exclusiva, isso já faz quase 5 meses. Acredito por tudo que passei que a ajuda do pediatra e de toda equipe é fundamental, principalmente quando todo mundo fala para dar logo uma mamadeira e resolver o problema.

    • Uau, Daniela, que história! Realmente, muitas mulheres e ainda mais profissionais teriam desistido nessa situação. Você é realmente uma inspiração. Espero que você continue compartilhando sua história com outras mulheres para que mais gente conheça a relactação e a importância de buscar profissionais sérios, cujo comprometimento é com a saúde da mãe e do filho e não nos lucros ou na própria conveniência. Parabéns e obrigada por contar a sua história! Bjo, Clarissa

  5. Priscilla Bezerra

    Pois é, se assusta ouvir alguém dizer que amamentar é coisa de pobre, imagine o que pensar quando se ouve dizer o mesmo sobre parto normal?! O médico de uma amiga a enrolou durante toda a gestação para conversar sobre o parto, sempre dizia que era cedo. Quando ela completou 8 meses, eis que ele julgou a hora certa para finalmente falar do assunto. Quando ela disse que a preferência era o parto normal, ele riu debochadamente e disse que isso era coisa de pobre, que essa história de parto normal era para quem não podia pagar por uma cesárea. Ele ainda conseguiu piorar tudo, pois comparou a cesárea ao camarão, disse que pobre tem mania de dizer que não gosta de camarão só porque não pode pagar pelo mesmo, caso contrário, gostaria. Na época eu nem tinha noção de nada sobre partos, mas o discurso dele me incomodou demais e minha vontade foi denunciá-lo. Tenho HORROR a ele até hoje.

  6. Voltei aqui para contar mais uma etapa da nossa história… Quando li este post falando que amamentar para muitas pessoas era coisa de pobre e tal, achei interessante e fundamentado, mas não imaginei que no meu círculo de convivência alguém realmente acreditaria nisso. Estava enganada! Quando a Natália completou 5 meses minha mãe começou a encher a minha grande paciência para que eu começasse logo a alimentação complementar, por que eu já estava atrasada, que ela TINHA que comer, imagina ficar somente da dieta líquida, que ela deveria tomar água ou chá, etc, etc. E eu sempre explicando que eu entendia que no tempo dela as coisas eram diferentes, que se tinha outra cultura, mas que agora a medicina evoluiu, que há novas evidências, blá blá blá… até que argumentei que tem até campanhas do governo para a amamentação exclusiva até os 6 meses, que passa na tv, tem cartazes nos postos de saúde… E aí ela solta: “mas isso é para quem não tem dinheiro para dar comida para o filho, essas pessoas seguram com o leite por que não tem mais o que dar, e que tu tendo condições de dar tudo do bom e do melhor para a tua filha não pode se negar a dar comida para ela”. Fiquei passada!!! E respondi que este pensamento dela vem da cultura que amamentar é coisa de pobre, de quem não tem comida. A coisa foi tão séria que acabamos ficando mais de uma semana sem nos falarmos… E eu fiz a introdução de alimentos com 6 meses completos (ok, antes deixei ela experimentar algumas coisas que ela “roubava” da minha mão enquanto eu comia, mas sem oferecer, mas também sem impedir), seguindo as orientações do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria (eles tem um manual de alimentação ótimo!), e hoje (7 meses e meio) ela come muito bem, obrigada, suas 3 refeições por dia mais um mínimo de 6 mamadas. E quando eu digo para minha mãe que ela come bem sabe o que eu escuto? “ela passou fome por muito tempo”, por que eu amamentei exclusivo até os seis meses… #eumereçoisso

  7. Parabens pelos posts!! Fiquei impressionada ao perceber de como eles nos assediam para nos obrigar a parar de amamentar. Tenho uma filha de 3 anos que mamou até eu engravidar novamente (estou gravida de 18 semanas agora!), e de vez em quando ela ainda pede o peito e eu nunca recusei, ela teve amamentação exclusiva até os 6 meses e NUNCA tomou fórmula! Recebi muitas criticas de pessoas que me viam amamentar na rua uma criança grande, ou que inventavam histórias do tipo, seu leite não vai sustentar o suficiente…mas consegui vencer tudo isso e hoje colho os frutos, uma filha grande, saudavel, que como toda criança fica as vezes gripada, ou doentinha, mas tem uma recuperação maravilhosa. Hoje minha filha tem o seguinte histórico médico, mesmo nascendo com bronquite e infecção no pulmão o aleitamento materno contribui para: primeira gripe: 1 ano e 5 meses! Nenhuma internação, 1 única virose, que foi tratada em casa quando tinha 2 anos e mesmo quando tinha crises de bronquite todas facilmente controladas, sem necessidade de bombinha ou medicamentos mais fortes de uso continuo. VALE A PENA AMAMENTAR! Pode parecer dificil no começo e vc pode receber criticas mas a tranquilidade de ter um filho saudavel não tem preço.

  8. Neyara

    Orgulho ENORME da minha irmã, pediatra, que trabalha em 2 postos de saúde atendendo crianças (e as mães também) carentes. São as que mais pedem pra liberar o Danoninho, os salgadinhos, os mingaus… E minha irmã, enfática: até os seis meses, além do leite materno, não precisa de mais nada, nem água!
    Aliás, ela não deixa entrar no consultório dela crianças comendo salgadinhos de milho, coca-cola (às sete da manhã, acredita????) As crianças entram, o que fica fora são as bobagens, hihihihi…
    Incentiva não só o aleitamento exclusivo, mas a doação aos bancos de leite, tendo, ela mesma, doado muito!
    Dá pra deixar de ter orgulho de alguém como ela, que vai contra a corrente?
    Beijos,
    Neyara
    p.s.: quando eu tiver meu bebê, espero ter a mesma paciência da minha mãe, que me aguentou mamando até os 3 anos! :D
    p.p.s.: dizem que erva-doce ajuda a dar mais leite, além de ser uma delícia!

  9. Patrícia

    Meus filhos foram amamentados exclusivamente até os 6 meses. Nem água eles bebiam (e isso foi uma luta contra as avós, acredite! rs)
    Infelizmente, ambos, ao experimentarem uma mamadeira, realmente se desinteressaram do peito, o q me entristeceu profundamente…
    Mas o importante é q cresceram saudáveis e tudo deu certo no final!
    Sem dúvidas a amamentação é a melhor opção, mas depois do período exclusivo, todas corremos o risco dos pequenos abandonarem o seio materno… infelizmente!
    E nessas horas é q temos q nos render e valorizar um bom complemento… não tem muito como fugir disso qdo chega a hora certa!

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