Parto domiciliar: o que você deveria saber antes de julgar

O parto domiciliar está na mídia e na boca do povo. Infelizmente, tem muita gente escrevendo sobre o assunto sem o menor embasamento, sem ler um único estudo e sem a menor vontade de compreender o que leva uma mulher a fazer essa opção. Além das menções sensacionalistas e as descaradamente reacionárias, tem gente dizendo asneiras como “o parto em casa está na moda (por causa da Gisele Bündchen)”. Discordo: moda é quando algo está sendo adotado por uma maioria (neste sentido, moda é cesárea agendada). A realidade é muito menos interessante: o parto domiciliar é simplesmente uma opção – milenar, diga-se de passagem – abraçada por um grupo seleto de indivíduos, bem informados e conscientes, que compartilham de uma mesma filosofia.

A intenção deste post é explicar essa filosofia e defender a escolha consciente pelo parto em casa, entendido aqui como um parto conduzido em domicílio, natural (sem uso de drogas para acelerar o trabalho de parto ou anestésicos), na companhia de profissionais treinados (médico, enfermeira obstétrica, obstetriz ou parteira) em que mãe e bebê são considerados de baixo risco (estabelecido no pré-natal).

1. O parto é um evento fisiológico. Sei que isso é óbvio  – até mesmo os manuais de obstetrícia diriam o mesmo -, mas, na prática, a obstetrícia tradicional não respeita muito a fisiologia o parto e, geralmente, um parto hospitalar transforma-se num evento médico, uma oportunidade para submeter a paciente (sim, entrou no hospital e você vira uma doente, mesmo estando comprovadamente saudável o suficiente para gerar uma vida) a uma série de intervenções. Entre elas estão (basicamente em ordem) a tricotomia, a ocitocina sintética, a anestesia, a posição de litotomia, a episiotomia e a manobra de kristeller. Prometo escrever um futuro post sobre parto hospitalar tradicional para quem quer saber o que são essas coisas. No momento, o importante é dizer que o parto domiciliar, por acontecer no território da mulher e por ser acompanhado por profissionais que acreditam na fisiologia do parto, é livre de intervenções desnecessárias. A crença no parto como evento fisiológico se sustenta com base em estudos recentes sobre fisiologia do parto e também no senso comum: afinal, somos animais e não teríamos atingido uma população de 7 bilhões se o parto fosse um evento que necessitasse grandes intervenções médicas.

2. O parto domiciliar assistido e planejado é seguro. Embora a grande mídia ou o seu obstetra afirme o contrário, vários estudos comprovam a segurança do parto em casa. O mais notável é o estudo holandês – que traz dados de quase meio milhão de partos – e dois estudos recentes de 2005 e 2009 corroboram a conclusão de que o parto domiciliar é tão seguro quanto o parto hospitalar, para mães e bebês, e com menos intervenções (desagradáveis) para ambos. O único estudo relevante que traz dados pouco favoráveis ao parto domiciliar foi duramente criticado por publicações de peso como Nature e o The Lancet por causa da metodologia muito suspeita usada para medir a mortalidade perinatal (entre outros “detalhes” metodológicos, eles incluíram casos de partos extra-hospitalares não planejados, como nascimentos a caminho do hospital ou em casa desassistido). Mesmo assim, até esse estudo controverso confirma que, para a mulher, o parto domiciliar tem índices mais favoráveis (mortalidade, morbidade e intervenções) que o parto hospitalar. Vale a pena acrescentar que no parto domiciliar planejado sempre há um plano B e que, em caso da necessidade de transferir para um hospital, a equipe de assistência está preparada para essa eventualidade.

3. A visão tradicional e hegemônica sobre o parto não é necessariamente baseada em evidências científicas. Isso merece um outro post, mas o resumo é: várias práticas médicas vigentes são baseados não em dados científicos comprovando sua validade, mas em “achismo” ou “tradição” ou “ritual”. Isso ajuda a explicar por que os especialistas entrevistados pelos jornais e revistas (todos obstetras) são contra o parto domiciliar. A maioria não leu estudos sobre o assunto (só citam o estudo desfavorável, mencionado acima e ignoram dezenas de pesquisas mostrando o contrário). E pior: a esmagadora maioria dos médicos nem sabe o que é um parto 100% natural, protagonizado pela mulher e pelo bebê com toda a sabedoria milenar do corpo, dos hormônios e do instinto animal de parir. Os médicos treinados em obstetrícia aprendem na faculdade dois tipos de parto: cesárea e parto vaginal com intervenções de rotina. Basta ler um pouco sobre a história da obstetrícia para ver que o conhecimento médico é como grande parte do conhecimento humano: imperfeito, incompleto e totalmente ideológico. Infelizmente, essa ideologia hegemônica é compartilhada pela mídia e pelo povo como um todo. A sorte é que temos neurônios e estudos científicos como os citados anteriormente para pensarmos sobre essa ideologia com olhos críticos.

4. Parir na intimidade do lar permite uma experiência única e muito recompensadora. Veja qualquer vídeo ou leia qualquer relato de um parto realizado em casa e você vai começar a entender por que muitas mulheres alimentam o sonho de parir de forma natural, na presença de pessoas benquistas, num ambiente acolhedor e seguro e familiar,  onde vão se sentir livres para entrar nas posições e fazer os barulhos que bem entendem. Mais uma vez, isso está relacionado ao primeiro ponto (o parto como um evento fisiológico e, vou mais longe, um evento sexual). É impossível não se emocionar com a beleza e a magia de um parto totalmente natural. Por favor, entre AGORA no Google ou no YouTube e faça essa busca por relatos ou vídeos de partos em casa. Recomendo também o filme “Orgasmic Birth”.

Espero que eu tenha conseguido mostrar que o parto domiciliar é um entre as milhares de possíveis escolhas que estão abertas às gestantes de baixo risco. Outras escolhas incluem: parto normal hospitalar, cesárea intraparto, cesariana previamente agendada, parto natural hospitalar, parto normal induzido, parto domiciliar desassistido, parto natural em casa de parto… É uma lista bem extensa. Cada uma com suas vantagens e suas desvantagens. Num mundo ideal, qualquer escolha seria considerada válida contanto que fosse feita com base em informações de confiança, sem outros interesses que não a saúde da mãe e do filho e desejo da mulher. Esse mundo ideal, onde a inteligência e o protagonismo da mulher são respeitados, ainda não existe. Mas eu pretendo lutar por ele. E você?

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23 Comentários

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23 Respostas para “Parto domiciliar: o que você deveria saber antes de julgar

  1. Carol Carvalho

    Fantástico! Muita claro e sensato esse texto. Ou melhor, todo esse blog!

    • Carol! Que bom te ver por aqui :) Apareça mais! Estou começando nesse universo blogueiro, mas essa troca é muito boa. Bjo grande!

      • RENATO

        Não sou médico obstetra, mas sei bem das intercorrências possíveis em um trabalho de parto. Querer desmecerer a evolução da segurança no parto com a hospitalização é similar a dizer que a comunicação por sinais de fumaça era melhor que a internet ou o celular, porque o sinal de fumaça não falhava! Mas arrisca a vida quem quiser, eu estudei muitos anos pra saber dos perigos e orientar parentes e amigos sobre a opção menos arriscada [e mesmo com toda parafernalha de apoio no hospital, ainda assim não se está 100% segura]. SOU CONTRA BRINCAR DE DEUS COM VIDAS ALHEIAS!

  2. Excelente texto… Precisamos desmistificar o nascimento no aconchego do lar e que não importa aonde estará essa mãe, se tiver alguma intercorrência tanto em casa ou no hospital medidas serão tomadas da mesma maneira para salvar essa mãe e o esse bebezinho!

    No começo dessa semana o jornal da minha cidade tratou como uma tragédia sem tamanho o fato da mulher ter tido bebê no carro e o mais revoltante é que a Ginecologista que deu entrevista culpou a classe social pq em torno de um mês atras uma mulher (que tbm mora no mesmo bairro que a do carro e é uma região menos favorecida da cidade) deu a luz em casa sozinha com 2 filhos pequenos e ela não tinha como ligar pra ngm já que não tinha celular, mas ela deixou claro quando deu entrevistas que sabia o que estava fazendo, soube até mesmo cortar o cordão umbilical e mesmo assim a julgaram como insensata!

    Fiquei profundamente revoltada com isso e nos últimos 2 meses apenas 3 mulheres aqui em Campo Grande – MS tiveram partos longe de hospitais ou maternidades. Disse via twitter e Facebook que quando eu tiver meu PD vou virar noticia certamente, acho que vão ficar falando por uma semana inteira da mulher louca que pariu em casa por escolha própria, porém se tudo der certo não vou ser a primeira já que até ter outro bebê, assim espero, vou estar formada em Enfermagem Obstétrica e ao menos o parto da minha cunhada se ela não tiver engravidado antes de me formar será em casa, já estou tratando de convence-la!

    Sou absolutamente a favor do parto humanizado ou em casa!

  3. Perfeito!!! Posso compartilhar no meu blog?
    Beijos, Niti
    http://maternabebe.blogspot.com/

  4. UAU!!!! Disse tudo e com maior clareza seria impossivel!! Parabéns!! òtimo post!!!! Vou compartilhar tá…

  5. Ric Jones

    Parabéns, excelente texto. Resumiu de forma competente os principais pontos relativos à segurança do parto em domicílio. Mostrou também as vantagens e a importância de planos alternativos.
    Beijos

    Ric Jones

  6. Gostei muito do texto, vou divulgar também. Parabéns!
    Beijos

  7. Silma

    Achei legal o teu post,concordo que se não tem riscos p/ ambos e os pais podem financeiramente custear o parto domiciliar acho ótimo…não sei no resto do Brasil mas aqui em Blumenau não é muito baratinho p/ se fazer um parto domiciliar…tenho amigas que tiveram o parto cocoras,mas foi no hospital pelo SUS,porque em casa nem pensar…mas fico feliz com as que conseguem de um jeito ou de outro trazerem seus filhos ao mundo como eu trouxe a minha princesinha,não foi como eu queria de início,mas quando coloquei na balança que o mais importante ere ela nascer bem e com saúde o resto não teve a menor importância,não foi Planejado foi tudo tão rápido que eu nem tive tempo de ter medo ou insegurança,e fiquei super feliz quando o médico disse é uma menina,pois eu não ver o sexo durante a gravidez.

  8. Patricia

    Gostei muito!
    Uma pena muitas familias terem a preocupação voltada para a cor dos protetores do berço ao invés de informações sobre o processo do qual estão fazendo parte.
    Eu torço muito pra que cada vez mais familias busquem aprender pra escolher.
    Parabéns!

  9. Kel

    Recentemente ouvi de uma gestante a seguinte frase “acho que vou agendar uma cesárea pois não quero me frustar. Todas as minhas amigas que tentaram um parto natural acabaram numa cesárea”. Concluí o seguinte: alguns (pouquíssimos e raros) médicos conseguem arrumar pacientes com boa genética parideira, portanto tem um índice de parto natural altíssimo. Outros (veja que triste), só conseguem pacientes incapacitadas geneticamente, por isso suas taxas de cesárea beira os 90%, isso qdo não ultrapassam essa porcentagem. Infelizmente essa é a realidade obstétrica do nosso país. Tive meu PD e posso afirmar com todas as letras, essa foi uma escolha absurdamente acertada. Nada como parir no seu próprio ninho. Parabéns pelo texto!

  10. Esse post fortaleceu mais ainda a minha escolha pelo parto domiciliar para quando for ter um filho.

  11. Pingback: Parto domiciliar: o que você deveria saber antes de julgar

  12. Patrícia

    Achei muito legal (pra variar…rs) seu texto!
    O parto domiciliar assistido, por uma equipe com competência para atuar numa emergência, considero q seja seguro e sem dúvidas mais “íntimo”, digamos assim…
    Mas também vejo uma desvantagem em não poder contar com o fator higienização. Tipo, um centro cirúrgico tem tooodo um aparato p evitar q as coisas saiam erradas e, ainda assim, às vezes saem… imagino q esse fator faça alguma diferença e eu, particularmente, teria um pouco d receio d arriscar…
    Eu sou mais simpática àquele tipo d parto q é bem parecido com o domiciliar qto a presença e atuação do marido e tudo mais, só q com a diferença d ser feito no hospital… na minha concepção favorece a intimidade, como também aumenta o fator segurança, afinal: qto mais melhor! rs

  13. Roza

    Não consigo parar de ler seu blog! Minhas sobrinhas nasceram em casa e foi tudo super tranquilo, mas vivem na Nova Zelândia onde esse sistema é super apoiado pelo Estado. O acompanhamento é feito junto a “parteira” e o marido recebe orientações para que ajude a mulher no parto.
    Obrigada pelas informações, assim ficamos mais fortalecidas e seguras para a batalha de tranquilizar a família que acredita q o melhor mesmo é ir “pra faca”. Beijos

  14. Horácio Ferreira Cunha Bastos

    A primeira vez que acesso seu blog, achei seu texto magnífico, desmistificando o Parto no domicílio, fico muito feliz em saber que existem pessoas como vc ativista pelo direito de escolha da mulher pelo local do seu parto. Sou Enf.Obstetra e Parteiro Urbano, vivencio o Parto Domiciliar em Belém/Pará

  15. Assim que nasci, tive duas paradas cardíacas absolutamente imprevistas, tive que ser ressuscitado e passei muitas horas num respirador. Tem equipamento para isso no parto domiciliar?

    • As parteiras urbanas – enfermeiras obstetras e obstetrizes – são capacitadas a fazer reanimação neonatal sim, e as famílias que fazem essa opção se preparam pra uma possível transferência. A parada cardíaca neonatal é um evento muito raro que costuma estar associado a outros fatores de risco que contraindicam parto domiciliar (ex: prematuridade, anestesia). Na dúvida, converse com uma parteira! Abraço

  16. fernanda

    Sou muito a favor do parto domiciliar e adorei o texto. Infelizmente esse processo natural está tão marginalizado, há poucos profissionais que se dispõem a acompanhar o parto em casa e acabam cobrando muito caro por esse serviço. Muitas mulheres não tem condições de pagar cerca de 6 mil reais pelo nascimento do filho da forma mais natural.

    • Fernanda, concordo que as opções para parto domiciliar ainda são poucas, dependendo de onde a pessoa mora. Muitas profissionais negociam seus honorários, embora, claro, poucas estejam dispostas a trabalhar de graça. Vale conversar. Para quem não tem como pagar um profissional privado, há as opções das casas de parto. Em BH, já existe a opção de parto domiciliar pelo SUS! E quanto mais a demanda crescer, mais opções teremos. É para isso que o movimento da humanização do parto luta: para opções melhores e mais acesso a elas! Abraço, Clarissa.

  17. Pingback: Relato – Meu parto normal humanizado domiciliar | Bahta

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