A mãezinha da capa vermelha: um conto de fadas

Era um vez uma futura mãezinha, linda e barriguda, levando em sua cestinha perguntas para a vovozinha. Sua avó era uma sábia anciã, que havia parido 10 filhos em casa, com parteira, e ajudara a trazer ao mundo seus 27 netos. A futura mãezinha estava grávida do primeiro bisneto da anciã e tinha certeza de que poderia contar com a sua avó para controlar seus medos e ansiedades.  Sabia que suas dúvidas seriam ouvidas com carinho e que poderia encher sua cestinha com dicas de como se preparar física e emocionalmente para o dia em que traria seu filho ao mundo. Mal sabia ela, a jovem mãezinha, que o lobo mau estava à espreita.

(c) Jessie Wilcox Smith

O lobo mau era o dono do pedaço. Dominava todos os bichos da floresta com sua astúcia e sua força. Gozava de muitos privilégios por ser o bicho mais poderoso da floresta. Mas a vovozinha era uma pedra em seu sapato; ela por si só até que era inofensiva, mas seu estilo de vida não era o que o lobo queria para sua floresta, que estava aos poucos ficando do jeito que gostava: ordenada, previsível, vigiada. No casebre da anciã, as flores cresciam sem a menor lógica, as ervas daninhas não eram extraídas com a devida diligência e o fogão ainda era a lenha. Tudo muito antigo e primitiva, segundo o lobo. A velha também não comparecia às reuniões promovidas por ele; às vezes, ignorava seus avisos, mostrando-se resistente ao novo visual, limpo, moderno e avançado, que ele queria dar à floresta. Estava na hora de ensinar a ela uma lição.

O lobo foi à casa dela e, sabendo da visita semanal da  sua neta grávida, aproveitou-se da ingenuidade da velha para lhe dar uma paulada na nuca, escondê-la no armário, e começar seu teatrinho. Sentiu um frio na barriga e uma descarga de adrenalina. A verdade é que o lobo gostava do poder, mas gostava também de se fantasiar – de ovelha ou de vovózinha, não importava. Vestiu as roupas da velha, colocou a touquinha na cabeça e tratou de relaxar seus músculos e suavizar o seu olhar para ficar com cara de bonzinho.

A mãezinha apareceu, ansiosa e sem fôlego, e foi logo ao assunto.

“Ai, vó, estou tão cansada! Essa barriga pesada, as pessoas toda hora me ligando, perguntando se já nasceu… Não aguento mais,” desabafou.

“Minha filha,” começou o lobo, em tom compassivo, “não se cobra tanto. Hoje em dia, ninguém precisa mais passar por isso. Por que você não marca logo a cesárea como fizeram suas amigas?”

“Mas, vó,” protestou a jovem, “até parece que a senhora não ouviu nada do que eu disse esses meses todos. Eu quero parto normal!”

“Sim, filhinha,” disse o lobo, alisando as orelhas. “Mas o neném já tá prontinho, o quartinho também, as roupinhas lavadas e passadas. O médico não disse que já podia nascer? Hoje em dia a cesárea é super segura, pra quê tentar o normal?”

“Vó, não estou te reconhecendo. A senhora não vê que isso é papo de médico, só por que é mais conveniente para eles? Eu sei dos benefícios do parto normal e prefiro esperar.”

O lobo esfregou os olhos. Tentou uma nova estratégia.

“Tudo bem, minha filha. Você pode tentar. Mas saiba que na nossa família, as mulheres têm a bacia muito estreita. E os bebês  hoje em dia são imensos. Na hora, não fique chateada se você não tiver passagem.”

Isso foi demais para a mãezinha da capa vermelha. Ela tinha lido os livros certos e frequentado grupos de apoio: sabia que isso não passava de uma tática para meter medo nas mulheres. Definitivamente, algo não cheirava bem.

“Não, não e não!” gritou ela, assustando o lobo. “Eu sei que todas as mulheres da família tiveram parto normal, caso contrário, não estaríamos aqui hoje. Sinto, do fundo do coração, que eu também serei capaz de parir. E vejo que você não é quem você diz.”

“Calma, mãezinha,” tentou o lobo. “Eu só quero o melhor para você. Posso te oferecer o melhor da tecnologia e da ciência. Um parto rápido, limpo, planejado e sem dor.”

Finalmente, o lobo mostrou as garras: era mesmo um lobo cesarista, como ela suspeitara.

“Dr. Lobo,” disse a futura mãe, em alto e bom tom. “Você me subestimou. Achou que eu era mais uma mãezinha mal informada e ingênua. Mas, dessa vez, doutor, quem se enganou foi você. Eu sou a mulher da capa vermelha, sou guerreira – luto para conseguir o que eu quero – e eu vou parir o meu filho.”

E com isso, abriu as portas do armário, segurou sua vózinha com firmeza e saiu da floresta do lobo.

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11 Comentários

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11 Respostas para “A mãezinha da capa vermelha: um conto de fadas

  1. Hahaha… O lobo cesarista! Eu, que queria tanto ter parto normal, acabei fazendo 2 cesarianas. Mas a recuperação foi super-rápida, sem nenhuma complicação. Só ficou uma cicatriz feia, mas eu nem ligo. Beijos, querida Cla! Parabéns pelo novo blog!

  2. Tem que divulgar para as revistas de bebês… Olhe o expediente das revistas e mande email com o endereço, explicando em poucas linhas o que é o blog. Aposto que vai sair alguma nota!

  3. Maria Alice

    A-do-rei! O texto é seu? Muito bom!

  4. Nossa! voce escreve muito bem…muito legal! lindo mesmo!! Espero fazer parto normal também e fugir do lobo cesarista! >D

  5. Pingback: Sete razões para não marcar o seu parto | a mãe que quero ser

  6. Pingback: Sete razões para não marcar o seu parto « Rebecca Lerina

  7. Patrícia

    kkk muito bom!
    Só acho q a cesárea não deve ser algo totalmente descartado e visto como um mal sempre, afinal ela é um progresso e comprovadamente têm casos em q salva vidas.
    Qtas mães e/ou filhos morriam antigamente pela falta desse recurso???
    Concordo q sua real necessidade é beeeem menor, mas existe.
    Também não acho legal a mulher ficar super na expectativa d só normal, normal, pq, é mínimo, mas pode acontecer d ser necessária uma cesariana… digo com propriedade, pq eu mesma caí nesse erro, e me senti super frustrada qdo não pude ter minha filha por parto normal…
    Só pra lembrar q, na dúvida, também é bom ter um “lobo” por perto…rs

  8. Cynthia

    Olá tenho 2 filhos nascidos de cesárea será que vc tem um email para trocarmos informações ? Gostaria de ter outro filho e gostaria de contar em detalhes os meus partos e o que pode ser feito no próximo.

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